Por que é tão difícil ser oposição?


Os partidos de oposição estão em apuros no atual processo eleitoral. No âmbito federal e no estado de São Paulo, a tendência é a de que os atuais mandatários consigam eleger sucessores, apesar de seus governos terem tido falhas razoáveis.
Falta estratégia, sobram acusações, e o resultado disso é um óbvio esvaziamento das campanhas. As propostas são deixadas em segundo plano, em nome da troca gratuita de acusações sem comprovação. São evocados velhos fantasmas para amedrontar o eleitor, como o “risco à democracia” e o “golpismo da imprensa”. Então, quando terminar o processo eleitoral, todos terão vergonha do que fizeram, e lamentarão o que aconteceu.
Mas a dificuldade em ser oposição reside, também, na falta de um discurso construtivo. Vou enumerar aqui alguns fatores que ajudariam os partidos de oposição a lograrem melhor desempenho no processo eleitoral:
1) Reconhecer as realizações do governo atual: sinal da imaturidade da democracia brasileira (e principalmente dos partidos políticos) é a postura revanchista dos partidos de oposição, não sabendo reconhecer os méritos e realizações das gestões que estão no poder. Ainda há aquela máxima de que tudo o que o governo que está no poder faz é errado, de alguma forma.

2) Conhecer a estrutura do governo atual e seus mecanismos de funcionamento é essencial para qualquer partido de oposição ter noção do que realmente acontece no governo. Não é necessário ter informações restritas, mas estudar a estrutura governamental e os programas dos diversos ministérios ou secretarias, além da orientação geral e ideológica do governo. E isso é de domínio público, em geral.

3) O essencial: um partido de oposição, se visa assumir o poder, precisa apresentar um programa de governo melhor do que o atual. E mais do que isso: um programa claro o suficiente para convencer as pessoas de que realmente é melhor do que os procedimentos do governo atual, com justificativas que demonstrem ao eleitor que, além de razoável, o programa é possível.

O eleitor é movido, dentre outras coisas, pela inércia. Se a oposição apresenta um programa de governo muito parecido com o do atual governo, há sempre dois questionamentos: o primeiro é ideológico – afinal, se o programa é tão parecido com o que está em andamento, para que uma candidatura de oposição? E o segundo é prático – se dois programas são semelhantes, parece mais viável que consiga executá-lo melhor quem já tem experiência nisso.

Em raras oportunidades o eleitor, por si só, tem a visão de fatores internos à democracia, como a necessidade de alternância no poder. Partidos de oposição devem estar atentos a isso. E existem coisas que, definitivamente, não funcionam quando você está na oposição. Podem ter funcionado um dia, mas atualmente são garatias de fracasso:

1) Promessas de concretização impossível: o eleitor está atento às promessas de cumprimento impossível. E sabe quando uma promessa não pode ser cumprida. Então, fugir do planejamento prévio para fazer promessas absurdas, com o propósito desesperado de ganhar votos, não soa bem para o eleitor. É sinal de que o candidato não tem planejamento e pode levar um Estado ou um país, nos próximos quatro anos, na base do improviso.

2) Difamação de adversários: a estratégia já funcionou muito. Especialmente no tempo em que as propagandas eleitorais, na televisão, podiam ser apócrifas. A mudança da lei disciplinou as propagandas negativas na TV, mas não as impediu. No entanto, a experiência mostra que os ataques podem até tirar algum voto dos adversários, mas geralmente estes votos não são endereçados para quem fez os ataques, mas geralmente passam a um terceiro candidato que não se envolvam em acusações.

3) Mostrar biografias incessantemente: a maioria dos eleitores não têm o menor o menor interesse no fato do candidato ter três graduações, quatro pós graduações, mestrado, doutorado, já ter sido deputado, ministro, secretário, Senador, governador, prefeito, vereador, síndico do condomínio ou o que valha. A eleição do Presidente Lula está aí para provar isso. Claro que ninguém vai confiar em aventureiros paspalhões como o Levy Fidelix, e que a pessoa deve ter tido algum manejo da máquina pública, mas se o candidato passa 70% do seu tempo mostrando o que fez há dez, vinte ou trinta anos, o eleitor só vai considerá-lo um chato mesmo.

4) Repetição: o eleitor não precisa ouvir dez vezes sobre a mesma obra. Principalmente em debates. Se uma mesma coisa é repetida muitas vezes, os eleitores vão considerar que o candidato não tem conteúdo e precisa mostrar mais do mesmo para preencher seu tempo e argumentar. E pior: indica que a pessoa não tem um projeto consistente, mas apenas ações pontuais, utilizadas sob medida para o marketing político.

Uma oposição inteligente deve superar todas as deficiências apresentadas para ter chance de lograr sucesso contra governos populares. O que vemos no plano federal, hoje, é uma oposição que armou uma estratégia política errônea, e paga o preço por isso. Oposições devem ser propositivas, e mostrar para a população que podem ser melhores do que o governo atual. A própria teoria política diz que as oposições que tomam atitudes destrutivas, via de regra, são as oposições que não pretendem assumir o poder.

Porque o eleitor está (e deve estar) interessado no bem-estar do país, e não necessariamente se o partido X ou o partido Y estará com a máquina do governo em suas mãos.

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Uma resposta para Por que é tão difícil ser oposição?

  1. BONATTI disse:

    Leo, Muito bacana seu texto. Mas vou te pedir desculpa para discordar da maior parte dele. Primeiro, seu pressuposto sobre as “falhas razoáveis” dos governo que elegerão sucessores, é uma premissa equivocada. Quase 80% aprova o governo Lula, isso quer dizer que está sendo um bom governo para a maioria da população e propostas que tendam ao continuísmo irão prevalecer. Segundo: O reconheceimento das “realizações” do governo atual se dão por isso. COmo a maioria aprova o governo atual, o candidato tem que mostrar que vai fazer o que esse já faz e mais um pouco, logo, reconhecer que o governo fez algo de bom. Resumo da ópera, a Dilma está sendo reeleita graças a um trabalho massivo de oito anos de governo Lula, enquanto a oposição apostou que bastava esperar o jogo eleitoral para que subisse ao poder e abandonou a fiscalização das obras ou a aproximação de seu partido naquilo que é bom com o intuito de construir a imagem para a eleição atual.

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