A Rua, o futebol e os sonhos


Texto originalmente publicado na Trivela em outubro de 2010. Obviamente, com algumas pequenas adaptações.

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Esses dias, eu fiquei algum tempo parado, olhando a rua, em frente ao portão de casa. Já era tarde da noite, e, olhando aquele asfalto, ainda pintado com temas da Copa do Mundo, lembrei de um tempo que já não existe mais.

Todo mundo tem sonhos aleatórios quando criança. Na rua, você colocava para fora muitos desses sonhos. Eu sempre fui uma criança estranha, e cresci de uma maneira diferente. Parte disso é explicada pela minha decisão inusitada de torcer pelo Santo André, apesar do meu pai ter tentado forçar a barra para que eu fosse corinthiano por um bom tempo. Até a adolescência.

O Santo André não tinha ídolos conhecidos do grande público, e o futebol europeu não era tão presente no Brasil naquela época. Eu sempre me reunia em um grupo de cinco ou seis garotos para jogar futebol na rua de casa. Fazíamos isso geralmente durante a noite, depois das sete, quando fechava o supermercado que fica em frente de casa, ou aos domingos.

Antes disso, os garotos ficavam soltando pipa (coisa que eu quase nunca fazia) ou jogando alguma “modalidade” de futebol que requeresse menos espaço, como o tradicional “3 dentro/3 fora”, em que dois jogadores de linha ficam tocando a bola entre si e tentando fazer gols no goleiro, que tinha como objetivo “encaixar” três bolas ou esperar três chutes para fora da dupla que estava na “linha”, e assim assumir uma das duas vagas (a do que errou o último chute, em geral). Essa modalidade ainda contava com a variante “gol de classe”, em que só eram permitidos gols após passes pelo alto, sem a bola pingar no chão entre a assistência e o chute.

Sempre conseguíamos uma bola. Não importava se ela era pequena, grande, se estava murcha, se era leve ou pesada, se estava com os gomos saindo. Se fosse chutável, se desse pra jogar futebol com ela, estávamos felizes. Chuteiras? Uniformes? Nada disso existia. Eu voltei inúmeras vezes para casa com o pé machucado, cheio de bolhas, e completamente encardido. Ninguém se importava em jogar descalço, mesmo porque os chinelos também tinham sua utilidade no jogo: marcar as traves.

Fechávamos dois ou três times, definidos pela sorte. Fazíamos golzinhos de três ou quatro passos, obviamente sem goleiro (era futebol, não hóquei), e, no caso de ter alguém de fora, definíamos que a partida acabava em dois ou três gols, dependendo do número de jogadores esperando. Então, durante o jogo, sempre chegava mais gente, atraída pela agitação na rua, e ficávamos jogando até tarde da noite, só interrompendo as partidas quando alguém era chamado para casa ou quando algum vizinho ameaçava chamar a polícia devido ao barulho.

Eu fui muito influenciado pela Copa de 1994. Então, quando fazia alguma rara boa jogada, gritava o nome dos meus ídolos de então, como “Haaaaagi” e “Stoooooichkov”. Era ridículo. Ninguém entendia. Mas era uma forma divertida de comemorar gols. Bem apropriada para um sujeito excêntrico como eu, que antes de jogar futebol na rua passava muito tempo trancafiado em casa lendo livros e enciclopédias. Por opção.

O futebol de rua formou o meu caráter e o caráter de muitas pessoas. Lembro-me que todos tinham o sonho distante de se tornarem profissionais um dia. O que obviamente não aconteceu, tendo em vista que todos, sem exceção, eram pernas de pau. Inclusive este que vos fala. Como torcedor do Santo André, eu também sonhava em ser profissional do time, e levar o Santo André às principais competições de futebol, para “enfrentar os grandes” (naquela época, entre 1994 e 2001, o Santo André disputava apenas a Série C do Brasileirão e a Série A-2 do Paulista. Hoje, depois de uns brilharecos, estamos na mesma).

Eu sonhava em ser o camisa 10 do Santo André, que levaria o time ao título brasileiro de 2010 (!!!), contra o Internacional (sei lá por que, mas o adversário era o Internacional), em uma final (não existia campeonato de pontos corridos na época) emocionante no Bruno Daniel que acabaria 4 a 3 para o Santo André, após o time levar 3 a 0 no primeiro tempo. Com quatro gols meus, óbvio, o último aos 45’ do segundo tempo.

Nunca nem passei perto de realizar o sonho. Sempre fui gordinho, e nunca tive coragem de participar de peneiras na idade apropriada. Os sonhos ficavam na rua. Na rua, cada um de nós jogava cada partida como se fosse à última. As brigas eram freqüentes. Mas, tão rápido quanto brigávamos, voltávamos a nos falar, como se nada tivesse acontecido, e continuávamos o jogo. Afinal, o futebol não podia parar. O futebol nos fazia felizes.

Volto para a cena inicial. O asfalto está vazio. Ninguém mais joga lá. As crianças de hoje não saem mais para jogar futebol na rua. Estão confinadas em casa, nas redes sociais, nos vídeo-games de última geração. Jogam futebol na aula de Educação Física, ou em Escolinhas de Futebol bancadas pelos pais. Na maioria dos lugares, a modernidade varreu tudo e acabou com o encanto e o improviso do futebol na rua. E os campos de várzea deram lugar a prédios residenciais, vendidos a preços abusivos, com centenas de famílias dentro.

Não é melhor e nem pior. Cada época tem as suas características. Suas vantagens e desvantagens. Mas sinto uma nostalgia boa, um aperto no peito, uma saudade gostosa do tempo em que nossa responsabilidade era apenas a de interromper o jogo quando os carros passavam, eventualmente. Tenho saudade do barulho das boladas no portão, que os vizinhos tanto odiavam.

Aquela época acabou. Somos mais responsáveis. Existem mais carros. Menos crianças brincando em suas ruas. Hoje, as ruas dão lugar aos carros. Mas não aos sonhos.

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