Deus, o amor e a necessidade de não criarmos expectativas


Uma das poucas coisas na vida que eu acredito de forma irreversível e inabalável nessa vida é em Deus. E no Deus da Bíblia mesmo, não numa entidade de força superior de emana energia ou no “cara lá de cima”. Pode soar contraditório para um sujeito de espírito libertário como eu, mas creio que o anseio pela liberdade é uma das características mais nobres que Deus pode colocar no coração de alguém.

Deus ensina as pessoas a serem solidárias, amigas umas das outras, ensina uma preocupação genuína com o bem-estar de todos. Um preocupação baseada em um amor altruísta, desinteressado, que deseja sinceramente o bem dos outros. E também, sejamos adultos, sem nenhuma conotação sexual. É como você falar a todos o seguinte:

– Eu me preocupo com você porque eu amo você.

– Mas por que você me ama?

– Por diversos motivos. Deus nos amou primeiro, então tenho que pelo menos amar aos outros como Deus me amou. Porque você é tão importante quanto eu, seja você mais rico, mais pobre, ou faça você o que você quiser. Não quero saber o que você faz. Eu amo você porque você é humano, você está sujeito às mesmas angústias e frustrações que eu, e porque o mesmo Deus que me ama também ama você. E por mais milhões de motivos.

Não devemos nunca odiar ou repudiar pessoas. Devemos repudiar práticas. A pior coisa que você pode fazer é segregar alguém pelo que ele faz. Moradores de rua só são moradores de rua porque são segregados pela sociedade. Se você quer mesmo mostrar aos outros que acredita em Deus e que o amor é um traço do seu caráter, você nunca pode segregar alguém por conta da sua situação momentânea, ou por praticar algo que você abomina. O isolamento é sempre a pior atitude, e só alimenta o ódio entre as pessoas.

Só que, na sociedade atual, acreditar em Deus é sinônimo de descrédito. Não é perseguição religiosa, é descrédito mesmo. A sociedade se acostumou, nos últimos anos, a lidar com pessoas que utilizam a crença em Deus para justificar todo tipo de barbaridade, da extorsão ao abuso de menores.

O que mais dói quando você crê em Deus é ver falhas de caráter consolidadas. Pessoas que utilizam o nome de Deus para uma crença egoísta, individualista, que pensa apenas em vitórias pessoais. Pessoas que creem em Deus e tentam levar vantagem em tudo, tentam conseguir as coisas por meio de “jeitinhos”, e quando conseguem ainda se vangloriam, dizendo que “Deus as abençoou”. Desculpem, mas acreditando ou não em Deus as pessoas conseguem cumprir objetivos na vida. A verdade é que ninguém pode ser um vencedor sob uma pilha de cadáveres. Ainda mais usando o nome de Deus.

Acreditar sinceramente em Deus deve impelir as pessoas a mudar a sociedade. Não apenas espalhando o amor aos outros. Isso é apenas o essencial. Mas o amor deve ser espalhado de forma a fincar raízes. De forma a melhorar a vida das pessoas de forma notória. De forma a tornar o mundo, tão injusto e desigual, um pouco mais justo e feliz. De forma a amparar todos os que se encontram desamparados, como Jesus sempre fez enquanto esteve na Terra. De forma a ensinar e disseminar conhecimento para todos, abrindo os olhos das pessoas não apenas para as doutrinas a respeito de Deus, mas também para a cultura, a ciência, e para todo o conhecimento disponível.

Amar ao próximo é mais do que distribuir um prato de sopa eventualmente para mostrar à sociedade que você é bom. É moldar o seu caráter de forma a mostrar um amor sincero, alegre e persistente pelas pessoas, sem esperar nada em troca. O segredo é esse. Não crie expectativas. Deus demonstrou amor por todos sem criar nenhuma expectativa. Ele abriu possibilidades, mesmo sabendo que muitos de nós não as aproveitaríamos.

Devemos fazer o mesmo. Hoje, amanhã, durante a próxima semana e por toda a sua vida, dê oportunidades e abra possibilidades para as pessoas, sem criar expectativas, sem esperar nada em troca, apenas por amor.

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7 respostas para Deus, o amor e a necessidade de não criarmos expectativas

  1. philgeland disse:

    Léo, “conheço” Hans Küng apenas através de entrevistas (jornais e TV), é interessante mesmo. Concordando ou não, ele me parece ter uma “visão” bem mais ampla, assim como Paul Tillich também – já que você falou sobre a capacidade de relacionar as questões atuais com o conceito de Deus de forma mais profunda …

  2. Pingback: Por que é necessário barrar a “bancada evangélica” | O Enciclopedista

  3. Pingback: Textos e Estatísticas de 2011 | Blog do Léo Rossatto

  4. Já li Leonardo Boff, e me identifico muito. Mas ainda não li Hans Kung. Vou aproveitar sua sugestão e procurar, inclusive. E eu ressaltei Jesus como modelo, mas, de fato, deveria ter dado mais ênfase ao exemplo de Jesus Cristo.

  5. Caro Leonardo, não sei se vc leu algum livro do seu xará Leonardo Boff ou do teólogo suiço Hans Kung, mas vc descreveu a Teologia da Libertação. Concordo em gênero, grau e número com vc, apenas ressaltaria Jesus Cristo como modelo para chegar a Deus.

    • philgeland disse:

      Leonardo Boff e Heinz Küng são ótimos exemplos. Valeu!
      Um outro exemplo recomedável é Paul Tillich.

      • Léo Rossatto disse:

        Eu andei lendo Hans Kung e a visão de mundo ele, especialmente em questões em relação à ciência, é muito interessante. Mesmo que você não concorde em 100% com o que ele fala, é sensacional constatar que ele realmente tem uma preocupação de relacionar com profundidade as questões atuais com o conceito de Deus. E faz isso com maestria.

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