Por que a prioridade ao marketing político?


Quando falamos de política, as grades estrelas, além dos próprios políticos, são os marqueteiros. Jean-Paul Sartre, entre outros, afirmaram desistir da carreira política quando perceberam que a mesma não passava de “um grande show de luzes, baseado apenas em propaganda”.

É uma pergunta relevante e pertinente. Por que a prioridade ao marketing político?

Existem duas maneiras de um governo se comunicar institucionalmente com o cidadão. A primeira delas é através das políticas públicas e da comunicação das mesmas. É uma obrigação óbvia dos governos divulgar ao cidadão quando existe algum novo serviço público, alguma melhoria relevante ou algo do tipo. A comunicação institucional exerce papel primordial no dia-a-dia do cidadão, e é extremamente necessária em muitas ocasiões. Imagine o caos que uma mudança de direção de uma via, por exemplo, causaria sem comunicação prévia por parte do governo.

Existe uma segunda maneira de se comunicar: a fixação de marca. O marketing político puro e simples, como o conhecemos. Não é intrinsecamente ruim, tendo em vista a necessidade política de quem está no poder. Mas, na maioria das vezes, é usado de forma exagerada, pouco apropriada. E maquia de forma pífia eventuais falhas do governo, potencializando ganhos que, de fato, não existem.

Mas não é esse o assunto aqui. Estamos há menos de um ano das eleições, e os candidatos estão recrutando correligionários, apoiadores e pessoas capacitadas para atuar em suas campanhas. Infelizmente, verifica-se na maioria das candidaturas que a procura é por marqueteiros políticos, quando a prioridade deveria ser por formuladores de programas e desenvolvedores de políticas públicas. E fica a pergunta inicial. Por que?

Para começar, marketing político e a formulação de planos de governos deveriam ser tratados como trabalhos complementares, e não concorrentes. Porque o formulador de programas de governo ajuda o candidato a desenvolver as ideias, colocando-as no papel em linguagem racional, e tornando-as viáveis. O marqueteiro político, por sua vez, tem como função VENDER a ideia desenvolvida anteriormente. E hoje percebe-se uma inversão no rumo desse processo.

Não é dada a devida importância à formulação dos planos de governo. Na maioria dos casos, os mesmos são apenas uma colagem de ideias que seguem um padrão e não são adaptados às realidades regionais. Por um motivo simples: para os políticos brasileiros, as ideias e o planejamento não são importantes. Importante é ter quem as venda.

No entanto, o cidadão já não pode tolerar ideias ruins. Não pode mais tolerar invenções políticas baseadas meramente no marketing. A base da política deve ser as propostas e programas de governo, e não o marketing. Na prática, o marketing refere-se à forma de apresentação da proposta, e, obviamente, deve estar subordinado ao programa de governo, e não determiná-lo.

Existem estudos apontando, há pelo menos 30 anos, que quanto melhor um governo, menor a necessidade de gastos em marketing. O marketing é uma arma de divulgação de governos mal avaliados, ou, no limite, ruins mesmo. E é um pressuposto óbvio, tendo em vista que o marketing serve para melhorar avaliações.

No caso das campanhas políticas, não é diferente: quanto melhor um programa de governo, menor a necessidade de convencer as pessoas através do marketing. Isso ocorre especialmente no plano municipal, em que as atitudes do governo afetam de forma mais direta a população. Nesse sentido, o marketing, se utilizado de forma excessiva durante a campanha eleitoral, explicita para a população o que na maioria das vezes é um programa de governo ruim, que, no fim das contas, não faz diferença efeitiva para a população, não tem sentido e nem aplicabilidade prática.

Por esse motivo, fica a orientação para todos os que pretendem se candidatar: o maior investimento de cada candidatura deve ser no programa de governo e nas ações efetivas para a população, e não no marketing político. O marketing é só uma forma de publicar as ideias. E boas ideias, ainda mais hoje, com a popularização da Internet, obedecem ao advento da viralização, e se espalham quase sozinhas.

O debate necessário nas eleições é o debate de ideias. De personalismo e ofensas o cidadão já está cansado. E esse é um dos grandes motivos do descrédito atual da política no Brasil.

 

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2 respostas para Por que a prioridade ao marketing político?

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