Jornalismo seletivo


Vamos deixar claro: não trabalho em nenhum órgão jornalístico. O mais próximo que estive do jornalismo foram algumas colunas avulsas que escrevi na Trivela ano passado. Sem continuidade, obviamente.

Obviamente, não tenho autoridade para julgar o comportamento das diferentes redações jornalísticas do país. E obviamente nem é essa a minha pretensão.

Gostaria de abordar dois aspectos nessa postagem: a cobertura de eventos esportivos por emissoras de TV e a orientação política de veículos de mídia.

Não quero me prender aqui aos clichês de sempre, de que “a Globo mente”, “a Record usa dinheiro de igreja”, “a Veja é panfleto do PSDB”, “A Carta Capital é a Veja petista”. Longe disso. Para isso existem os militantes de twitter, que ficam emplacando hashtags bobas enquanto as mesmas coisas erradas de sempre continuam acontecendo.

O fato, que eu gostaria de deixar bem claro aqui, é que o jornalismo é algo seletivo. E é seletivo porque tem interesses envolvidos, tanto políticos quanto econômicos. No final, mais econômicos do que políticos.

Vamos ficar em dois exemplos claros.

O primeiro deles diz respeito a transmissão de eventos esportivos. Infelizmente, a transmissão tem um preço, e emissoras de TV pagam por essas transmissões por um único motivo: elas são rentáveis. Não pensem que a Rede Globo desembolsa centenas de milhões de reais pelo Brasileirão à toa. A mesma coisa a Rede Record com a Olimpíada. Existe um grande leilão de eventos, e as emissoras querem esses eventos não apenas para preencher suas grades de programação: elas querem atrair anunciantes, e eventos que geram audiência, como o futebol e as Olimpíadas, são ótimos meios de atrair anúncios caros.

O único interesse é esse. Não há qualquer outro interesse envolvido. As transmissões de TV, sejam jornalísticas, esportivas, religiosas ou de qualquer natureza, são produtos comercializáveis. Isso não é algo que diz respeito a ética das emissoras (por mais que algumas ignorem eventos enquanto outras superestimam), e sim algo relativo ao nosso sistema político-econômico.

Em relação às posições políticas de órgãos editoriais, o princípio é o mesmo: os apoios políticos são mais dependentes das relações econômicas dos donos de cada órgão e menos dependentes das convicções dos mesmos. Militância política sincera você talvez encontre só em blogs ou redes sociais. E talvez, pois muita gente tem a ganhar militando em redes sociais e apoiando determinados partidos. É uma relação de interesse.

Não existe ideologia pura e desinteressada. A Editora Abril, por exemplo, se posiciona frontalmente contra o governo federal há nove anos. E isso utilizando o seu principal veículo de comunicação, a Revista Veja. Não é apenas uma opção ideológica. É uma tentativa desesperada de manter a viabilidade econômica.

Todos sabem que a imprensa não soube se reinventar adequadamente com o surgimento da Internet. Demoraram demais para encarar a Internet como uma opção séria de informação. E, pior que isso, tentaram encarar a Internet da mesma forma que a mídia comum, mantendo paradigmas superados, como a necessidade de pagamento para obter acesso aos conteúdos editoriais. Obviamente, na Internet a realidade é outra, e o modelo de publicidade que vigora é o dos sites livres. Ninguém vai querer anunciar em um espaço de acesso restrito. Os espaços devem ser livres para maior exposição. Empresas como o Google demonstraram isso de forma brilhante nos últimos anos.

Além desse erro, grupos como a Editora Abril, a Agência Estado e o grupo Folha da Manhã, que edita a Folha de São Paulo, tornaram-se cada vez mais dependentes das relações com o governo. Sim, porque historicamente grande parte dos lucros da imprensa vinham das relações com os governos. Grupos como os mencionados contavam com milhões de reais anuais de assinaturas de órgãos governamentais, como o Ministério da Educação, por exemplo, e dividiam um bolo de quase um bilhão de reais anuais que o governo gastava com comunicação.

E daí ocorreu o segundo golpe: o governo FHC não fez sucessor e Lula redirecionou os investimentos em comunicação, preterindo esses grandes grupos. Aí nasce a oposição sistemática desses grupos ao governo petista. Não é uma oposição política, e sim econômica. O grupo Folha da Manha e a Agência Estado, com jornais de circulação diária, ainda estão em situação menos preocupante. Ao contrário da Editora Abril, que conta só com revistas semanais e mensais.

E qual é a diferença? Em uma publicação diária, erros são tolerados. A notícia está ali, acabou de ser produzida, é natural que a conferência de fontes seja menos criteriosa. No máximo, emite-se uma errata depois, e o trabalho segue normalmente. Em revistas semanais não, as reportagens devem ser mais elucidativas, criteriosas e imunes a erros, para que a credibilidade seja mantida. A assinatura de uma revista semanal é menos comum e mais seletiva do que a assinatura de um jornal diário, o que leva a crer que o conteúdo também deve ser mais seletivo.

Basicamente, o tom editorial depende das necessidades econômicas de um grupo. Hoje, a editora Abril é controlada pelo grupo sul-africano Naspers (apesar da lei de Imprensa brasileira só permitir participação de até 30% de conglomerados estrangeiros de mídia em empresas nacionais), e a pressão por lucro é imensa. E, para uma empresa que, apesar do alto faturamento (2,1 bilhões em 2010), tem lucros declarados de menos de 200 milhões de reais por ano, contar com as centenas de milhões de reais do governo federal é essencial. Nada mais normal do que fazer oposição quando esse dinheiro não vem.

O que eu quero dizer é que a postura dos grupos de mídia não é certa ou errada, mas é um padrão de acordo com o interesse econômico dos mesmos. Todos os órgãos de mídia, com raras exceções (inclusive os que apóiam o governo, que fique bem claro), tem motivos estritamente econômicos para defender suas posições políticas, por mais que se reclame de abusos.

É ruim? É. É errado? É. Mas é reflexo do nosso sistema econômico, que pressiona, de forma cada vez mais refinada, não só os grupos de mídia, mas todas as empresas a lucrarem cada vez mais, aumentando a diferença econômica entre ricos e pobres a qualquer custo. O comportamento dos grupos de mídia, pressionados por lucro, está na raiz dos protestos em Wall Street e em vários países do mundo contra a exploração econômica. E isso porque todos os grupos econômicos relevantes, incluindo os de mídia, são controlados por acionistas, em Bolsas de Valores, que se caracterizam pela volatilidade, estando dispostos a investir apenas em corporações que dêem garantias de lucro e façam todo o possível para lograr esse objetivo. Mesmo quando isso significa criticar sistematicamente o governo, inventando factóides para isso.

O capitalismo formou uma geração capaz de fazer qualquer coisa pelo dinheiro. De romper todos os limites éticos, violando as legislações e regramentos impostos pelo próprio capitalismo. Essa ruptura de limites e esses abusos está na raiz de todas as crises econômicas do último século, incluindo a crise econômica de 2008. E esses abusos continuarão existindo, com ou sem êxito, enquanto vivermos em um sistema econômico que incentiva o egoísmo e a obtenção de vantagens próprias, sejam elas lícitas ou ilícitas. O jornalismo é só mais um segmento em que esse egoísmo se manifesta.

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2 respostas para Jornalismo seletivo

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