A entressafra do futebol brasileiro


Esse post originalmente era do http://politica-santoandre.blogspot.com – mas eu resolvi colocar aqui por ter mais a ver com futebol do que com política.

Um abraço!

Até 10, 15 anos atrás,era só o jogador brasileiro ter algum destaque que era imediatamente vendido pro exterior. Em alguns casos, crescia e se tornava um world class, e em outros casos não. Mas sempre havia uma rotatividade muito grande nos clubes, que eram obrigados a revelar novos talentos com constância e mantinham categorias de base bem estruturadas. Mesmo clubes menores, como Guarani e Ponte Preta, tinham trabalhos exemplares de base.
Daí veio a Lei Bosman, a Lei Pelé, e dois fenômenos paralelos começaram a ocorrer no Brasil: o enfraquecimento de nossas categorias de base e o fortalecimento econômico dos clubes daqui, a partir da adoção dos pontos corridos em 2003.
Com isso, muitos jogadores que seriam imediatamente vendidos ao exterior acabaram permanecendo no país ou voltando rapidamente, na primeira oportunidade, com uma boa proposta salarial. Os clubes brasileiros passaram efetivamente a competir com o mercado internacional, para manter as promessas aqui por mais tempo e para repatriar jogadores que estão no exterior e fazem algum sucesso. 
Com isso, a rotatividade de jogadores nos clubes continuou, mas adquiriu outra característica: ao invés de serem revelados jogadores da base dos clubes, continuamente, essas vagas começaram a ser dos jogadores repatriados ou dos ídolos que ficam mais tempo no clube do que ficariam antes. Além disso, os clubes pequenos, que revelavam a maioria dos jogadores (Roberto Carlos, Rivaldo, Edílson, Luizão, Amoroso, Dener, Juninho Paulista, entre outros, se destacaram em clubes menores antes de serem contratados por gigantes do futebol nacional), interromperam esse processo, sem a proteção necessária aos seus jogadores, com aliciamento por parte de empresários ligados aos clubes grandes e com o enfraquecimento dos campeonatos estaduais, que eram a grande vitrine desses clubes.
Antigamente, o ciclo do bom jogador no futebol brasileiro era assim:
Clube Pequeno -> Clube Grande -> Exterior.
E, por mais que isso fosse casual, era a lógica que sempre foi a responsável pelo futebol brasileiro ser o maior celeiro de talentos do mundo do futebol. Já conscientes de que seus talentos sairiam rápido e por algum dinheiro, os clubes investiam mais nas categorias de base e na prospecção de talentos em clubes menores. Hoje em dia não há mais essa expectativa. O Santos se dá ao luxo de recusar uma proposta de 45 milhões de euros pelo Neymar. E isso  emperra as categorias de base e faz com que os jogadores da base não adquiram a experiência que deveriam.
O pior é o efeito disso nos clubes menores. Há dez anos, a final do Campeonato Brasileiro era entre São Caetano e Atlético Paranaense. Hoje, um dos clubes está capengando há cinco anos na Série B e outro está lutando para não cair na Série A. O último clube menor a terminar entre os três melhores do Brasileirão foi o Goiás, em 2005. Depois disso, apenas clubes “grandes” estiveram entre os 4 melhores no Brasileirão. Parte importante disso é culpa da mídia, que capitaliza suas transmissões somente a partir de um pré-determinado número de times “grandes” de forma a vender em cima da imagem deles.
Não por coincidência, a produção de talentos no Brasil diminuiu nesse período. Os times menores passaram a se alimentar mais de refugos de times grandes do que de bons jogadores da base. Com os talentos sendo revelados apenas pelas categorias de base dos clubes grandes, com raras exceções, e com esses talentos não tendo o espaço que tinham anteriormente, com a menor rotatividade e o constante repatriamento de feras meia-boca (ou não tão meia-boca assim), o espaço para surgirem novos talentos diminuiu abruptamente. Os Campeonatos Estaduais tem sido achincalhados pela mídia (e pelos torcedores de times grandes), mas eram a grande vitrine para a revelação de novos talentos. Tanto que os raros times pequenos bons formados em Estaduais, como o Santo André de 2010, são sumariamente depenados pelos times grandes, tal é a falta de talentos existente no futebol brasileiro hoje.
Existem duas opções: fazer uma política de revalorização dos times pequenos, dando chances reais de disputa para os mesmos, valorizando os campeonatos que eles disputam e dando garantias de compensação pela formação de jogadores. Por outro lado, é necessário fazer um trabalho integrado de categorias de base e vender sim jogadores ao exterior quando aparece uma boa proposta, acabando com essa história de repatriar feras meia-boca e de segurar de forma doentia jogadores, mimando-os, sem nem saber se eles “darão certo” no exterior.
O intercâmbio de jogadores é vantajoso. Na Rússia Guus Hiddink incentivou os times e jogadores a atuarem nas grandes ligas européias, para adquirirem bagagem, experiência. Essa experiência também é necessária aos nossos jogadores, para conhecer novas variantes táticas, novos estilos de trabalho, atuar com jogadores de diferentes escolas, adquirir cultura futebolística mesmo. Porque isso, na Europa, faz mais diferença do que o alardeado “nível técnico”, que no fim nem é tão diferente do daqui mesmo.
Além disso, os clubes deveriam trazer estrangeiros do exterior,e não brasileiros. E estrangeiros não apenas da escola sul-americana, mas europeus, africanos, entre outros. Pela questão do intercâmbio mesmo. A Liga Brasileira só será forte quando conseguir fazer esse movimento de atrair diferentes culturas futebolísticas pra cá eser um instrumento de aprimoramento da cultura futebolística dos jogadores.
E, aí sim, não será mais tão necessário jogar na Europa para aprimorar o nível do futebolista brasileiro.
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