Leituras recomendadas: Como o Futebol Explica o Mundo


Em setembro de 2010, publiquei uma resenha sobre o livro “Como o Futebol Explica o Mundo” na Trivela. Colocarei ela a seguir, com algumas adaptações.

Como o Futebol Explica o Mundo

Título: Como o Futebol Explica o Mundo

Autor: Franklin Foer

Editora: Jorge Zahar

Lançamento: 2005

É contraditório fazer uma resenha de um livro que fala do futebol em um contexto de globalização seis anos após o lançamento do livro. Muitas coisas mudam, e a análise se dá sobre o conteúdo do livro aliada à capacidade preditiva do mesmo. Principalmente quando tratamos de um título já consagrado entre os amantes do futebol.

Podemos dizer que Como o Futebol Explica o Mundo não é um livro que tem o futebol como objeto. O futebol, apesar de ser dotado de claro protagonismo no livro, é apenas a ferramenta que Franklin Foer utiliza, de forma brilhante e bem documentada, para dar sua explicação acerca da globalização e das mudanças dramáticas ocorridas em diversas sociedades no final do século XX e início do século XXI.

A “explicação“ para o mundo, dada pelo futebol, de acordo com o autor, passa por vários fatores: nacionalismo, hooliganismo, surgimento de novas oligarquias, corrupção, ascensão de novos atores sociais. Tudo em um contexto de globalização da economia mundial, após o final da Guerra Fria. E apresentado em uma gradiente, em que o autor parece partir de um contexto mais grave e pessimista para aos poucos falar sobre temas mais suaves e em uma perspectiva otimista.

O livro se divide em três partes. A primeira delas dá conta da violência associada ao futebol, em seu formato mais violento e cruel, com torcedores do Estrela Vermelha, de Belgrado, promovendo a limpeza étnica dos bósnios na década de 90. E prossegue com a romantização do passado, aquele típico discurso de “antigamente era tudo melhor”, com hooligans criticando o novo futebol inglês, com magnatas comandando os clubes e regras rígidas de segurança nos estádios. No meio disso, há uma bela descrição histórica da violência e do fanatismo associado clássico escocês, entre Celtic e Glasgow Rangers, e uma análise do preconceito sofrido pelos judeus no futebol durante o século XX.

Na segunda parte, o autor dá conta dos fenômenos associados à globalização para tratar do surgimento, da manutenção e da sobrevivência de oligarquias no futebol, associando-as à corrupção, a manipulação da mídia e ao abuso do poder econômico por parte das mesmas. A explicação é dada por três grandes exemplos: o da sobrevivência dos cartolas no futebol brasileiro, o do surgimento de magnatas ucranianos que modificaram o perfil sócio-econômico do futebol no país após o desmantelamento do regime soviético, e dos oligarcas italianos que, baseados no poder econômico e na mídia, controlam o futebol no país.

Na parte final do livro, há a associação da globalização com o futebol em larga escala, através da eclosão de manifestações nacionalistas associadas ao futebol. São dadas explicações sobre o nacionalismo cosmopolita catalão, representado na figura do FC Barcelona, sobre o papel do futebol como difusor das liberdades individuais no Irã que se fechou após e revolução islâmica de 1979, e é descrita a briga política norte-americana entre os entusiastas do futebol e as pessoas que consideram o esporte como elemento deturpador da identidade nacional norte-americana.

A narração é muito bem escrita e envolvente. Franklin Foer se descreve como amante do futebol, e talvez por isso tenha a habilidade de escrever o livro de maneira apaixonada e envolvente, com o mérito de fazê-lo em um linguajar completamente acessível ao grande público.

No entanto, há lacunas. Apesar do inegável cuidado com a escolha de suas fontes (com a descrição das mesmas ao final do livro, inclusive), fica claro que em alguns momentos o autor superestima um pouco a influência do futebol na sociedade, tentando atribuir ao mesmo um papel de catalisador nas mudanças sociais e políticas ocorridas no final do século XX em escala global. Em relação a isto, o próprio autor faz um mea-culpa, logo no princípio da narrativa, dizendo que, apesar de tudo o que está escrito, sua intenção é apenas demonstrar como o futebol, mundo afora, explica sociedades, e não como ele modifica sociedades. São duas coisas diferentes, que devem ser muito bem separadas.

Além disso, algumas descrições são demasiadamente romantizadas (como a do FC Barcelona, por exemplo, time do coração do autor do livro), e alguns fatos sem total comprovação são descritos como verdadeiros para justificar argumento. Cinco anos depois, no entanto, algumas acusações de Foer, como a de que os Agnelli, donos da Juventus, corrompiam arbitragens, revelaram-se verdadeiras, enquanto outras afirmações isoladas, como a de que os australianos não gostam de futebol, mostraram-se falsas (afinal, já vimos que até os neozelandeses gostam de futebol). Neste aspecto, o futebol, a cada dia, tem se revelado surpreendentemente mais globalizado do que Franklin Foer descreve em sua obra. O que de forma alguma tira a enorme relevância dela.

Em suma, Foer trata o futebol, no contexto da globalização, como uma inusitada janela para enxergar o Ethos de diferentes grupos sociais ao redor do mundo. O futebol, como fato social existente em escala global, é um microcosmo que reflete o status quo de muitas sociedades, uma arena em que desejos sociais reprimidos são exacerbados, e onde na maioria das vezes é exibido um retrato cru da sociedade, que não passa pelos diversos filtros que governos, a mídia e forças econômicas impõem.

E este é o grande mérito do livro: tratar o futebol como instrumento de análise de uma nova sociedade global, que emerge das cinzas da Guerra Fria e toma de assalto as concepções e tradições de sociedades acostumadas a tratar o futebol e as convenções sociais de forma patrimonialista, provinciana e preconceituosa. O assunto do livro, em suma, é o choque entre civilizações que a globalização proporcionou, e como o futebol, como ente global, explica essa transição de forma complexa, intrincada e comovente.

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