A escalada da insanidade coletiva


Uma mídia perniciosa que passa de forma coordenada, repetida e pragmática a imagem de que  todos os políticos do governo federal são incapazes e corruptos. Movimentos de “contestação” incentivados por essa mídia, com aparência de progressistas. mas que revelam as instâncias mais conservadoras da sociedade. Uma oposição conservadora alinhada com a mídia, com vontade de conquistar o poder a qualquer custo. E o ódio político levado ao ponto extremo de se desejar abertamente a morte dos opositores.

Poderíamos estar falando da política brasileira atual. E de fato estamos, em certa medida. Mas esse cenário representa dois momentos próximos entre si, na história do país, que servem como um enorme alerta a todos nós: o cenário do parágrafo de cima representa o mês de agosto de 1954, às vésperas do suicídio de Getúlio Vargas, e o mês de março de 1964, ás vésperas do golpe militar.

Em 1954, em seu terceiro mandato, Getúlio Vargas sofria pressões quase insuportáveis da imprensa, comandadas por um dos principais expoentes da oposição: Carlos Lacerda, da ultraconservadora UDN (União Democrática Nacional). Já naquela época, os partidos tinham nomes que não representavam absolutamente nada.

A oposição lacerdista chegou ao ponto, em 1954, de forjar um atentado a Carlos Lacerda, assassinando um oficial da aeronáutica, e colocar a culpa na guarda presidencial de Getúlio Vargas. Mas Vargas (que, diga-se, não era nenhum santo e tinha inúmeros defeitos) surpreendeu a todos, suicidando-se. E o seu suicídio segurou a escalada da insanidade coletiva, patrocinada pela mídia e pelos partidos conservadores, por mais dez anos, dando espaço para o governo de Juscelino Kubitschek e para o malfadado governo de Jânio Quadros.

Quando João Goulart assumiu, em 1961, após a ridícula renúncia de Jânio Quadros, o cenário se assemelhava ao das vésperas da morte de Getúlio Vargas. Agravava a situação, ainda, a escalada da luta contra o comunismo no cenário internacional, que fomentava o imperialismo e a política intervencionista norte-americana, especialmente na América Latina. Os EUA ainda estavam rescaldados com o alinhamento de Cuba com os inimigos soviéticos, e não admitiriam que outro país latino-americano tomasse destino semelhante. A Operação Condor patrocinou ditaduras no Chile (que chegou a ter o presidente socialista Salvador Allende), na Argentina, no Uruguai e no Brasil, dentre outros países da América Latina. E João Goulart, trabalhista que gozava de grande popularidade entre os trabalhadores, foi vítima deste contexto histórico.

Os ânimos políticos estavam acirrados ao extremo. Grupos conservadores organizavam-se e formavam eventos como a “Marcha pela Família com Deus pela Liberdade”, que, ao contrário de incentivar a liberdade, jogaram o Estado democrático brasileiro para um dos períodos mais negros de sua história. Uma ditadura de 21 anos que têm sido relembrada e colocada como “revolucionária” por parte da mídia atual.

Não por acaso. Quando você percebe que parte da mídia e das pessoas começa a se manifestar abertamente a favor de um período obscuro e triste da história nacional, e encontra eco em setores da sociedade, é sinal que estamos novamente em uma escalada de insanidade coletiva. Quando um sujeito da principal rede de televisão do país fala em rede nacional que “bom mesmo era na época da ditadura”, como fez Alexandre Garcia no Bom Dia Brasil, da Rede Globo, na última quinta-feira, e encontra eco em várias pessoas, é sinal de que precisamos parar e repensar nossa postura política com urgência.

Mais grave que isso é a absoluta desvalorização da vida humana, principalmente quando aplicada aos políticos. Nesse sábado, o ex-presidente Lula foi diagnosticado com um Câncer de Laringe. Tratável, é verdade, mas grave. Em meio às muitas manifestações afetuosas e de torcida pelo presidente, porém, vimos muitas manifestações comemorando a doença e torcendo pela morte do ex-presidente. Muitas delas, inclusive, de militantes dos partidos de oposição. Quando seu ódio político faz você desejar a morte de alguém, e sinal de que você não entende nada de política. Nem da vida. É sinal de que você está completamente cego.

E isso não é algo novo. Programas de humor na TV fazem piada constantemente, desejando a morte de políticos como o ex-presidente José Sarney, dentre outros. Indiferente às posturas políticas do mesmo, que devem ser discutidas em outra oportunidade, uma coisa é verdadeira e merece menção: a vida humana deve ser mais valorizada do que qualquer postura política, e a política está subordinada à dignidade humana, não podendo jamais transcendê-la. Todas as vezes em que isso ocorreu, na história da humanidade, ocorreram guerras, conflitos e genocídios. A política é a arena das ideias, das propostas e dos debates. Jamais esse direito deve ser privado de alguém, em hipótese alguma.

Não estou denunciando nenhum “esquema golpista” da parte de ninguém. Meu alerta é um só: a história é cíclica, e o Brasil, historicamente, alternou ciclos, na República, de liberdade e repressão.

Ilustrando:

1889 – 1894: República da Espada, política centralizada e de repressão, com a Revolução Federalista e a Revolta da Armada.

1895-1930: República do café-com-leite, com um pacto oligárquico entre SP e MG e a realização de eleições para presidente.

1930-1945: República de Vargas, centralizada em torno do presidente, com restrição das liberdades civis e forte repressão às Intentonas Comunista e Integralista.

1946-1964: período de uma conturbada democracia, em que foram eleitos quatro presidentes e só dois completaram seus mandatos.

1964-1985: ditadura militar, com forte repressão e constantes violações aos direitos humanos, além do combate a grupos armados

1985-2011: período democrático, com seis eleições diretas, quatro presidentes eleitos democraticamente, dois reeleitos e um deposto por corrupção.

Percebam: os ciclos de repressão e liberdade se alternam repetidamente. E, obviamente, a liberdade é um valor bem mais caro a todos nós do que a repressão.

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repetí-la”. Esta frase, atribuída a Ernesto Che Guevara e atualmente popularizada em uma série de comerciais do History Channel, mostra-se verdadeira de uma forma assustadora. E traz o caminho para não repetirmos os erros do passado: a educação, a cultura. Um povo deve se conhecer, forjar sua própria identidade, envergonhar-se e orgulhar-se dos diversos momentos de sua história e não acreditar sem contestação em frases dogmáticas.

A História de um povo está em constante transformação. E a transformação do povo brasileiro, no momento, é não deixar a atual escalada de insanidade coletiva, que se avizinha novamente, produzir os mesmos efeitos perniciosos e 1954 e 1964. Para isso é necessário um chamado à razão, aos valores democráticos, à valorização da educação como ente transformador da sociedade e o amadurecimento político geral da nação, com a discussão saudável e construtiva de ideias de parte a parte.

Chega de revolta, chega de revanchismo. Vamos voltar à razão. O Brasil não precisa de mais um período de obscurantismo e repressão. Aprender com os erros do passado é a melhor forma de tornar nosso futuro melhor.

A fala do locutor do History Channel termina assim, em todos os comerciais da série: “Se você não quer que os próximos 500 anos sejam iguais aos 500 anos que passaram, reflita”.

Eu só posso concordar com ele.

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5 respostas para A escalada da insanidade coletiva

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  5. Sônia disse:

    Textos maravilhosos para nossa reflexão.

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