O Natal, a hipocrisia e o amor


Ah, o Natal. Essa data em que todos de alguma forma se mobilizam. Alguns, resignados, pedem perdão a Deus por suas falhas no ano que passou. Outros se preocupam em recuperar sua imagem junto aos homens, através de presentes e de outros agrados quaisquer. Outros se preocupam em consumir, em propagar símbolos modernos da data, como velhos barbudos vestidos de vermelho ou árvores enfeitadas e iluminadas.

O Natal é na verdade um momento de vazio. Porque na sociedade individualista em que vivemos, o natal não passa de um conjunto de representações hipócritas. É o momento de visitar aqueles parentes para quem você não deu a mínima o ano inteiro e fingir que está realmente interessado nos problemas e anseios deles. Momento em que aquelas pessoas que fizeram questão de fazer todo o mal possível para você durante o ano se aproximarem, cumprimentarem e darem alguma lembrança geralmente sem valor nenhum.

Eu ainda dou mais valor e considero mais sinceras as pessoas que lhe tratam no Natal com a mesma indiferença que tratam durante o ano do que aquelas pessoas que se transformam, por um ou dois dias, em amigos próximos seus e depois voltam ao mesmo descaso, à mesma indiferença, ao mesmo tratamento fútil e medíocre. Não faço questão de cumprimentar ninguém. Não faço questão de ser caloroso. Não faço questão de desejar felicidades nessa época a quem me desejou desgraça o ano inteiro.

O Natal, originalmente, seria a festa da paz. A festa da esperança de um mundo melhor. A comemoração do aniversário do nascimento daquele que veio a terra para dar esperança de uma vida eterna e de um futuro feliz para os homens, Jesus Cristo. É uma celebração da vida.

Hoje não há mais essa conotação. O Natal é a festa em que a realização está no consumismo. A alegria está em comer como nunca, beber como nunca, e comprar presentes muitas vezes desnecessários para pessoas para quem você muitas vezes não dá a mínima. É a hora em que nós, humanos, na maioria das vezes incapazes de amar alguém sem interesses escusos por trás, fingimos ser altruístas, fingimos amar aos outros, e fingimos que fazemos algo pelos outros apenas para que haja uma retribuição.

E uma semana depois do Natal, há a festa de Ano Novo. E continuamos com nossas mentiras, com nossa hipocrisia, com nossa degeneração. Fazemos promessas para nós mesmos feito tolos, e na maior parte das vezes não conseguimos cumprir. Temos a sensação de que ao fim de um ano, um ciclo se finaliza, e tudo se faz novo. Creio que nós temos que tornar nossa vida uma novidade constante através de nossas atitudes diárias.

Impressiona como são ridículas as pessoas que fazem promessas de ano novo, pulam ondas e falam que vão mudar somente pela auto-sugestão, sem planejamento nenhum. Geralmente essas pessoas passam uma semana sem fumar, vinte dias na academia, dez dias sem comer chocolate… E depois tudo volta ao normal. Porque o ano muda, mas a mentalidade continua a mesma.

Datas como o Natal e o Ano Novo servem apenas como fetiches desnecessários para a venda de produtos. Assim como a Páscoa, o Dia das Mães, o Dia dos Pais, o Dia dos Namorados, o Dia da Avó, a semana do orgulho gay… Comprar impulsivamente é uma patologia que é apenas um reflexo da sociedade, que para mover-se se alimenta da venda contínua de produtos desnecessários. Tudo gira em torno do consumo e dizer o contrário soa inocente.

A Sociedade do Natal e do Ano Novo capitalista pode muito bem ser definida como “a sociedade das pequenas futilidades”. A sociedade em que o consumidor coloca-se a frente do cidadão, que outrora já havia sido colocado a frente do ser humano. Somos máquinas dispostas a atender tudo aquilo que se espera da gente. Somos engrenagens que apenas ajudam a rodar as roldanas do nosso sistema degenerado. Somos grandes egoístas, isso sim, por não sabermos celebrar a vida o ano todo e a celebramos da forma mais degenerada possível nos finais de ano.

O ser humano tornou sua vida uma grande desgraça sem se dar conta. Fez de sua vida um punhado de alegrias fúteis, muitas vezes apagadas por um bando de tristezas igualmente fúteis. É o que de pior já aconteceu ao mundo. E essa é a primeira e a última conclusão que qualquer estudo sobre o homem pode ter.

Feliz Natal a todos. E a saída existe sim. Basta acreditar que uma hora você irá encontrá-la. Mas esse processo é intrinsecamente pessoal, cada um tem que encontrar seu próprio caminho.

Aos meus amigos sinceros, que moram no meu coração, desejo um natal realmente abençoado e cheio de pequenos momentos de felicidade, que sirvam para revigorar e tornar mais fácil a luta do dia-a-dia. Eu amo vocês, vocês são especiais, cada um, de sua maneira, são pilares que ajudam na sustentação da minha vida. Não tenho como agradecer pessoalmente a cada um pelo apoio nesse ano, mas amo vocês do fundo do coração e no que precisar estarei à disposição para ajudá-los.

Feliz Natal a todos. Sem futilidades, sem hipocrisia. Apenas com amor, que foi o maior ensinamento do aniversariante Jesus Cristo.

Anúncios
Esse post foi publicado em Pitacos. Bookmark o link permanente.

4 respostas para O Natal, a hipocrisia e o amor

  1. Guilherme Cook Bartholo disse:

    Que texto brega. Quem diria que a palavra “consumista” se tornaria tão ou mais superusada e boçal do que expressões como ” porco capitalista”, “capitalismo selvagem”,”imperialismo americano”, “desigualdade social”, “sistema”, “justiça social”.

  2. Pingback: Textos e Estatísticas de 2011 | Blog do Léo Rossatto

  3. André Luís Garcia disse:

    Linda mensagem.
    Explicou de forma clara e sincera o sentido atual do Natal.
    Parabéns e Feliz Natal.

Dê a sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s