Europa, de colonizadora a colonizada


Recomendo muito esse texto do Eduardo Febbro sobre a natureza das renúncias dos governos italiano e grego, e, principalmente, acerca de quem assumiu:

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18998

O fato é um só: a Europa, por séculos, foi a colonizadora do mundo. Colonizou as Américas, a África e a Ásia, e, com o espólio dessas colonizações, foi o centro do mundo até meados do século XX.

Essa polarização só mudou de fato com as guerras mundiais, que foram o grande catalisador da ascensão norte-americana (e soviética) ao seleto grupo das superpotências. A Europa, por sua vez, foi destruída pelas duas guerras e se tornou refém econômica dos norte-americanos, através do Plano Marshall. Com isso, foram obrigados a alinhar-se com uma doutrina ideológica externa pela primeira vez em séculos. A Europa, de irradiadora do pensamento mundial, tornou-se uma espécie de “sub-centro”, ainda com muita influência por causa de sua história, mas com pouco poder decisório.

A evolução econômica da região, a queda do regime comunista e a Globalização possibilitaram o surgimento de uma moeda única na maioria dos países da União Européia: o Euro. Lançado em 1999 como promessa de fortalecimento econômico da região, o Euro se revelou, apenas 12 anos depois, uma verdadeira catástrofe. Por um motivo simples: a manipulação cambial das moedas ainda é um elemento crucial para o controle do endividamento dos países.

Enquanto países com a França e Alemanha tinham um cenário de valorização excessiva de suas moedas, em países como Itália, Espanha, Irlanda, Portugal e Grécia, por exemplo, a desvalorização de suas moedas era essencial para controle da dívida. É algo parecido com o que aconteceu com a Argentina na década de 90, quando o Peso era indexado ao Dólar: endividamento crescente, pressão cambial, falta de dólares no mercado, e um cenário que serve de prenúncio do que deve ocorrer na Europa: a moratória argentina.

No entanto, muito desse cenário é causado pelos abusos dos banqueiros. Enquanto é conveniente para eles, o dinheiro gira e há uma permissividade para que os níveis de endividamento nacionais sejam alçados a patamares que, em qualquer empresa, representariam falência. Tudo para que os bancos tenham mais lucros em suas aplicações, baseadas, mutas vezes, em títulos de dívidas nacionais. Tal estratégia ainda é amparada pela inépcia das famigeradas agências de rating, que, através de métodos controversos, consideram que mercados com dívidas impagáveis ainda são “lugares melhores para se investir” do que mercados em franco crescimento. Prova disso foi a atitude dos bancos espanhóis, hoje em frangalhos, durante o crescimento da bolha imobiliária espanhola, até 2008.

Daí, quando tudo dá errado, por culpa dos bancos, os chefes de estado que seguiram a receita dos mesmos são obrigados a deixar seus postos. E quem entra no lugar? Representantes dos bancos. Ou, mais especificamente, representantes de um ou dois bancos, que, infalivelmente, são os que mais lucram com “programas de recuperação” que levam á recessão, à pobreza e cobram da população um empobrecimento forçado, por algo que em nenhum momento foi culpa do povo.

Grécia, Itália, agora as hienas do mercado já apontam suas armas para Espanha, Portugal, Irlanda… até chegarem na França e na Alemanha, que obviamente não serão capazes de resgatar as dívidas de todos os países do Euro. Nesse cenário, o país com menos prejuízos o Reino Unido, que preferiu não aderir ao Euro desde o começo, continuando com sua moeda forte e estável, a Libra Esterlina. E com ferramentas monetárias para evitar um endividamento excessivo.

A Europa, de colonizadora, tornou-se colonizada. E, para sair desse cenário, deveria mirar-se no exemplo brasileiro, que, apesar de várias fortes restrições, retomou o crescimento conciliando investimento em infra-estrutura (ainda bastante deficiente) e gastos sociais. O Brasil tem um problema grave para resolver ainda: a educação. Por isso ainda não conseguimos dar o “salto de desenvolvimento” necessário ao país. Mas precisamos lembrar os europeus, agora colonizados por meia dúzia de bancos norte-americanos, que os banqueiros só querem lucro próprio, não importando qual será o cadáver caído no meio do caminho. Para retomar o crescimento, os europeus precisam tomar a mentalidade irradiadora de conhecimento. Não mais baseada na colonização alheia, mas na boa recepção das ideias que vem de fora e na união pela melhoria geral da qualidade de vida, tendo em vista o empobrecimento crescente na Europa Mediterrânea.

E nisso nenhum Goldman Sachs pode ajudar.

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4 respostas para Europa, de colonizadora a colonizada

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  3. Carlos Ardana disse:

    Para a Europa retomar o crescimento é mais complexo que o Brasil, a mão de obra local é deficitária, e eles não contam com a equipe econômica do FHC.

    Não tenho conhecimento em economia o suficiente para avaliar o “estrago” que o Euro causou, mas não podemos colocar uma mesma moeda forte para paises com economia fraca, vimos aqui mesmo na América do Sul varios planos mirabolantes em que parelhava o dolar com o Cruzeiro ou no caso da Argentina ( maior caloteira do mundo ) que fez o mesmo com o Peso.

    O grupo do euro não tem lastro para sustentar a economia, só para efeito de comparação, os americanos mantem uma reserva de 8.000 toneladas de ouro e é isso que sustenta o dolar como moeda forte, a Inglaterra por sua vez tambem viu esse “detalhe” e não abriu mão de sua moeda. Só para efeito de comparação a reserva brasileira de ouro é de 33 toneladas e somos o 47º no do mundo, perdemos para a argentina e venezuela.
    http://exame.abril.com.br/economia/mundo/noticias/as-10-maiores-reservas-de-ouro-do-mundo

    • Léo Rossatto disse:

      Sim, informações muito importantes as suas. É que hoje é usado o dólar como lastro ao invés do ouro, o que garante uma posição privilegiada aos EUA. Sinceramente o ouro ajuda, mas o valor dessas oito mil toneladas de ouro hoje, se formos ver, está fechado em cerca de 40 dólares o grama. O que, num cálculo cru, faz com que as 8 mil toneladas do ouro americano que existem de lastro valham cerca de 320 bilhões de dólares. O que é um valor absurdo para nós, mas é um valor quase simbólico perto da dívida norte-americana, que gira em torno de 16 trilhões de dólares.

      E esses planos mirabolantes revelaram-se fracassados. Muito graças à Argentina, que preferiu manter a paridade peso/dólar (e praticamente faliu por causa disso). Hoje, percebe-se que tivemos sorte.

      No entanto, é bom ressaltar que em economias menores, sem nenhuma economia muito preponderante, dividir moeda pode funcionar. Tem sido assim há quase 50 anos com o Franco CFA, compartilhado por 14 países das Áfricas Ocidental e central.

      Enfim, muito obrigado pelo comentário. Foi muito valioso.

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