A Proibição de Sacolas Plásticas interessa a quem?


No último dia 09 de janeiro, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo assinou um Convênio (vejam bem, não é uma Lei, mas um Convênio) com a Associação Paulista de Supermercados (APAS) para substituir as sacolas plásticas e “encontrar alternativas viáveis para o transporte de mercadorias. Tal convênio é fruto de uma Resolução da Secretaria de Meio Ambiente visando retomar o tema, feita em tempo recorde depois que a Prefeitura de São Paulo teve lei semelhante derrubada pelo Tribunal de Justiça:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1011265-cai-lei-que-proibe-sacolas-plasticas-no-varejo-em-sao-paulo.shtml

Mais detalhes acerca do acordo, que reflete uma tendência brasileira, podem ser acessados nessa reportagem:

http://www.estadao.com.br/noticias/vida,campanha-em-supermercados-incentivara-substituicao-de-sacolas-plasticas,716919,0.htm

Infelizmente, alguns temas são alvo de modismos, em que se propagandeia algo sem ao menos se explicar adequadamente os motivos. O caso das sacolas plásticas é um desses. A sacola plástica caiu em desgraça junto aos governos por ser feita de plástico, um derivado do petróleo, que demora centenas de anos para se decompor e, de fato provoca danos ambientais em leitos de rios e aterros sanitários.

No entanto, existem outros interesses nessa campanha pelo fim do uso das sacolinhas.

De acordo com a APAS (Associação Paulista de Supermercados), são consumidas, anualmente, 29,4 bilhões de sacolinhas no Estado. Tal número, enorme, representa quase 20 vezes o que é consumido no Rio Grande do Sul, , por exemplo, de acordo com a AGAS (1,5 bilhões de sacolinhas por ano). E representa um custo de aproximadamente R$ 3 bilhões às redes de supermercado, apenas no estado de São Paulo. No Rio Grande do Sul, com demanda quase 20 vezes menor, essa conta bate em R$ 190 milhões/ano. Isso quer dizer que, apenas no  estado de São Paulo, os Supermercados devem lucrar R$ 3 bilhões a mais do que já lucram. E, ao contrário do que se alardeia, não devem repassar, nem em parte, essa diminuição absurda de custos para o cidadão.

A própria questão ambiental é controversa, quando falamos de sacolas plásticas. Estudo recente, feito pela Agência Ambiental da Inglaterra, defende que a sacola plástica descartável é o tipo mais sustentável de sacola, se comparado aos demais tipos:

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,sacola-plastica-e-o-tipo-mais-sustentavel-diz-estudo,704716,0.htm

Não faço aqui nenhuma apologia ao uso das sacolas plásticas. Sabe-se que o efeito do plástico ao meio ambiente é gravíssimo, e que os produtos de plástico são especialmente perigosos, por demorarem para se desintegrar. Se você tem alguma dúvida disso, saiba que existe uma imensa Ilha de Plástico no Pacífico, atualmente com tamanhos estimados que variam de 1,5 milhão à 9,6 mil~hoes de Km². Para se ter ideia, a área do brasil é de cerca de 8,5 milhões de Km². Mais detalhes podem ser conferidos nessa reportagem (e no vídeo abaixo):

http://www.ecodebate.com.br/2009/03/27/uma-ilha-flutuante-de-lixo-no-oceano-pacifico/

O que precisa ser alertado aqui, em relação às sacolas plásticas, é que os supermercados devem ser pressionados pela população a fazer uma das duas coisas:

1) Repassar a diminuição de custos ao preço dos produtos, vendendo nas dependências de suas lojas sacolas retornáveis.

2) Comprar sacolas retornáveis e entregá-las gratuitamente aos cidadãos.

O que não pode acontecer é o cenário que se desenha hoje: as sacolas plásticas são substituídas, o cidadão paga por sacolas retornáveis para os próprios mercados e não há repasse desse custo imenso que os mercados economizam (de aproximadamente R$ 3 bilhões, apenas no estado de São Paulo) para o preço final dos produtos.

E não adianta dizer que isso faz parte do “Custo Brasil”. Boa parte do “Custo Brasil” na verdade é o “Lucro Brasil”, que, basicamente, é a exploração demasiada dos preços sob o argumento histórico de que “no Brasil as coisas são mais caras mesmo”. Esse caso das sacolas plásticas é apenas mais um em que as empresas tentarão maximizar seus lucros em nome de uma iniciativa que, em um primeiro momento, é apoiada pelo governo (nas três esferas, é bom frisar) sob a argumentação da sustentabilidade. Que também é uma grande fábrica de dinheiro. Mas isso é assunto para outro momento.

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15 respostas para A Proibição de Sacolas Plásticas interessa a quem?

  1. Parabéns pelo texto e pelos links agregados. Estou compartilhando no meu blog: http://www.planetasacola@blogspot.com. O plástico é o vilão do meio ambiente e ninguém tem dúvida disto. O que falta é educação e divulgação dos malefícios do plástico tão útil à vida moderna. As sacolinhas de plástico, se limpas, são material reciclável. O problema é que as utilizamos para acondicionamento do lixo!!! Daí….toda a problemática. Que os custos das sacolinhas deveriam ser repassados em benefício ao consumidor…isto também não tenho dúvida…ou ao menos revertido para política de educação ambiental, apoio as cooperativas de catadores, apoio às pesquisas tecnológicas para desenvolvimento de novos materiais, etc.

  2. Pingback: Quem realmente se beneficia com o fim das sacolas plásticas nos supermercados ? | José Maria Granado

  3. Ricardo disse:

    apenas levantando uma questão curiosa:
    Há décadas atras os supermercados forneciam sacolas de papel gratuitamente, os próprios mercados decidiram substituir as velhas sacolas de papel por sacolas plásticas, agora, querem retornar as sacolas de papel lá do início, só que cobrando por elas…

    Não há material ecologicamente correto, os materiais sintéticos permanecem poluindo a natureza, os materiais orgânicos implicam em consumo de recursos naturais (como as árvores no caso do papel), então, talvez a solução não esteja no tipo de material a ser usado, mas sim no reaproveitamento dele seja ele qual for. E quando digo reaproveitamento quero dizer reuso e reciclagem.

    Sacolas retornáveis? ora, e quem disse que as atuais sacolas plásticas não são retornáveis? o que nos impede de levá-las novamente ao mercado?

    • Léo Rossatto disse:

      Único impedimento ao reaproveitamento das sacolas é a fragilidade delas.

      Mas você está certíssimo. Se fizessem sacolas plásticas melhores, poderiam ser reaproveitadas várias vezes.

  4. Walter nishino disse:

    Meu caro Léo, parabéns pela matéria.O cidadão brasileiro mais uma vez é obrigado a engolir a pressão do oligopólio. Será mesmo a grande ppreocupação destes governantes e destas empresas, salvaguardar o meio ambiente? E, as sacolas para lixo , também serão proibidas? Quer dizer, se for vendido pode? Os sacos de lixo são produzidos com o mesmo plástico e poluem o meio ambiente da mesma forma, nos rios,nos bueiros,nas ruas etc…Acontece que no Brasil são raros os municípios que mantém recicladoras e cooperativas de seleção de lixo, veja o caso das latinhas de alumínio , as pessoas vasculham até o nosso lixo doméstico para procurar e esparramam tudo no chão atras de um complemento de renda. Rende mais a curto prazo para os políticos contratos com aterros que usinas de compostagem e reciclagem. E igualmente é para lá que vai todo o lixo inclusive os plasticos

    • Léo Rossatto disse:

      Infelizente, somos vítimas de um oligopólio mesmo. A proibição das sacolas plásticas é relevante do ponto de vista ambiental? Talvez seja, mas não pode ser algo isolado, e não pode, de forma alguma, punir o consumidor final. O gasto com as sacolas já faz parte do preço final dos produtos, e não haverá nenhuma redução de preços por conta disso.

      Tenho ouvido muitos donos de mercados dizerem que o preço das sacolas é “insignificante”. Definitivamente, não é. E os supermercados estão esfregando as mãos para ganhar mais dinheiro com isso. É mais uma faceta do que eu defendo aqui: a maioria dos problemas do Brasil, sejam na política ou no empresariado, estão ligados intimamente ao nosso traço cultural, praticado por uma parcela significativa dos brasileiros, de querer levar vantagem em tudo. É uma pena. Esse paradigma precisa ser mudado com urgência. Mas é uma tarefa complicada. E devemos nos dedicar diariamente a ela.

      Agradeço pelo comentário e pelas palavras. Um abraço!

  5. Fernanda disse:

    Condena-se as sacolas plásticas,mas como fica o isopor,as lampadas fluorecenrtes, as baterias de celular, notebooks e afins. As sacolas plasticas tambem são recicladas, como as garrafas pet, se elas são o problemas como fica as garrafas,potes etc. Elas não são as unicas a fica nos lixões, rios, mares e bueiros. Oras porque não se faz uma campanha de uso correto e reaproveitamento das mesma assim como tamtos outros materiais… de acordo com relatórios da Cetesb, as sacolas plásticas agridem infinitamente menos o meio ambiente do que os carros e motos, responsáveis pelas altas emissões de carbono e aumento do efeito estufa. Lembraram também que as sacolas plásticas compreendem 1% das despesas dos supermercados e que essa margem não vem sendo abatida do preço final dos produtos e repassada para os consumidores.

  6. Paulo Zati disse:

    Alem do que o amigo disse sobre as sacolinhas biodegradáveis que aqui em josé bonifácio, interior de são paulo, eram passadas gratuitamente ano passado, e agora se quisermos temos que pagar, e alem dos coustos das sacolas que foram proibidas (que não são descontados pros consumidores), aqui, os supermercados mantinham garotos que faziam o empacotamento das mercadorias, (é claro que o custo deles já estavam embutidos). Hoje não tem mais. Mais um custo que os supermercados deixaram de ter. Isso é uma ditadura disfarçada de democracia de boa fé impósta. (mas as ditaduras também caem)

  7. Pingback: Sobre sacolas plásticas e empresários hipócritas | Textos – por Leonardo Rossatto

  8. Monise Gunji disse:

    Repassei teu post no Facebook, excelente!

  9. Alex disse:

    Excelente texto meu caro!! Parabéns pelo blog. Sobre isso das sacolas , com certeza alguem vai lucrar muito com isso. Aqui em Belo Horizonte essa lei ja existe a algum tempo e cada estabelecimento agora oferece sacolinhas biodegradaveis ao custo fixo de 19 centavos. Preço absurdo por uma sacolinha de plastico. Estranhamente até mercados que antes da lei ofereciam somente a tal sacola biodegradavel de graça e usavam isso como marketing. Agora tambem cobram os 19 centavos. Parece que a cobrança tbm deve ser lei.
    Mas temos que adaptar e fazer limonada dos limoes que o governo nos oferece. Eu por exemplo , moro próximo ao supermercado, posso me dar ao luxo de ir la sempre e a pé, por isso desde o inicio da lei , entro no mercado e nem uso carrinho , só compro o que consigo carregar na mão, em gera somente o necessário . Assim a quantidade de superflus inuteis diminuiu consideravelmente e por isso a conta também diminuiu. Pra quando é necessário compras grandes, usamos carro ou sacola. Mas de modo geral a tal lei vem ajudando bastante na economia. Abs.

  10. Wimbledon 08 disse:

    Boa matéria, eu nem sabia o por tras disso tudo.

  11. Wilson Esprag disse:

    Já ví camelôs vendendo sacolinhas plásticas nos estacionamentos de supermercados.
    Acho que não vai ter muito efeito esta lei!

  12. Rafael Molinaro disse:

    Ótima colocação. E parece que se dissermos isso em meio a uma discussão, seremos considerados “criminosos” contra o meio ambiente. Léo, conheci sem querer seus textos por uma pesquisa no google e achei muito interessantes. Parabéns!

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