O homem que, há um ano, mudava o mundo


17 de dezembro de 2010.

Em um povoado da Tunísia, Sidi Bouzid, Mohamed Bouazizi, 26 anos, qualificado como técnico em informática, vendia frutas e verduras para sustentar sua família. Fazia isso desde os dez anos de idade, e trabalhava em tempo integral desde dos dezenove.

Além de interromper seus estudos para trabalhar, Bouazizi lutou para que não ocorresse o mesmo com sua irmã. Os cerca de 200 dólares que conseguia por mês, além de sustentar a casa (seu pai morreu quando ele tinha três anos, e seu padrasto sempre sofreu problemas de saúde que o impediam de trabalhar), serviam para ajudar nos estudos de sua irmã.

Como vendedor de frutas, tentou por várias vezes obter licença de trabalho junto às autoridades tunisianas, sem sucesso. Além da opressão que a vida já lhe impunha pelas circunstâncias, Bouazizi tinha que encarar a opressão dos policiais e agentes do governo tunisiano. O governo, sob a tutela do ditador Ben Ali, era truculento com a população (e não apenas porque o país era comandado por um ditador, aqui no Brasil também temos policiais e funcionários públicos que agem de maneira truculenta, não sejamos hipócritas) e os produtos de Bouazizi eram constantemente confiscados.

Na manhã de 17 de dezembro de 2010, isso ocorreu novamente. As autoridades de Sidi Bouzid confiscaram o carrinho de Bouazizi, alegando que a venda ambulante na Tunísia era ilegal. Após ir a sede do governo regional tentar reaver seu carrinho com o governador, sem sucesso, e ainda ter sido agredido por uma funcionária pública municipal, ele não aguentou e deixou no Facebook a seguinte mensagem em árabe informal:

“MSAFER YAMI MA IFID MLAM THAYE3 FI TRI9 MAHOU BIDIA SAME7NI KAN 3SIT KLAM LOUMI 3LA ZMEN MA TLOUMI 3LIA RAYE7 MIN 8IR RJOU3 YEZI MA BKIT W MA SALETECH MIN 3INI DMOU3 MA 3AD YFID MLAM 3LA ZMEN 8ADAR FI BLED ENES ENA 3YIT W MCHA MEN BELI KOL ELI RA7 MSAFER W NES2EL ZA3MA ESFAR BECH YNAS”

Abaixo, obviamente, segue a tradução:

“Estou viajando, mãe. Perdoe-me. Reprovação e culpa não vão ser úteis. Estou perdido e está fora das minhas mãos. Perdoe-me se não fiz como você disse e desobedeci suas ordens. Culpe a era em que vivemos, não me culpe. Agora vou e não vou voltar. Repare que eu não chorei e não caíram lágrimas de meus olhos. Não há mais espaço para reprovações ou culpa nessa época de traição na terra do povo. Não estou me sentindo normal e nem no meu estado certo. Estou viajando e peço a quem conduz a viagem esquecer.”

Depois disso, ele comprou duas garrafas de solvente e ateou fogo ao próprio corpo em frente a sede do governo:

Ele ainda ficou internado por 18 dias, até morrer no dia 04 de janeiro de 2011. Recebeu visitas no hospital até mesmo do ditador Ben Ali, que cairia em poucos dias.

Fonte: Al Jazeera

Seu ato extremo foi a inspiração de faltava para o povo oprimido, na Tunísia e nos demais países árabes, buscarem a liberdade. Bouazizi não tinha um ideal, não sabia para onde iria depois, não tinha largo conhecimento religioso ou algo do tipo. Ele só queria viver sua vida, e, ao não conseguir, decidiu se entregar, para servir como símbolo.

Mohamed Bouazizi se entregou a vida toda. estava acostumado a se doar pelos outros e essa era a razão da sua existência. Sustentava sua família desde os dez anos de idade, e suportava calado a maioria dos abusos do qual era vítima. Sustentava os estudos da sua irmã, para que ela não tivesse o mesmo destino dele. Quando o governo da Tunísia impediu Bouazizi até mesmo de fazer algo pelas pessoas que amava, ele não aguentou. Ele só queria liberdade. E a conseguiu, para ele e para seus semelhantes, através de um ato destruidor, que mudou a história do mundo em 2011.

A partir de sua entrega definitiva, protestos eclodiram na Tunísia, até a queda do ditador Ben Ali. Rapidamente os mesmos protestos eclodiram por todo o mundo árabe, culminando, em pouco tempo, na renúncia do ditador Pervez Mubarak, no Egito. Iêmen, Bahrain, Síria, Líbia, Jordânia e até a Arábia Saudita foram alvos de protestos.

O ato de Bouazizi também inspirou a maior mobilização popular nos EUA e nos países europeus nos últimos 40 anos, em protesto contra a crise econômica. Protestos como o Occupy Wall Street e o Occupy Oakland, que também se espalharam pela Europa.

Os efeitos práticos são absolutamente questionáveis. Na Líbia, com apoio da OTAN, o ditador Gaddafi foi deposto e assassinado. E a lei do país pode se basear na Sharia, o mais rígido modelo legislativo islãmico, o que seria um golpe duríssimo nas liberdades individuais dos cidadãos. Na Europa governos foram trocados por gestores intimamente ligados aos pincipais bancos americanos, tornando o continente cada vez mais colonizado, na contramão de sua história, e refém dos interesses do capitalismo financeiro.

Mas a lição de Bouazizi, esse herói que sofreu a vida toda calado e morreu se entregando pela liberdade alheia, foi mostrar na prática algo que parecia ser apenas coisa de marqueteiros. “Sim, nós podemos”. Não é nenhum crime lutar pela nossa liberdade, por uma sociedade mais justa, por governos e condições de vida que não nos oprimam a ponto de atearmos fogo ao nosso corpo quando vemos que não existe mais nenhuma solução.

Essa mensagem foi tão profunda e certeira que, nesse ano de 2011, a Personalidade do Ano da Time foi “O Manifestante”:

Fonte: Time

Na verdade, a personalidade do ano foi Mohamed Bouazizi. Ele foi o primeiro e maior “Manifestante”, e demandou mais de si pela liberdade do que qualquer outro. Que sua mensagem agoniada e agoniante de que devemos lutar contra a opressão e pela liberdade continue inspirando a humanidade nos próximos anos.

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4 respostas para O homem que, há um ano, mudava o mundo

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  3. Carlos Ardana disse:

    Eu imagino o ato de desespero do rapaz….mas ele agiu errado, o suicídio é um crime nas leis dos homens e de Deus…

    O que manteve vivo por anos foi a esperança, procurei por 31 anos pela minha mãe biológia, fiz coisas terriveis, pelas quais ainda tenho pedadelos, mas nenhum arrependimento.

  4. severina rossatto armond disse:

    Se tivesse no mundo 10 pessoas igual a ele , o munda seria bem mais humano , e teria menos opressores.Que todos procurem imitar um pouquinho, e4sse amor ao próximo,e todos seremos mais felizes.esteja em paz Mohamed Bouazizi.

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