A história de um casal problemático


Vou contar-lhes uma história.

Um rapaz, em tempos remotos, conheceu uma garota. Eles tiveram uma época de paixão fugaz, em que não se importavam com as opiniões alheias e até faziam loucuras em nome desse amor louco. Muita gente era contra essa união, e fizeram o possível para que ambos se separassem definitivamente.

Só que, a exemplo dos filmes de Hollywood, em nossa história o amor sempre vence. E ambos em fim se uniram, casaram, passaram a morar juntos, prosperaram e montaram uma família feliz. Por um tempo.

Começaram a haver brigas. O que a esposa pedia muitas vezes era ignorado pelo marido. O marido, por sua vez, reclamava da falta de carinho e do contante mal humor da esposa. E começou a reparar nas mulheres que sempre estiveram ao redor. Daí para a traição foi um passo. E da primeira traição para o costume de trair, com qualquer uma que aparecesse, mais um.

A mulher, por sua vez, se sentia infeliz em não ter a atenção do marido. Mulheres precisam muito de atenção e carinho, e o primeiro passo para perder uma mulher é não dar o carinho devido para ela. A esposa começou a reparar mais nos galanteios que recebia nas situações cotidianas. O passo seguinte, obviamente, foi se entregar nos braços de um desses galanteadores. E depois de outro. E mais outro. Até que isso se tornasse um costume.

O marido e a esposa tornaram-se cada vez mais afastados. Passaram a viver um casamento de aparências. No fundo, os dois sabiam das traições alheias, mas, como estavam em situação igualmente desagradável, não faziam nada a respeito. Em alguns momentos, tentaram se reconciliar. Mas, invariavelmente, voltavam em pouco tempo aos velhos hábitos, ao cotidiano de desilusões mútuas e ao estigma de viverem vidas paralelas mesmo caminhando juntos. E continuam assim até hoje.

Gostaria, agora, de dar nomes aos personagens e eventos de nossa história (não reparem na inversão de gêneros):

O marido: o marido se chama classe política. É um sujeito sempre de boa aparência, bem cuidado, com um discurso extremamente persuasivo. Um sedutor. Que atualmente perdeu muito de seu charme devido à fama de canalha.

A esposa: a esposa se chama povo. É uma mulher sofrida, mas inegavelmente bonita. Do tipo tão encantador que faz você ficar pensando em como tirar ela dessa situação de pobreza e sofrimento todos os dias. E a classe política também tinha esse anseio no começo.

O casamento: o casamento se chama democracia. A democracia, supostamente, é a união definitiva entre a classe política e o povo. No entanto, na prática, o casamento tem problemas, e precisa de muito esforço de ambas as partes para dar certo.

As amantes: as amantes são a corrupção, em um nível geral. E no nível específico, atendem por vários nomes. Os amantes da classe política, por exemplo, são as empresas que participam de licitações, os lobbistas, a imprensa, os partidos políticos, os grupos de interesse, entre outros. (sim, a classe política é bissexual). Os amantes do povo, por sua vez, são a sonegação de impostos, a idéia de levar vantagem em tudo, o jeitinho brasileiro,  a compra de vantagens, entre outras coisas também.

Sobre o jeitinho brasileiro, em específico, recomendo outro texto meu, do blog de política:

http://politicasantoandre.wordpress.com/2011/03/16/o-jeitinho-brasileiro-e-a-tonica-do-individualismo/

O que eu quero dizer com toda essa história? Ninguém está limpo. E que essa relação de aparências entre a política e o povo não está restrita ao Brasil, apesar de ser notória por aqui. Na verdade, aqui no Brasil não sabemos nem mesmo se houve, realmente, um momento de “lua-de-mel” entre os políticos e o povo. Nossa relação já começou desgastada, por um contexto histórico em que os políticos e o povo sempre estiveram afastados. Poucas vezes a política e o povo uniram-se de fato, e, quando isso ocorreu, fatores externos trataram de separá-los novamente.

Como proceder? Está muito óbvio que limpar o país da corrupção não é um procedimento, e nada terá sucesso se ambas as partes não quiserem parar de se corromper. É que nem em um casamento mesmo: não adianta colocar um detetive atrás da sua esposa – se ela quiser te trair, ela vai te trair. O trabalho deve ser de convencimento, para que os dois se convençam de que a melhor opção é não trair.

Na política, isso quer dizer que:

1) A corrupção é um traço cultural

2) Como traço cultural, deve ser combatida com uma mudança de cultura. E cultura você muda com um trabalho intensivo na educação das pessoas.

3) Além de educar, você deve convencer que a corrupção não compensa. Como? Punindo. O fim da impunidade em casos de corrupção, seja para os políticos, seja para o povo, é essencial para restabelecer uma boa relação entre a população e os políticos.

4) O trabalho deve ser contínuo, paulatino, e agir sobre todas as esferas da sociedade. Infelizmente, a corrupção hoje está no empresariado, no judiciário, na imprensa, no funcionalismo público, em fim, em todas as esferas da sociedade. É epidêmica. Contra epidemias atitudes extremas são necessárias. Não há a possibilidade de se voltar atrás. As atitudes devem ser contínuas, duras, e não dar espaço para as estruturas corruptas se remontarem.

Acabar com a corrupção hoje é uma utopia. Movimentos contra a corrupção, apoiados por setores conservadores da sociedade, só apoiam uma abordagem seletiva da corrupção, que favoreça seus próprios interesses. O primeiro passo para combater efetivamente a corrupção no Brasil é admitir que corrupção não é problema apenas dos políticos: também é problema da população, que, além de ser conivente, na maioria dos casos, muitas vezes encontra em práticas ilegais uma maneira de se favorecer.

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