Criatividade


Ultimamente existe gestão de tudo na vida. Basicamente, porque existe gente disposta a dar pitaco acerca de todos os assuntos possíveis da vida. A “administrar” e dar receitas para se fazer todas as coisas, como se a vida não tivesse um caráter deliciosamente anárquico e fosse apenas o Bolo de Nozes da Tia Hermenegilda.

Obviamente a vida não é assim. O ser humano é dotado de criatividade, que basicamente é a capacidade de transformar e conceber coisas a partir de outras, ou a partir de conclusões anteriores. Ou, no limite, a partir do nada, de um insight ou coisa do tipo.

Claro que já inventaram a Gestão da Criatividade. Uma forma de regulamentar e disciplinar a criatividade das pessoas, principalmente no ambiente de trabalho. E, por incrível que pareça, andei estudando isso algum tempo atrás.

Apesar do erro quase fatal de tentar disciplinar o processo criativo, algo que por definição é anárquico, algumas coisas interessantes podem ser depreendidas desse método. Duas reflexões, para ser mais exato.

1) Existem alguns pressupostos que inibem a criatividade. Coisas tão intrincadas em nossa mente, no ethos da sociedade e no nosso dia-a-dia que não nos questionamos acerca do fato de que essas coisas podem simplesmente não serem 100% verdadeiras, ou, no limite, serem apenas um conjunto de regras bestas que inconscientemente obedecemos e que acabam podando a liberdade criativa de nossas vidas. Se questionarmos os pressupostos a seguir, estamos dando um primeiro passo para nos tornarmos pessoas mais criativas (e leves de espírito também, sem tanta preocupação com o que os outros acham da gente):

a) Tudo tem de ter utilidade. Afinal, por que tudo o que fazemos precisa necessariamente ser útil?

b) Tudo tem de dar certo. Por que não podemos acertar e errar para aprender com nossos erros e tornarmo-nos pessoas melhores?

c) Tudo tem de ser perfeito. Por que temos que buscar a perfeição em tudo se a maioria das pessoas vai ignorar isso?

d) Todo mundo tem de gostar de você. Por que temos realmente que agradar e todos, buscando aceitação e às vezes deixando de ser sinceros por causa disso?

e) Não se pode divergir das normas impostas pela cultura. Como eu disse ontem, quem não ousa e não arrisca não vai empatar no jogo da vida, vai perder por W.O. Você só constrói coisas novas questionando as antigas.

f) Deve-se conter a expressão das emoções pessoais. Por que devemos nos levar sempre pela razão, se somos humanos e em nosso íntimo acabamos manifestando emoção, de qualquer forma? Soa mais sincero admitir situações pessoais difíceis do que tentar isolar tudo.

g) Deve-se evitar a ambigüidade. Se até a Mecânica Quântica acaba lidando com a ambiguidade, quem somos nós para evitá-la?

h) Não se deve sonhar acordado. Quem não tem sonhos impossíveis nunca vai ter a maravilhosa experiência de torná-los possíveis.

Para que uma idéia não morra, é muitas vezes necessário lutar por ela não se deixar vencer pelos inúmeros obstáculos que se refletem com freqüência em todos os âmbitos de nossa vida. Tenha ideias, lute contra os obstáculos impostos pelas circunstâncias e utilize métodos que ninguém usou ainda para torná-las realidade.

2) Você deve destruir as barreiras emocionais que dificultam o aproveitamento de suas potencialidades criativas. Muitas vezes a criatividade é inibida por conceitos baseados em nossa percepção sobre nós mesmos e sobre o mundo. Você tem uma mente criativa, mas as ideias param em algum lugar dentro de sua mente, ainda no processo de criação, por algum dos motivos abaixo:

a) Apatia. Para que ser guiado pela inércia e permanecer parado. A inércia positiva, se é que ela existe, é representada por um corpo que está em movimento e continua em movimento. Continuar parado, por conformismo ou apatia, não vai levar ninguém a lugar nenhum.

b) Baixa tolerância à mudança. A coisa mais certa de nossa vida é a mudança. A cada aprendizado mudamos um pouco nossos conceitos e percepções sobre o mundo. Você não deve apenas tolerar a mudança: você deve amá-la sempre, tendo uma mente curiosa e ansiosa por aprender em todo o tempo.
c) Desejo excessivo de segurança e ordem. Segurança e ordem remetem á previsibilidade, que remetem à estagnação, que é justamente o contrário do que eu defendi no ítem b, logo acima. A mudança deve ser a regra, e a sensação de insegurança e desordem que a mudança traz deveria nos trazer excitação e desejo de aprender, e não o contrário.

d) Inabilidade de tolerar ambigüidade. Ambigüidade também deve ser algo comum. e não só tolerado, como trabalhado. Situações ambíguas geram pressão por mudança, e a pressão por mudança é basicamente o que move uma mente criativa. A corrida espacial está aí pra não deixar eu mentir.

e) Insegurança. A insegurança está associada ao medo de mudanças. Mais uma vez, eu repito:a a mudança deve ser a regra e não deve causar medo, mas excitação, contemplação e aquela gostosa sensação de “que legal, o que será que vem agora” que costumávamos ter quando éramos crianças e viajávamos com os pais.

f) Medo de parecer ridículo. Sobre isso eu já falei nessa postagem: https://poucodeprosa.wordpress.com/2011/10/11/o-elementar-direito-de-ser-ridiculo/

g) Medo do fracasso e de cometer erros. O fracasso e os erros, quando cometidos eventualmente, são bem vindos. Sabendo o que está errado, é sempre mais fácil saber também o que está certo.

h) Relutância em experimentar e correr riscos. Toda mudança envolve riscos. Não querer correr riscos é gostar da estagnação e ser contrário às mudanças. devemos sempre incentivar a curiosidade e a experimentação.

i) Sentimentos de inferioridade. Um dos problemas mais graves, uma vez que não interfere com o processo de criação, mas com a percepção de quem cria sobre si mesmo. Saiba que no mundo ninguém é inferior à ninguém, e todos os que fazem as coisas com amor e dedicação contam com chances muito razoáveis de criarem coisas novas e obterem sucesso. Você é capaz, você pode fazer algo de bom, conta com um cérebro maravilhoso, um pack de conhecimentos adquirido por toda uma vida. Existe alguma coisa em que você é muito bom. Talvez você não tenha descoberto ainda, mas sempre existe. Todos nós somos criativos, nascemos criativos e devemos focar nossa vida em mudar e melhorar a vida das outras pessoas, trazendo impacto positivo e amando-as como amamos a nós mesmos.

Mas daí eu pergunto: como ser criativo e melhorar a vida das pessoas, amando-as como a si próprio, se você não se ama? Nós devemos ser humildes, devemos ter um coração humilde, mas devemos ter absoluta consciência de nossa capacidade criativa e usá-la para ajudar os outros.

A humildade não está em nos inferiorizarmos, mas em termos consciência de toda a nossa capacidade e ainda assim tratarmos cada um, sem distinção, com respeito, reverência, cortesia e amor fraternal.

E a criatividade? A criatividade é o resultado de nossa humildade e de nossa eterna disposição de aprender. E tratar a todos bem é ter a consciência de que, independente de quem seja a pessoa com quem estamos conversando, sempre podemos aprender algo novo.

Nesse mundo, não existem certos e errados. Existem várias formas de estarmos certos e errados ao mesmo tempo. Porque sempre estamos mudando. porque sempre estamos aprendemos. E porque nascemos com a dádiva da criatividade e o dom de aproveitá-la adequadamente.

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