Sócrates, o jogador que eu queria ser


Minha mãe não gosta do Sócrates. Falava que ele era um “bebum”. Ainda em vida, que fique bem claro. O alcoolismo, que ajudou na morte prematura do ídolo, é uma doença, deve ser tratada com tal, e falar que é uma falha de caráter ou algo do tipo é leviano, pra não dizer babaca mesmo.

Não acompanhei Sócrates em sua carreira profissional. Uma pena. Mas sempre tive, quando criança e até determinado ponto da adolescência (aquele em que suas ilusões desabam para dar lugar à dura realidade), o sonho infantil de ser jogador de futebol. Eu via muitos jogadores atuando e nenhum deles tinha o CARÁTER e as características que eu gostaria de ter como jogador de futebol. Até ler e ver vídeos sobre a carreira do Sócrates.

Dentro do campo, sempre quis ser um sujeito com muita visão de jogo, que chutasse maravilhosamente bem de longe, que tivesse alguma habilidade, mas a utilizasse somente para o objetivo do jogo: fazer gol ou colocar alguém de forma genial na cara do gol. Além disso, queria ser aquele cara que marcasse com classe, tomasse a bola no tempo exato sem fazer faltas desnecessárias e saísse jogando com desenvoltura. Obviamente nunca nem cheguei perto disso. O mais perto que cheguei disso foi em um gol de calcanhar completamente casual numa final de um campeonato interno no IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp)

Fora de campo, gostaria de ser um sujeito esclarecido, diferente dos outros jogadores, um líder, que se importa com causas políticas e com a cultura dos jogadores de futebol, querendo atuar e lutar por diretrizes mais justas para a sociedade através do futebol, com muita consciência. Obviamente nunca tive notoriedade e nem futebol para isso.

Mas Sócrates foi o retrato fiel das duas frases acima. Dentro de campo foi vistoso, tinha uma visão de jogo maravilhosa, um estilo de jogo solidário e uma influência incomum sobre os companheiros. Fora dele, era um ativista, defendia causas como a democracia, a justiça social e a honestidade no futebol.

Sócrates morreu. Ele era uma daquelas pessoas que se importava mais com os outros e com aquilo que considerava justo do que consigo mesmo. E, entre essas pessoas, é comum que a própria saúde seja deixada em segundo plano. Aquela história de que “os bons morrem cedo” é verdade. Não só pela saudade que deixam. Mas porque os bons, como o Doutor Sócrates, dedicam-se mais os outros do que a si mesmos.

Sócrates era o exemplo perfeito do jogador que eu queria ser. Gostaria que muitos jogadores de futebol homenageassem o Sócrates. Não apenas com momentos que logo caem no esquecimento, antes ou depois dos jogos. Mas cientes que que a melhor forma de homenagear o Doutor é eternizando o seu legado, tomando o seu procedimento como exemplo e tornando-se um jogador de futebol com senso crítico, que busque se fortalecer não apenas como atleta, mas na cultura, no caráter e na disposição de lutar por uma sociedade mais justa através do futebol. Mostrar que o exemplo dado pelo Doutor Sócrates pode ser replicado é a melhor forma de mantê-lo vivo, agora que ele se foi.

Descanse em paz, Doutor.

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