Como a imprensa ajuda a fomentar o fundamentalismo

Nos últimos tempos, muitas pessoas tem discutido na Internet a respeito do crescimento do fundamentalismo nas discussões políticas. Essa reportagem da Revista Galileu é um exemplo. Esse texto do Leandro Beguoci no Gizmodo é outro. É chato admitir, mas é um fato que os discursos fundamentalistas estejam ganhando corpo. E isso acontece por alguns motivos.

O primeiro deles é que os políticos estão deixando de lado o método científico enquanto ferramenta de atuação. E esse não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Nos EUA, na Austrália e em outros países, crescem discursos com pouco embasamento na realidade, como o do negacionismo em relação às mudanças climáticas provocadas pelo homem. Além disso, o crescimento das redes sociais (e do fluxo de informações em geral) promove democratização, mas também promove desinformação: a ausência de filtros faz com que aquilo que é “místico” ou “conspiratório” ganhe mais espaço do que as coisas embasadas cientificamente. Por um motivo simples: as pessoas tem interesse especial pelo fantástico, pelo místico, pelas histórias simples que respondam aos seus questionamentos, que dêem conta daquilo que elas não sabem. Carl Sagan já falava sobre o assunto em “O Mundo Assombrado Pelos Demônios”:

O Mundo Assombrado pelos demônios, pp. 30-31

O Mundo Assombrado pelos demônios, pp. 30-31

O grande objetivo da ciência, desde o princípio, foi com a descoberta de da validade de pressupostos. A ciência questiona, analisa e coleta resultados com métodos específicos para que pressupostos possam ser validados e falseados. Nesse sentido, a ciência assemelha-se ao jornalismo: enquanto a ciência utiliza-se de métodos para validar ou falsear pressupostos, resolvendo questionamentos prévios e aumentando nossa compreensão sobre o funcionamento do universo, o jornalismo faz o mesmo em relação à informação: o exercício de apuração de notícias e de confronto de versões tenta se cobrir da mesma noção questionadora e esvaziada de conclusões prévias que a ciência tem.

A ciência e o jornalismo tem um inimigo em comum: as teorias e versões conspiratórias, deturpadas, com pouco ou nenhum embasamento em fatos reais. Por isso, é necessário que ambos sempre tenham o cuidado de buscar a precisão. Assim como um cientista deve buscar a máxima precisão possível quando faz uma medida, um jornalista deve buscar a máxima precisão ao transmitir uma informação. A falta de precisão tira a credibilidade do trabalho, ainda mais no contexto atual, em que há de fato uma concorrência entre a versão jornalística/científica da realidade e as versões conspiratórias produzidas por pessoas crédulas, que ignoram o método científico ou que só tem má fé mesmo.

Por isso, cada vez que um órgão jornalístico produz uma notícia com imprecisão, expondo uma manchete ou uma notícia com caráter tendencioso, ele produz conteúdo para os grupos fundamentalistas que acreditam em teorias conspiratórias ao invés de produzir conteúdo crível. Vamos analisar essa colocação tendo como ponto de partida um exemplo prático:

O Exemplo Prático:

Quem acessa as redes sociais com alguma frequência sabe que existem grupos políticos distintos na Internet, e que esses grupos políticos defendem ou atacam certos partidos políticos, muitas vezes motivados artificialmente (um eufemismo para “recebem dinheiro”).

Esses grupos, de caráter ideológico-corporativista, tem como objetivo a defesa de um grupo político (ou o inverso disso, que é o ataque a um grupo político oposto), e, para isso, obviamente são obrigados a se despojar de todo e qualquer método científico, uma vez que todos os grupos políticos, no Brasil e no mundo, fazem coisas boas e ruins. Mas a ausência de autocrítica em pronunciamentos públicos é característica desse tipo de militante não científico.

Por exemplo, vamos analisar essa manchete do Jornal O Globo, publicada em 08 de maio:

Mensalão título

Bem, a manchete é clara: na autobiografia de José Mujica, Lula deve ter confessado a ele que realmente articulou e participou do episódio específico do Mensalão, esquema que envolveu figurões do PT como José Dirceu, José Genoíno e João Paulo Cunha, desarticulado em 2005 após denúncia do então deputado federal Roberto Jefferson, que na época era líder do PTB na Câmara dos Deputados. É uma manchete grave, que expõe como criminoso a figura política mais importante do país nos últimos quinze anos. Deve ser apurada em seus mínimos detalhes, ainda mais vindo de uma pessoa de credibilidade internacional como o ex-presidente uruguaio José Mujica.

No entanto, observamos a citação a respeito atribuída a Lula na reportagem:

Frase Mujica

Vou transcrever exatamente o que Lula falou, para não deixar dúvida:

“Neste mundo tive que lidar com muitas coisas imorais, chantagens. Essa era a única forma de governar o Brasil” Luiz Inácio Lula da Silva, 2010

Vejam bem: é uma declaração completamente genérica do ex-presidente Lula, quase em tom de desabafo, expondo algo que sabemos ser verdadeiro: a máquina política (e a sociedade) brasileira sempre esteve impregnada de corrupção, de pessoas tentando utilizar bens públicos em benefícios próprios. Nenhuma citação ao Mensalão ou a qualquer outro evento. Nem mesmo uma confissão de que Lula teria aceitado tais “coisas imorais e chantagens”. Só uma frase genérica.

Não estou falando que Lula é inocente ou coisa do tipo. Não é esse o foco da discussão. Só estou dizendo que a própria reportagem desmente a manchete. E que esse tipo de imprecisão é prejudicial ao jornalismo, e só serve a dois grupos em específico:

Aos militantes anti-petistas, que, desprovidos de qualquer senso crítico (porque o militante, de qualquer área, é um apaixonado), lêem apenas a manchete e já saem compartilhando nas redes sociais que “agora está provado que Lula é um criminoso”, juntamente com uma série de impropérios.

Aos militantes petistas, que utilizam reportagens como essa para embasar conspirações como a de que “a imprensa é golpista” e de que “todos estão contra o PT porque o partido está mudando o país”.

A imprecisão e a má fé jornalistica produzem notícias que favorecem a grupos conspiratórios. A imprecisão e a má fé científica produzem resultados de pesquisas que favorecem a grupos específicos interessados nesse resultado (como os negacionistas das mudanças climáticas, por exemplo).

A verdade é que a ciência e o jornalismo podem encontrar pressupostos verdadeiros ou podem se conformar com meias verdades ou com verdades convenientes. Como a do Senador Ted Cruz, candidato à presidência dos EUA nas prévias do Partido Republicano, que disse em março sobre o aquecimento global que “Os dados de satélite demonstram que nos últimos 17 anos tivemos zero aquecimento, nenhum que seja”. É uma afirmação desonesta: ele pegou apenas os dados de 1998 e de 2015. 1998 foi um ano atípico, por conta da ocorrência do fenômeno El Niño com intensidade inédita. Até hoje é um dos anos mais quentes da história. Ted Cruz distorceu os fatos em nome de sua ideologia

Da mesma forma, ocorre com petistas e anti-petistas em relação à declaração de Lula para Mujica. Lula pode ter participado do Mensalão? Óbvio que sim. A declaração é uma prova cabal de que ele participou? Não. Mas os petistas utilizarão a reportagem do Jornal O Globo como “prova cabal de que querem destruir o PT”, assim como os anti-petistas usarão como “prova cabal de que Lula deveria estar na cadeia”.

Porque militantes apaixonados agem sempre assim: buscam não apenas tirar a credibilidade do que é falado, mas também de quem fala. E é por isso que cientistas e veículos jornalísticos precisam sempre fazer trabalhos de excelência, com a máxima precisão: para não dar espaço a esse tipo de militante. Para impor pressupostos verificados cientificamente ou apurados jornalisticamente sobre conspirações feitas por militantes da ignorância que fazem isso por credulidade ou por dinheiro.

Por que isso é importante? Por um monte de motivos. Inclusive, para dar uma resposta à altura à tal “crise do jornalismo”,  que tem afetado cada vez mais as redações brasileiras. E para a manutenção da coesão social, que se vê cada vez mais arranhada por discursos de ódio que começam nas redes sociais, mas que ganham cada vez mais reflexos e versões na vida cotidiana.

Carl Sagan, no mesmo livro citado no início do texto, fala sobre o assunto:

O Mundo Assombrado Pelo Demônios, p. 41

O Mundo Assombrado Pelo Demônios, p. 41

A ciência e o jornalismo são os elementos que a sociedade tem para combater essa “mistura inflamável de ignorância e poder” citada por Carl Sagan. É a única forma de vencer esse combate é fazendo ciência e jornalismo com precisão, com excelência. A imprecisão e a má fé na hora de pesquisar ou de informar são apenas combustíveis para essa “mistura inflamável de ignorância e poder”.

Mas aparentemente cada vez menos gente preza pela precisão e pela boa fé, seja na ciência, seja na política, seja no jornalismo. Nesse caso, é só aguardar a explosão dessa mistura inflamável de ignorância e poder. A “boa” notícia é que ela está dando sinais de que vai ocorrer logo.

Talvez o mérito desse texto seja só o de evitar surpresas.

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A Falácia da Terceirização como instrumento de liberdade econômica

Vi as propagandas da Confederação Nacional da Indústria e editoriais de jornais como Folha e Gazeta do Povo defendendo a terceirização e preciso falar uma coisa:

Quem associa terceirização com liberdade econômica ou é mal intencionado ou não entende nada de economia.

Como nasceu a terceirização? Bem, há serviços na minha empresa que não são minha especialidade então subcontrato quem é especialista nisso.

Só que nos países capitalistas periféricos, com uma elite acostumada ao trabalho escravo, terceirização virou precarização do trabalho. E hoje essa elite patrimonialista quer aplicar a terceirização em tudo pra aumentar suas taxas de lucro às custas do salário do trabalhador

Na prática, se a terceirização for aprovada, a concentração de renda vai aumentar absurdamente em um país que já é extremamente desigual (o nosso).

Um exemplo é o México: a violência, que já era um problema lá, explodiu depois da lei das subcontratações de 2012. Já se contratavam terceirizados de maneira precária lá antes, mas a lei regulamentou isso e fez dobrar o número de terceirizados em meros 3 anos (link: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/40147/prometendo+modernizar+lei+terceirizacao+no+mexico+consagrou+precarizacao+diz+especialista.shtml)

Além disso, o Brasil, que já investe pouco em inovação e em pesquisa, vai investir ainda menos com salários menores. Não tem atrativo pra mão de obra qualificada ser algo além de medíocre em um lugar onde ela sempre terá um contrato de trabalho precário e mal remunerado.

E quem tentar investir em pesquisa e desenvolvimento em um mercado fechado com relações de trabalho precarizadas vai falir, simples assim. Não é preciso inovar em um cenário medíocre e cômodo pros empresários, e isso é o resumo da história das políticas industriais no Brasil.

Porque os mesmos empresários que querem a terceirização pela LIBERDADE ECONÔMICA fazem lobby pra economia nacional continuar fechada. Pra produtos de fora serem sobretaxados. Pra continuarem vivendo das linhas de crédito com juros subsidiados oferecidas pelo governo.

Porque nossos empresários em geral são pouquíssimo produtivos, nos últimos 30 anos a produtividade da nossa indústria CAIU 15% (link: http://brasileconomico.ig.com.br/ultimas-noticias/em-30-anos-produtividade-da-industria-nacional-caiu-15_114488.html)

E daí o Brasil tá na rabeira de todos os rankings de liberdade econômica não “por ser comunista” mas porque é conveniente pro empresariado. Porque só assim um empresariado de produtividade ridícula sobrevive sem gastar quase nada em inovação (é bom lembrar que, além do Brasil, só Argentina, Indonésia, Rússia e Índia, dentre as 20 principais economias do mundo, contam com mais investimentos públicos do que privados em ciência)

E daí a imprensa e as associações de empresários defendem que a terceirização vai “aumentar a liberdade econômica”. Não, amigos, só vai aumentar a desigualdade econômica e consolidar a nossa posição de país periférico que tem um empresariado medíocre pagando muito mal por uma mão de obra medíocre.

Estilo o México, em que a violência explodiu porque compensa mais financeiramente fazer parte dos cartéis de tráfico de drogas do que trabalhar subcontratado de forma precarizada, ganhando um salário miserável.

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[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Último Capítulo

O capítulo final da série do Arthur Chrispin. Leiam e aguardem o livro Amém, que será lançado em outubro.

Cotidiano e Outras Drogas

O último capítulo da saga suburbana pode ser lido aqui

Ver o post original

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Eduardo Cunha comanda a Câmara como uma Igreja

Para entender a atuação de Eduardo Cunha no comando da Câmara dos Deputados, um pressuposto é essencial: ele veio do meio evangélico neopentecostal (mais precisamente da Igreja Sara Nossa Terra, que já teve fiéis como Baby do Brasil, Marcelinho Carioca e Monique Evans). Isso não seria um problema, se ele não pensasse na Câmara dos Deputados com a mesma visão hierárquica que ele tem de sua igreja neopentecostal. E qual é essa visão?

Bem, igrejas neopentecostais são extremamente centralizadas na figura do líder. Seja ele Pastor, Bispo, Apóstolo, Missionário ou qualquer outra coisa, que tem poderes similares ao de um “líder supremo”. No caso específico da Igreja Sara Nossa Terra, esse “líder supremo” é o Bispo Róbson Rodovalho.

E essa estrutura é justificada aonde? Em uma interpretação obtusa da Bíblia, obviamente. Passagens bíblicas como Romanos 13:1-5, por exemplo, são utilizadas para referendar a autoridade desses líderes (e dos pastores, nas igrejas locais) como algo vindo do céu e absolutamente incontestável, porque “a contestação traz condenação”:

Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus.
Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação.
Em verdade, as autoridades inspiram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim a quem faz o mal! Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás o seu louvor.
Porque ela é instrumento de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, porque não é sem razão que leva a espada: é ministro de Deus, para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal.
Portanto, é necessário submeter-se, não somente por temor do castigo, mas também por dever de consciência.
Romanos 13:1-5

Esses líderes ignoram o contexto óbvio da época: a igreja cristã de Roma era perseguida pelos Césares, e era relativamente comum que surgissem movimentos políticos subversivos dentro dessa igreja oprimida. Paulo desencoraja esses movimentos sistematicamente, temendo que a igreja cristã espalhada pelo Império Romano fosse dizimada pelo poder político da época (algo que era bem provável de ocorrer, aliás). A interpretação literal e descontextualizada dessa passagem bíblica (e de algumas outras, como a de que o pastor é o “anjo da igreja”, baseada em Apocalipse 1 e 2, o que é algo notoriamente falso) faz com que os líderes não admitam nenhum tipo de contestação, sob pena de “amaldiçoar” e “condenar” os irmãos da igreja.

É bom ressaltar que não são todas as igrejas que tem esse tipo de conduta: batistas, presbiterianos, luteranos e metodistas, em sua maioria, elegem pastores, presbíteros e diáconos por um tempo determinado, evocando o princípio de que a autoridade divina está expressa na igreja enquanto comunidade, e não apenas na figura do pastor. Outras igrejas não são tão democráticas, mas também não são tão centralizadoras: os pastores tem uma equipe ao seu redor que monta o planejamento eclesiástico e as funções são delegadas, fazendo com que as diversas áreas da igreja (música, ação social, limpeza, marketing, etc…) fiquem nas mãos de diferentes pessoas, que não precisam necessariamente do aval pastoral para tudo.

No caso específico de Eduardo Cunha, no entanto, isso não ocorre. Igrejas como a Sara Nossa Terra funcionam praticamente como franquias: o Bispo Rodovalho manda pastores para comandar novas igrejas e em algum tempo essa igreja tem que se mostrar viável financeiramente. É de se imaginar que, como “donos de franquias”, esses pastores adotem uma postura extremamente centralizadora, embasando-a na “autoridade divinamente constituída”. O problema é que Eduardo Cunha levou essa mentalidade para o Congresso Nacional.

A Câmara como uma Igreja

Ao enxergar a Câmara como uma igreja, Eduardo Cunha emula a rede que se forma em torno dos pastores evangélicos de igrejas neopentecostais como a Sara Nossa Terra. E como funciona essa estrutura? É quase como uma pirâmide: o grupo se reúne em torno do pastor não apenas por causa da motivação religiosa, mas também por promessas de ascensão hierárquica: o pastor sonha em se tornar um bispo e, quem sabe, em ter seu próprio ministério um dia; o presbítero sonha em se tornar pastor e em ter sua própria igreja; o diácono sonha em ser presbítero e em auxiliar o pastor de perto; membros comuns sonham com lideranças ou cargos. Isso não é generalizado, não acontece em todas as igrejas evangélicas, mas é muito comum, principalmente nas neopentecostais.

No Congresso, obviamente não há a motivação religiosa como elemento aglutinador e nem a visão do líder como uma autoridade divinamente constituída. Como Eduardo Cunha consegue exercer liderança então? Pra isso precisamos resgatar o pensamento de Walter Benjamin de que o capitalismo é uma religião. E na religião do capitalismo, o controle se dá pelo dinheiro.

Eduardo Cunha não se furta a ser agente de lobbies diversos, que vão bancar as campanhas eleitorais suas e de seus aliados. O processo funciona em duas etapas:

1) Eduardo Cunha vende favorecimento legislativo em troca de financiamento de campanhas eleitorais: ao chegar a acordos com empresas, Cunha consegue comprometer esses grupos a doar para seu grupo político na próxima eleição. Planos de saúde, indústrias de bebidas, empresas de telecomunicações, organizações empresariais, todos fazem esse jogo com Eduardo Cunha para verem seus interesses atendidos. No caso do L 4330/2004, que estende a terceirização a todas as atividades, a negociação foi diretamente com a FIESP e com a Firjan. Que certamente orientarão as empresas filiadas a doarem para o grupo político de Cunha na próxima eleição.

2) Eduardo Cunha vende dinheiro para campanhas eleitorais em troca de apoio. Na última eleição, estima-se que algo entre 20 e 30 deputados foram eleitos com o dinheiro arrecadado por Eduardo Cunha. Quanto mais Eduardo Cunha arrecada, mais ele pode bancar deputados.

Isso explica, por exemplo, a posição contrária de Eduardo Cunha ao fim do financiamento eleitoral por empresas. Sua sobrevivência política, baseada no escambo eleitoral, depende desse financiamento. É como se ele fosse um doleiro ou lobista, mas presidindo uma das duas casas legislativas federais.

E o que isso tem a ver com uma igreja? Essa troca de favores qualifica Eduardo Cunha a ocupar a posição de “líder absoluto”, que é o estilo de liderança que ele herdou do meio eclesiástico. Além disso, esses deputados vassalos de Eduardo Cunha ganham outros privilégios, como os cargos distribuídos em órgãos internos como a TV Câmara.

Por que esse modelo é insustentável?

Nem vamos entrar no mérito de que isso é uma violação das instituições democráticas e um sequestro da casa legislativa para interesses pessoais e corporativos, porque isso é óbvio demais e Eduardo Cunha não foi o primeiro sujeito a cometer esse tipo de coisa. Mas o modelo de Eduardo Cunha é totalmente insustentável.

O primeiro motivo, mais óbvio, é o de que o Congresso não é uma igreja. Se a graça de Deus é infinita, o dinheiro não é. E existem deputados que não se rendem aos esquemas de Eduardo Cunha. Ou porque já tem seus próprios esquemas, ou porque são honestos, ou porque tem ojeriza política de uma figura tão polêmica e centralizadora. Em uma posição de poder como a de Presidente da Câmara, a oposição a Eduardo Cunha é inevitável.

O segundo motivo é que a postura centralizadora e midiática de Eduardo Cunha vai fazer com que ele colecione inimigos, na Câmara dos deputados e na sociedade civil. A exposição excessiva de Eduardo Cunha em temas polêmicos, como terceirização, maioridade penal, orgulho hétero, sucateamento do SUS e a Reforma Política corporativista do PMDB só vão acelerar o processo de fritura política de Cunha.

Além disso, Cunha foi indiciado na Operação Lava Jato, com provas bem consistentes. A maioria delas se baseia em delações premiadas, como a do doleiro Alberto Yousseff, devidamente referendadas pelo STF como provas. Renan Calheiros e Eduardo Cunha sabem que tem vida curta nas presidências do Senado e da Câmara dos Deputados. Enquanto Renan, que já lidou com diversos outros escândalos, adota uma postura mais discreta, Eduardo Cunha tenta aprovar todos os projetos de sua pauta conservadora-empresarial em um ritmo alucinante, passando por cima dos próprios regimentos da Câmara. Inclusive projetos de constitucionalidade discutível, que acabam no STF, provavelmente adiando o julgamento da… Lava Jato.

E, finalmente, há uma resistência interna crescente, dentre os próprios aliados. A postura de Cunha difama o próprio Congresso Nacional, colocando-o como vilão para a sociedade e dando uma justificativa para o Executivo terceirizar a culpa em relação à situação atual do país. Deputados do PMDB, que só querem cargos e vantagens, precisam de DISCRIÇÃO, e a postura do Eduardo Cunha atrapalha demais isso. Antes de serem fiéis do Cunha, esses deputados tem instinto de sobrevivência: só querem eternizar suas vantagens, e o Eduardo Cunha tratando o Congresso como uma igreja certamente não ajuda nisso.

Igrejas frequentemente se dividem, por cisões internas inconciliáveis. Isso ajuda a explicar, junto com o trabalho missionário, porque existem hoje no Brasil tantas Igrejas Evangélicas. Na Câmara dos Deputados, esse tipo de cisão não é possível. E a liderança absolutista de Eduardo Cunha vai encontrar progressivamente menos respaldo, até se tornar insustentável.

O brasileiro, seja na vida cotidiana ou na Câmara dos Deputados, tem a mania de culpar o líder por todos os seus problemas, e com Eduardo Cunha não será diferente: sua postura megalomaníaca, semelhante à de um líder religioso “revestido de autoridade divina”, vai corroer rapidamente suas relações de vassalagem baseadas no dinheiro, porque a manutenção de Eduardo Cunha no poder vai começar a ser mais custosa para a Câmara dos Deputados do que a sua renúncia.

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