Marcos e suas escolhas


Marcos anunciou aposentadoria nessa quarta-feira, dia 04 de janeiro de 2012. Foram quase duas décadas jogando futebol, pelo Palmeiras e pela Seleção Brasileira. Feitos impressionantes e atuações épicas, muito alardeadas pela imprensa desde quando vazou a informação, no final da tarde, de que Marcos realmente estava se aposentando.

Marcos foi um goleiro sensacional. Em sua fase mais brilhante, entre 1999 e 2002, passava a impressão de que, de fato, era invencível. Fazia defesas épicas e tinha atuações monstruosas, dessas de deixarem até torcedores adversários abismados. Também cometia, algumas raras vezes, falhas grotescas. Mas, na maior parte do tempo, era um goleiro de performance inacreditável.

Seu auge foi a Copa de 2002. A defesa dele na falta perfeita cobrada pelo Neuville é o principal lance de sua carreira, junto com a tão falada defesa do pênalti do Marcelinho Carioca na Libertadores de 2000. Uma defesa que consolidou o Corinthians como o time “sem Libertadores” mais famoso do Brasil. Praticamente um Arsenal tupiniquim.

Falando do Arsenal, a Trivela lembrou muito bem, hoje, que Marcos quase foi para o Arsenal no início de 2003: http://trivela.uol.com.br/blog/redacao/marcos-uma-vida-no-palmeiras-mas-poderia-ser-idolo-do-arsenal/ – e é nisso que gostaria de concentrar minha postagem.

Os palmeirenses podem me odiar por isso, mas Marcos perdeu muito em não ter ido para o Arsenal em 2003. Explico:

1) Marcos estava muito valorizado e foi um dos melhores goleiros da Copa de 2002. Tinha 29 anos e substituiria o contestado David Seaman, que foi considerado, na Inglaterra, um dos principais responsáveis pela eliminação inglesa na Copa de 2002. Isso em janeiro de 2003, quando o Arsenal estava prestes a iniciar a histórica campanha do título invicto inglês. Marcos obviamente não sabia disso. E nem da fase negra que o Palmeiras passaria desde então (e que se estende até hoje). Mas provavelmente seria um goleiro a fazer história no futebol inglês, ocupando no Arsenal o papel que por algum tempo foi ocupado por Lehmann. E melhorando o time, que dependeu de nabas como Almunia por muito tempo.

2) Marcos não deixaria de ser ídolo no Palmeiras. No limite, se tudo desse errado no Arsenal, ele voltaria ao clube, como ídolo e sem a imagem arranhada. E não seria “menos ídolo” do que foi. Não apenas porque o Palmeiras não conquistou quase nada importante desde então (só a Série B, em 2003, e um Campeonato Paulista, em 2008), mas porque, depois das Libertadores de 1999 e 2000, sua imagem de ídolo já estava plenamente consolidada e seu nome já estava definitivamente na história do clube. Não era necessário mais. O amor ao clube pesou, óbvio, ele foi um exemplo, mas pagou um preço muito alto para permanecer no Palmeiras. Um preço similar, eu diria, ao preço que pagou Francesco Totti a carreira toda, ao permanecer na Roma.

3) Marcos poderia ser titular na Copa de 2006 se não fosse afetado pela contínua fase negativa do Palmeiras. Entre 2003 e 2006, é bom lembrar, o Palmeiras passou por uma série de vexames, que não se restringiram à participação na Série B do Brasileirão. E Marcos estava na meta, tentando fazer seus milagres, na maioria deles. É um fato que as contusões atrapalharam o goleiro, mas Marcos passou, de goleiro titular em 2002, a não convocado em 2006. Isso certamente não ocorreria se ele estivesse jogando pelo Arsenal (provavelmente tendo disputado a final da Champions League daquele ano contra o Barcelona).

Apesar de tudo isso, eu acredito que Marcos tomou a decisão certa em ficar no Palmeiras. Conhecendo o caráter dele e o jeito simples e sincero do goleiro, eu creio que, sim, ele poderia ser um ídolo no Arsenal conquistar muitos títulos e ter muitas glórias. Mas, vendo o Palmeiras se afundar, da Inglaterra, ele não conseguiria, em hipótese alguma, manter-se em paz. Marcos é um sujeito de caráter, um sujeito de hombridade, um tipo raro e exemplar no futebol.

Um tipo que, além de ser boa praça e sincero com todos, tem algo que anda muito em falta em nosso futebol: autocrítica. Não tinha nenhum medo em admitir seus erros de peito aberto, em falar que estava com vergonha do time e de si mesmo. Um cara que colocava seu caráter acima dos clichês politicamente corretos cada vez mais usados por jogadores que são tratados feito bibelôs pelos empresários e Departamentos de Marketing dos clubes.

Marcos acertou. E pagou um preço muito alto por ter tomado a decisão certa. Poderia ter dado vôos mais altos, poderia ter escrito mais capítulos de glória em sua história. mas preferiu a simplicidade. Preferiu ser leal e não abandonar o seu time em um momento difícil. E não abandonou o Palmeiras até hoje. Até chegar ao limite de suas forças.

Se o Palmeiras quer retomar sua grandeza e sua história de títulos, deve mirar-se no exemplo de Marcos. às vezes estabanado, às vezes um pouco além do ponto, mas sempre dando o máximo que tinha pelo time. Sempre sendo leal. Como é cada dia mais raro. Não só no Palmeiras, mas no futebol.

Obrigado por todas as lições, Marcos.

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4 respostas para Marcos e suas escolhas

  1. Rafael disse:

    Grande erro da vida do Marcos não se transferir para a Europa. A vida de um jogador é curta; nem se compara ao clube. Muita gente não o colocaria no grupo de jogadores em atividade que amam seu clube, ao lado do Rogério Ceni, mas o dinheiro é importante. Com seu talento, dava pra ter garantido a aposentadoria da família. Que ele seja bem sucedido nos empreendimentos extracampo, não acabando como um ex-jogador na miséria.

  2. A não transferência do Marcão para o Arsenal se deu por uma razão: motivos familiares. Os filhos dele já estavam matriculados na escola e ele só iria se o time esperasse por ele até o semestre seguinte. Como não toparam, ele optou pela família e pelo Palmeiras. “Dinheiro não é tudo na vida”. Mais um grande ensinamento de “São Marcos”.

  3. Igão disse:

    Sobre o item 3: Marcos se contundiu 1 ou 2 meses antes da Copa de 2006. Era cogitado que fosse convocado e concluísse sua recuperação junto aos selecionados, como a Inglaterra fez com Rooney. No entanto, a hipótese foi descartada, uma vez que, dias antes da convocação, Parreira consultou o staff médico do Palmeiras sobre a situação do Santo e soube que o mesmo não se recuperaria antes do fim da Copa.

    • Léo Rossatto disse:

      Agradeço muito o esclarecimento.

      Mas daí entra outra linha de argumentação: quanto das contusões do Marcos, que se tornaram frequentes desde então, foram causadas pela sobrecarga de esforço dele em tentar ajudar o Palmeiras sair da situação em que se encontrava, às vezes jogando sem as condições adequadas? Essa é uma pergunta que provavelmente nunca conseguiremos responder.

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