O preconceito à igualdade


Hoje, foi publicada uma notícia acerca do “desconforto” que a ascensão social das pessoas outrora alijadas da sociedade de consumo causa na antiga classe média. É essa daqui.

Vocês não sabem o quanto eu gosto de quando aparecem essas notícias ou declarações que nos fazem captar a essência de movimentos que parecem normais, mas não são. E, no limite, a essência da natureza humana, ou do comportamento padrão de um grupo específico.

No caso, o que se detecta com essa reportagem é que, em geral, as classes mais altas do país, assim como a antiga classe média, compartilham um pensamento mesquinho: para eles, o importante não é apenas ter qualidade de vida, é ter mais qualidade de vida que os demais. É ter recursos para desfrutar de serviços que os outros não tem recursos para desfrutar.

Serviços desfrutados por muita gente são “populares”, e, assim, automaticamente rebaixados na visão dessas pessoas. Infelizmente, esse é um traço cultural brasileiro, cultivado durante a história, e que nos levou a ter um dos maiores índices de desigualdade social do mundo. Não basta trabalhar para enriquecer e ter um status elevado, você tem que trabalhar para que o outro não enriqueça e a diferença entre vocês fique cada vez mais clara.

Como disse o filósofo Roberto DaMatta, “Nossa fixação por títulos e hierarquia é parte do nossa herança portuguesa. As pessoas aqui querem ser vistas como diferentes, como superiores aos outros, e não gostam de se misturar”. Em todos os aspectos, esse tipo de pensamento é repugnante e não cabe na sociedade atual.

E isso está na gênese de vários fenômenos observados recentemente: pessoas que não querem Metrô perto de casa para não atrair “gente diferenciada”, casos cada vez mais freqüentes de preconceito, seja contra gays, contra nordestinos, ou contra qualquer coisa que ameace o status quo diferenciado de um setor muito específico da sociedade.

Até pouco tempo atrás, vendia-se a imagem do Brasil como país pacífico, em que ricos e pobres conviviam harmonicamente. Isso é uma meia verdade. Havia sim uma harmonia, mas ela era proporcionada não pela convivência pacífica entre ricos e pobres, mas pela imobilidade social entre ricos e pobres. Os ricos tinham meios para consolidar sua “diferenciação”, enquanto os pobres não tinham forças e nem incentivo para saírem de sua situação de miséria. Com raríssimas exceções.

No Brasil, a mobilidade social cresceu nos últimos anos, com as políticas de inclusão das classes D e E e o surgimento de uma “nova classe C”. Com isso, foi rompida a “harmonia entre ricos e pobres”, e a primeira reação foi uma luta informal pela “manutenção da diferenciação”, por pessoas que não admitem que não são mais “especiais” ou “exclusivas”.

Não é casual. O recrudescimento do preconceito, inclusive o político, está ligado a isso. Não vou falar aqui que foi por causa de fulano ou ciclano, porque não quero me envolver em discussão política (nesse post, fique bem claro). E não aguento mais resumir todos os argumentos e questões sociais do país a uma disputa sem noção entre o PT e o PSDB. Mas é claro e nítido: vão continuar aumentando as manifestações de preconceito no país. Enquanto pessoas continuarem a melhorar seu padrão de vida, pessoas continuarão querendo “afirmar sua diferenciação”, inconformadas com a diminuição do abismo que separa ricos e pobres. E isso é bom, porque revela à sociedade um preconceito que sempre foi latente, e a incita a lutar contra esse preconceito.

Então, por favor, antes de apoiar qualquer ação de “diferenciação”, ocorra ela na USP, em Higienópolis, na Cracolândia ou no Nordeste, questione-se. Você pode estar sendo só mais um cidadão mesquinho a fazer coro com uma minoria cuja principal preocupação é fazer com que os outros permaneçam afastados.

Antigamente, a pobreza era o mote da exclusão. Agora, com a pobreza sendo reprimida, as pessoas encontram outras formas mais lamentáveis de “diferenciação”. Porque, para a sociedade de consumo, a vida é uma corrida: não importa que você esteja rápido: importa que você esteja na frente dos outros.

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5 respostas para O preconceito à igualdade

  1. Iuri disse:

    Outro excelente texto.

  2. Pingback: Um país que ignora a educação | Textos – Léo Rossatto

  3. Pingback: Textos e Estatísticas de 2011 | Blog do Léo Rossatto

  4. Léo Rossatto disse:

    Segue também um texto muito bom com o qual concordo quase que integralmente:

    http://www.cartacapital.com.br/blog/sociedade/ocupacao-patetica-reacao-tenebrosa/

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