Layla and Other Assorted Love Songs – análise do álbum e vídeos das músicas


Em 2006, publiquei no Tabelando (www.tabelando.com) um review sobre um dos principais álbuns lançados no início da década de 70, o Layla and Other Assorted Love Songs, do Derek and the Dominos. Resolvi adaptar e colocar aqui no blog, para apreciação de todos. Especialmente para quem acha que Clapton só canta Tears in Heaven, Cocaine e a versão acústica de Layla (que é muito boa, mas é OUTRA MÚSICA, para dizer o mínimo).

Derek And The Dominos

Em 1969, um ano após terminar o clássico power trio Cream, Eric Clapton partiu em um projeto efêmero, de um mês e meio, junto com Steve Winwood, líder do Traffic, além de Ginger Baker, ex-Cream, e Rick Grech: o Blind Faith. Um álbum, de nome Blind Faith e uma turne americana de um mês e meio são os únicos registros dessa banda.

Mas o prosseguimento da carreira de Clapton partiu dessa turne de um mês e meio. A banda que abria os shows do Blind Faith, o Delaney & Bonnie, serviu de base ritmica para a nova banda de Clapton. Bobby Whitlock (teclado, vocais), Carl Radle (baixo) e Jim Gordon (bateria) se juntaram a Eric Clapton e ao genial guitarrista Duane Allmann, proveniente da poderoso grupo de Southern Rock Allmann Brothers Band, formando o Derek and the Dominos.

O nome Derek and The Dominos surgiu em uma piada, nos bastidores do 1º show da banda. E o grande intuito de Clapton, a princípio, era aplacar a onda de adoração que se fazia a ele na época. Ele estava cansado de ver os muros de Londres pixados com “Clapton is God”, queria ser apenas um integrante de uma banda. Óbvio que não conseguiu. Mas o resultado desse esforço ficou marcado.

Layla and Other Assorted Love songs

Capa do Álbum

Comprei esse álbum em 2006. Importei, paguei 140 reais juntando esse álbum e o Live at Filmore, os dois únicos lançados pelo Derek and the Dominos. Não me arrependo nem um pouco, mesmo sabendo que hoje posso baixar as músicas na Internet ou vê-las no Youtube. É uma das preciosidades da história do rock e merece registro.

O álbum foi composto em 1970. Pode-se dizer que é um dos álbum mais seminais e sôfregos da história do rock, que retrata de forma mais completa as angústias e agonias pessoais dos integrantes da banda, especialmente Clapton.

Quando o álbum foi composto, Clapton estava num enorme dilema pessoal. Na verdade, na maior dor de cotovelo da história do rock. O guitarrista estava perdidamente apaixonado pela esposa de seu grande amigo George Harrison, Patti Boyd Harrison. Amizade que rendeu um dos maiores clássicos da história do rock, “While My Guitar Gently Weeps”, e depois um dos melhores shows, o “Concert for Bangladesh”. Depois, de fato, Patti largou Harrison pra ficar com Clapton e os dois amigos ficaram um bom tempo brigados. Mas também, qualquer uma largaria o marido depois de ter um clássico como Layla dedicado a si…

Abaixo, Eric Clapton tocando While My Guitar Gently Weeps com George Harrison. E mais Ringo Starr, Phil Collins, Elton John e Jeff Lyne.

Eric Clapton estava em um momento introspectivo após as passagens por Cream e Blind Faith. E infeliz pelo excesso de assédio por parte dos fãs e da imprensa. No caso, tentou fazer uma banda em que as pessoas não soubessem que ele era Eric Clapton, pelo menos a princípio, para que fosse feito um trabalho baseado no que ele realmente sentia. Obviamente, não deu certo, apesar da banda não ter reconhecimento imediato.

A banda e o álbum foram, antes de qualquer coisa, marcada pela tragédia. Além da tragédia emocional de Clapton, o álbum Layla and Other Assorted Love Songs foi gravado com um Eric Clapton ainda mais abalado, devido a morte de seu amigo Jimi Hendrix. Essa morte inclusive inspirou uma versão de Little Wing gravada pelo Derek and the Dominos, que está próxima da perfeição.

Além disso, em 24 de outubro de 1971, Duane Allmann faleceu em um acidente de moto. Clapton ficou afundado no vício de heroína até 1974. O baterista Jim Gordon teve um final trágico também: ele sofria de esquizofrenia não-diagnosticada, e foi preso ao matar a mãe a marretadas, em 1983. Bobby Whitlock ainda faleceu alguns anos depois de sair da banda, devido a uma overdose de heroína.

A banda durou meros dois anos. Lançou um álbum duplo de estúdio (Layla and Other Assorted Love Songs) e um poderoso álbum duplo ao vivo (Live At The Fillmore). Mas mesmo assim, ficam marcados os coros sensacionais em duas vozes, cantados por Clapton e Whitlock, os duelos de guitarra épicos entre Clapton e Allmann, a habilidade de Whitlock ao teclado e o peso dado ás músicas por Radle e Gordon.

Músicas

1. I Looked Away

Típico blues, abre o álbum com classe. Boa música, com uma leve inclinação para o Country. E as guitarras aparecendo bastante, com uma pegada levemente romântica.

2. Bell Bottom Blues

Primeiro grande momento do álbum. Nunca na vida uma música retratou tão bem um amor perdido e o desespero de quem o perdeu. As guitarras chorosas e as vozes rasgadas de Whitlock e Clapton tornam a música uma brilhante declaração de amor. Um blues em tom menor que beira a perfeição.

3. Keep On Growing

É o momento mais “alegre” do disco. Um belo blues com um duelo de guitarras interessantíssimo. O ritmo da música é o que mais chama a atenção:

4. Nobody Knows You When You’re Down And Out

Outra música que fala de uma paixão perdida. E, de novo, fala com maestria.É perceptível a tristeza em cada riff de guitarra, em cada frase da letra da música. Como em outros momentos do álbum, a beleza da música está na tristeza dela.

5. I Am Yours

Que música essa. Uma declaração de amor lenta, onde Clapton e Allmann inovam e mostram influências até de música havaiana. A guitarra de Clapton leva qualquer admirador de boa música a um nível diferente de realidade. É muito interessante notar a inteligência de Clapton ao lidar com ritmos não usuais. Como vemos, por exemplo, na famosíssima I Shot Sheriff, na retomada de sua carreira.

6. Anyday

Boa batida, bom ritmo, bom vocal, boa guitarra. No entanto, no “universo” do álbum, acaba passando despercebida. Tipo da música que não faz você apertar o botão Forward, mas também não faz você apertar o botão Repeat:

7. Key To The Highway

Esse belo blues, que depois foi regravado em parceria com o mestre B. B. King por Eric Clapton, é o que de mais tradicional pode se fazer em questão de Blues. Você ouve a música e lembra das estradas do Mississipi, das casas de shows escuras da década de 50 que abrigavam shows memoráveis de grandes bluesmen. Envolvente.


8. Tell The Truth

Os riffs de guitarra aparecem muito nessa música. falar que são riffs de qualidade é um pleonasmo quando você tem uma banda com Eric Clapton e Duane Allmann. A guitarra parece ser uma extensão do corpo dos dois.

9. Why Does Love Got To Be So Sad?

Outro momento intenso do álbum. As guitarras estão cada vez mais poderosas, assim como o dueto vocal Clapton / Whitlock. Não sei por que, mas acho essa música divertida. A pegada dela é sensacional, e a guitarra solo é incrível.

10. Have You Ever loved a Woman

É um blues tradicional e poderoso. A batida desses blues feitos por Clapton faz você se sentir em um bar qualquer da Louisiana da década de 50. É uma sensação única:

11. Little Wing

Um dos covers mais poderosos eu eu já ouvi. A música é de uma intensidade inacreditável, o riff inicial ficou épico, e se Jimi Hendrix ouviu a música em algum lugar, após sua morte, com certeza ficou emocionado. O uso das guitarras na sequência da música, que já era genial na versão original, tornou essa versão da música uma pérola, um tanto desconhecida até hoje. Recomendo com muita força, a música é emocionante:

12. It’s Too Late

É um momento de anticlímax entre as duas principais músicas do álbum, mas é um bom blues. Traz um clima retrô, lembra algumas músicas da década de 50 e tem até uma leve pegada de jazz.

13. Layla

Clássico absoluto. Do riff inicial, composto por Duane Allmann, à nota final, a música beira a perfeição. Retrata com intensidade uma declaração de amor, com uma potência incomum pra época. Depois, nos presenteia com uma das melhores interações teclado/guitarra já vistas na história do rock. É quase um sonho ouvir alguém se declarando para ti com essa música ao fundo. Um dos maiores momentos do rock.

14. Thorn Three in The Garden

Anticlímax do resto do álbum. A única música que eu passaria pra frente, sem ouvir completa. Achei muito depressiva e as guitarras pareciam quase ausentes. Mas vocês podem discordar frontalmente de mim, então segue o vídeo


Conclusão

Layla and Other Assorted Love Songs é um álbum de blues. E enquanto álbum de blues, Layla and Other Assorted Love Songs é ótimo. Mas quando foge do Blues tradicional, o álbum deixa de ser ótimo e passa a ser supremo. A dupla de guitarras, a dupla vocal e o teclado são os pontos altos. Coisa rara na história do rock.

Eu gosto muito da emoção que o álbum expressa. Músicas muito bem trabalhadas, feitas por quem realmente conhecia o assunto a amava o que fazia. O momento pessoal dos membros da banda, especialmente de Clapton, está muito nítido em cada música. A depressão e, em certa medida, o vício em heroína, deram a tônica do álbum e fizeram a banda toda dar um passo à frente na experimentação e na inovação dentro do rock.

Historicamente, o álbum influenciou muita gente. De cantores de blues a bandas progressivas. Você ouve as músicas com assombro e certa reverência até. E com aquela sensação de “caramba, isso foi feito em 1970, há mais de 40 anos”. Isso só aumenta ainda mais a admiração por essa obra sensacional. Não cabe falar mais aqui. Escutem e tirem suas próprias conclusões.

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6 respostas para Layla and Other Assorted Love Songs – análise do álbum e vídeos das músicas

  1. Layla and Other Assorted Love Songs é a perfeição de um álbum

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