Preconceitos


Um saudoso amigo dizia que nós deveríamos escolher três preconceitos e colocar em nosso RG. Só não concordo com isso porque preconceitos são como tudo na vida: eles mudam.

E eles também são mais fortes que nós. Eu tenho um preconceito contra o qual eu sempre lutei contra, desde a adolescência, mas nunca superei: o preconceito contra garotas que ficam no banco da frente puxando conversa com o motorista para não pagar passagem.

É compreensível que o motorista do ônibus tenha família, amigos, namorada, cunhado (lembrem sempre, cunhado não é família), e que talvez essas pessoas entrem no ônibus e fiquem conversando com o sujeito. Obviamente não me refiro a essas pessoas.

Eu me refiro a essas meninas, geralmente jovens, que fingem interesse e forçam simpatia pra cima do motorista ou do cobrador, com o objetivo deliberado de conhecer todos os motoristas da linha, os fiscais, os caras da garagem, e ter livre acesso ao ônibus sem pagar. Isso é deplorável. E acredite, isso existe.

Sei lá se eu posso dizer que é preconceito, afinal esse asco todo nasceu de uma situação que eu vivenciei. Eu adolescente, no alto dos meus 14 anos de puro vigor, pleno mês de férias da escola, vou sair com uma guria que me interessava na época. Combinei de pegar a menina em casa e pegarmos o ônibus até o shopping, onde comeríamos alguma coisa, assistiríamos um filme, com o objetivo final de [Carnaval de Salvador mode on] beijar muito [/Carnaval de Salvador mode off].

Pois bem, entro no ônibus, dinheiro na mão pra bancar o cavalheiro e pagar as duas passagens, e de repente, do nada, a guria, antes mais quieta que jaguatirica preparando o bote, veste a carapuça da EXTROVERSÃO e começa a puxar papo com o motorista E o cobrador. E ainda me manda um “eu conheço eles, não precisa pagar não”.

Disse pra ela, todo tímido (pô, eu tinha segundas intenções naquela altura ainda): “eu prefiro pagar e passar, você vai ficar aí?”. Quando ela respondeu que ia ficar acabaram todas as segundas intenções possíveis. Mandei um “Espero você na saída então”. Mas já sabia o destino de merda daquela tarde.

De fato, ela não pagou passagem. Como eu era (e sou ainda, apesar de não estar mais no mercado) um rapaz educado com as mulheres, ainda passei no shopping, tomei um milk shake com ela, e por sorte ela encontrou com umas amigas lá. Dei uma desculpa besta, argumentei que não tinha telefone (e não tinha mesmo, época de privatização da Telebrás, R$ 1500,00 uma linha telefônica, família pobre e tal). E nunca mais troquei mais de duas palavras com ela.

Obviamente, tenho preconceito desse tipo de pessoa. A mulher que aos 14 anos joga um charme no motorista de ônibus é a mesma que aos 18 vai namorar com caras só porque eles tem carro e aos 25 vai se relacionar e casar com o critério específico dos caras serem ricos e pagarem tudo. E, em nenhuma dessas situações, será feliz de verdade.

A verdade é que eu tenho preconceito contra quem subordina o seu amor e os seus sentimentos a alguma vantagem financeira, momentânea ou permanente. No final, é isso que eu abomino. E agradeço a Deus por abominar esse tipo de coisa.

Assim como eu admiro quem encara a vida e manifesta seus sentimentos e seu caráter com sinceridade, mesmo deixando de conquistar muita coisa por isso. Essas pessoas serão realmente felizes e saberão valorizar suas conquistas.

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2 respostas para Preconceitos

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