Teresina na Luta #contraoaumento – por Anderson Fernando


Comentário Inicial – por Leonardo Rossatto

Esse tipo de situação extrema está ocorrendo nesse exato momento, em Teresina-PI. Concilia inoperância das autoridades, ineficiência na prestação de serviços públicos, manipulação da mídia para atender aos interesses de uma minoria dominante, truculência e violência policial contra pessoas que tem direito à manifestação pela Constituição Federal. Reflete na prática uma política denunciada em várias oportunidades nesse blog, que busca controlar e impedir a manifestação da população, relativizando os direitos sociais conquistados com muita luta com base na propagação do medo, em alardear que a segurança é o principal valor da sociedade.

Está errado. O principal valor da sociedade é a liberdade. E o povo de Teresina, protestando contra o aumento dos ônibus, em um movimento que tomou, desde 2011, dimensões enormes, prova que a melhor solução é lutar pelos seus ideais e contra os desmandos de governos coronelistas, que, em uma era de democratização profunda da informação, ainda querem controlar não apenas a vida das pessoas, mas também as informações a que todos tem acesso. Então, desde já, venho manifestar aqui, através desse texto, meu completo apoio à causa dos estudantes de Teresina, e o repúdio às reações truculentas e agressivas da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado do Piauí, representado na soturna figura da Polícia Militar do Estado.

Isso precisa ser mostrado para o resto do país.

Teresina na luta #contraoaumento – por Anderson Fernando

Teresina/PI

O início de ano de 2012 é marcado em Teresina por mais uma onda de protestos de estudantes contra o aumento da passagem de ônibus.

Inspirados nos protesto de agosto/setembro do ano passado os estudantes já foram às ruas durante 7 dias do mês interrompendo o tráfego da principal avenida da cidade, a Frei Serafim, e como conseqüência tornando o trânsito da cidade num verdadeiro caos.

Em agosto de 2011, os teresinenses foram premiados com o aumento do valor da tarifa de ônibus de R$ 1,90 para R$ 2,10. A indignação tomou conta de todos os usuários do sistema de transporte, porque o valor que seria cobrado não era condizente com a qualidade de serviço prestado e também por Teresina não possuir até aquele momento um serviço de integração das linhas de ônibus.

Entidades organizadas foram às ruas no primeiro dia do aumento daquele ano e usando as mesmas táticas de agora (impedimento da Av. Frei Serafim) acabaram sendo duramente reprimidas pela Polícia Militar. Os episódios, ao invés de amedrontarem os estudantes, agiram como uma espécie de gasolina numa fogueira. Atiçaram toda a revolta dos estudantes da cidade que indignados se juntaram aos que lá estavam.

Depois disso, foram mais 5 dias de estudantes nas ruas. No ápice do protesto, dia 01/09/2011, 30 mil estudantes foram às ruas, e depois da negativa do prefeito de reduzir a tarifa, houve depredação e queima de ônibus na cidade. O SETUT (Sindicato das Empresas de Transporte de Teresina) retirou os ônibus de circulação sem avisar a prefeitura e milhares de pessoas tiveram que voltar pra casa a pé.

O resultado desse dia de quebra-quebra foi um recuo do Prefeito no dia seguinte. A passagem voltaria a R$ 1,90 e haveria uma avaliação da planilha que é usada para fixar o valor da passagem.

A planilha merece um espaço a parte, pois, segundo as entidades que lutavam contra o aumento, ela do jeito que estava e ainda continua estruturada repassa todos os custos, eu disse TODOS OS CUSTOS do sistema aos usuários. Além de apresentar uma série de despesas não comprovadas como (gastos com terminais, remuneração de diretores e fardamento dos funcionários). O SETUT não faz cerimônia nenhuma em afirmar isso. Eles não têm nenhum ônus com o sistema, apenas dividem entre os 13 empresários os lucros. É o melhor negócio do mundo.

Os protestos que acontecem desde o dia 02/01/2012 além de terem como alvo o aumento da tarifa, que novamente subiu para R$ 2,10, também ocorrem pela integração que começou a vigorar desde o início desse ano. Os estudantes reclamam porque ainda é necessário pagar a metade da segunda viagem, somente 40% das linhas estão integradas e o tempo de 1h para fazer as duas viagens é considerado curto. Durante todo o período de manifestações, a prefeitura se negou a negociar com os estudantes. Além disso, o Secretário de Segurança do Estado e o Comandante Geral da PM foram à televisão afirmar que usariam a força que fosse necessária pra dissipar o movimento e garantir a obstrução da Av. Frei Serafim.

Mas uma vez a ação policial serviu como combustível para a presença dos manifestantes nas ruas, mesmo no período de férias escolares. Toda vez que a polícia agrediu os manifestantes o número de pessoas no protesto aumentou. Além disso, ficou nítido o posicionamento da mídia estadual, claramente do lado da Prefeitura/SETUT que em diversos momentos tentou criminalizar o movimento, distorcendo de todas as formas as ações nos protestos e não dando voz e espaço aos manifestantes.

Até que chegamos ao dia de ontem, 10/01/2012. O dia mais triste e vergonhoso da história do Piauí. Todos os instrumentos públicos de repressão se uniram contra os manifestantes. Das Polícias civis e militares até o Ministério Público. O que aconteceu na Av. Frei Serafim segue com um relato meu, escrito poucas horas depois do ocorrido ainda afetado pela emoção do ocorrido.

“O dia 10/01/2012 foi de longe o mais triste da minha vida. Nesse dia eu senti nojo do ser humano.

Infelizmente, a ditadura está de volta a esse estado. Os instrumentos públicos de força e repressão foram usados para garantir os privilégios e vantagens de um grupo minúsculo de piauienses sobre a imensa maioria da população de Teresina. Na ditadura espancavam e matavam os estudantes nos porões da Central de Artesanato. Hoje fazem isso a céu aberto na Frei Serafim.

Hoje 600 homens se posicionaram contra um grupo de manifestantes, todos eles sentados, segurando cartazes e velas, portanto num ato pacífico. As cenas que se seguiram foram as piores da minha vida.

Nesse dia, eu vi cidadãos brasileiros tendo seu direito básico de lutar pelos seus direitos sendo esmagados e pisoteados como ratos, eu vi policiais despreparados atirando a esmo balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo na população que, indignada com a ação da polícia, xingava e atirava objetos nos policiais.

Os 600 homens da lei não sabiam e não queriam diferenciar nada nem ninguém. Quem tivesse a frente apanhava, incluindo jornalistas que faziam seu dever de registrar a atrocidade que estava sendo cometida.

Senti ódio dos homens de farda, porque apesar de estarem ali cumprindo ordem de terceiros (entenda-se o Governado Wilson Martins), eles escolheram ser o que são. Agentes repressores. Pau no cu de todos eles que prestaram concurso pra serem um bando de paus mandados, repressores e algozes do povo que paga os seus salários.

A PM do PI hoje perdeu todo o apoio e legitimidade que um dia teve. Que se fodam com salários de fome e com condições ridículas de trabalho. E que quando grevarem, q venha o exército e dessa o sarrafo no lombo deles cambada de vagabundos.

Por fim, a multidão que assistiu boquiaberta as cenas de terror não esquecerá jamais o povo pacificamente lutando pelos seus direitos, sendo massacrado como a pior das pragas.

Os políticos do Piauí mostraram mais uma vez que ainda não entenderam a força do que está acontecendo.

O POVO ACORDOU.”

Vídeo da manifestação de 10 de janeiro, com a polícia agredindo os manifestantes:

Fotos das Manifestações

2011

2012 – 10 de janeiro

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