Um país que ignora a educação


Em São Paulo, um aluno da USP é agredido por um policial militar, como conseqüência direta da imposição do governo de policiar o campus, em nome da segurança. Isso, lembrando, poucos meses depois da ocupação da reitoria da Universidade, que evocou diversas discussões por todo o país.

Em Teresina, estudantes que protestam contra o aumento nas passagens de ônibus são agredidos de forma covarde por policiais

https://poucodeprosa.wordpress.com/2012/01/11/teresina-na-luta-contraoaumento-por-anderson-fernando/

No Rio Grande do Norte, uma professora discursa na Assembléia Legislativa do Estado para expor a situação de penúria dos professores do Estado, e nada é feito:

No Ceará, em setembro do ano passado, professores foram agredidos por policiais na Assembléia Legislativa do Ceará. A coincidência é que, pelo mesmo motivo (aumento salarial), esses mesmos policiais cearenses pararam e provocaram o caos na cidade de Fortaleza, menos de três meses depois:

Infelizmente, não é novidade ver o poder público agredindo professores. A polícia paulista, além de agredir alunos, também já fez o mesmo com os professores da rede estadual:

http://noticias.terra.com.br/educacao/noticias/0,,OI4343017-EI8266,00-Confronto+entre+professores+e+policia+deixa+feridos+em+SP.html

Em Minas Gerais, no ano de 2011, os professores da rede estadual ficaram inacreditáveis 112 dias em greve. O motivo: o governo estadual se recusava a cumprir a lei federal que determinava o piso nacional para os professores em módicos R$ 1.170,00 mensais. Que, atualmente, representam menos de dois salários mínimos:

http://noticias.terra.com.br/educacao/noticias/0,,OI5381454-EI8266,00-MG+professores+encerram+greve+e+voltam+ao+trabalho+na.html

Poderiam ser citados mais diversos exemplos aqui.

A verdade é que alunos e professores são tão constantemente agredidos e tripudiados por um único motivo: a educação é profundamente desvalorizada na Brasil.

É desvalorizada por diversos motivos:

1) Infelizmente, a cultura do jeitinho está impregnada na maior parte do povo brasileiro. Fazer o convencional, estudar, galgar postos aos poucos, ser honesto e íntegro, nada disso é valorizado pela maioria. Importante é dar um “jeitinho” e vencer na vida de qualquer forma, seja ela honesta ou não. Eu falo mais sobre o assunto nessa postagem: https://poucodeprosa.wordpress.com/2011/03/16/o-jeitinho-brasileiro-e-a-tonica-do-individualismo/

2) A educação é tão desvalorizada que boa parte da opinião pública, influenciada pela grande mídia, é contrária aos profissionais da educação e aos alunos, especialmente quando esses entram em confronto com a polícia. Vivemos há muito tempo em uma sociedade controlada pelo medo. O brasileiro aceitou a ditadura com medo da ameaça comunista. O cidadão brasileiro aceita ceder suas liberdades individuais em nome de uma suposta segurança, e isso é errado. Estudantes e professores lutam pelo conhecimento, lutam pela liberdade de pensamento, e já sofreram muito na história de nosso país para desfrutarmos, hoje, de um estado democrático. Merecem ser ouvidos e valorizados. Já falei sobre essa dinâmica de imposição do medo em outra oportunidade: https://poucodeprosa.wordpress.com/2011/11/28/o-medo/

3) Para boa parte dos políticos não interessa a defesa da educação. Boa parte de nossa classe política só é eleita e reeleita indefinidamente devido á ignorância do povo, que é manipulado. É muito mais difícil manipular pessoas quando essas adquirem conhecimento, são educadas, passam a analisar as coisas adequadamente e a emitir opiniões lapidadas pelos senso crítico. E isso independente da ideologia que a pessoa defende. Investir em educação só vai diminuir a influência de políticos picaretas que só se eternizam com base em um patrimonialismo de coronéis, apoiados por uma mídia que se divide entre o conservadorismo oposicionista e o peleguismo governista.

4) É desvalorizada porque não dá voto. Não dá resultados imediatos, visando o ciclo eleitoral de quatro anos. Educação é formação, e uma formação adequada leva uma década e meia. Um trabalho de uma década e meia não aparece imediatamente. E boa parte do alvo dos programas educacionais é composto por crianças. Que, por mais que sejam importantes, não votam. E, portanto, não importam para essa mesma classe de políticos que agride professores e alunos em protestos.

5) É desvalorizada porque custa caro. Porque o investimento que você precisa fazer para educar e desenvolver o país através da educação, em 20 ou 30 anos, você pode usar para fazer obras faraônicas em 4 ou 5 anos. Obras faraônicas são convenientes por diversos motivos: rendem dividendos eleitorais, rendem possibilidades de desvios de verbas para campanhas políticas ou utilização própria, rendem acordos com prefeitos e governadores, e são mais fáceis de executar, afinal, não precisam de nenhum planejamento. A educação não é assim. É um ciclo contínuo que precisa de planejamento, investimento contínuo e priorização, como instrumento de inclusão social.

6) É desvalorizada porque a educação pública pífia eterniza o ciclo de dominação de uma elite econômica que pode pagar por escolas particulares. As escolas pagas, que em tese são de melhor qualidade, são máquinas de ganhar dinheiro, com ensino medíocre. Mas ainda assim superior ao ensino das escolas públicas brasileiras. E que preparam o aluno para roubar justamente as vagas dos estudantes de escolas públicas em Universidades Públicas, reconhecidamente melhores que a grande maioria das Universidades Particulares. Que, em uma ironia trágica, são frequentadas, em sua maioria, por alunos oriundos de escolas públicas, obrigados a trabalhar para pagar os seus estudos.

7) Educação é o principal elemento de mobilidade social existente. As classes superiores da sociedade utilizam a restrição à educação de qualidade como maneira de impedir a ascensão social de uma maioria, que não tem acesso à informação e à educação formal de maneira adequada. Hoje em dia, a democratização do acesso à informação e os programas de inclusão social têm tornado essa mobilidade social algo mais viável. E, partindo do pressuposto de que existe uma reação para toda ação, o conservadorismo desses grupos, antes latente, hoje se manifesta de forma aberta, cada vez mais sem ressalvas. Infelizmente, não há mudança de paradigmas sem conflitos.

Conclusão

Existem outros diversos motivos relevantes que poderiam ser colocados aqui. Mas a realidade é que as agressões aos que ensinam ou estudam não vão parar. Boa parte dos políticos, a polícia e uma parcela da população não estão nem um pouco interessados na universalização efetiva da educação, com qualidade desde o Ensino Básico. E farão o possível para impedir que isso aconteça.

Agressões são apenas reflexos de um desejo latente de imobilidade social. A educação é o grande catalisador do desenvolvimento de um país. E momentos de desenvolvimento são caracterizados, via de regra, por grande mobilidade social. Especialmente no Brasil, com a ascensão de uma nova classe média que incomoda a classe média tradicional (já abordei esse assunto aqui: https://poucodeprosa.wordpress.com/2011/11/09/o-preconceito-a-igualdade/)

Então, antes de apoiar um policial que agride um aluno, um governante que paga salários miseráveis aos professores ou pessoas que dizem que “esses vagabundos têm que apanhar mesmo”, pense duas vezes. Você provavelmente está apenas reproduzindo uma lógica de dominação da qual você, como cidadão brasileiro, é apenas vítima.

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7 respostas para Um país que ignora a educação

  1. Pingback: Educação de caráter | O Enciclopedista

  2. Mônica disse:

    O texto resume bem a realidade. Eu fui professora por anos. Sou bem formada e informada. Mas depois de 12 anos lecionando desisti de ser desrespeitada pelos alunos, pelos pais, pelo governo e pela população em geral. Me dei férias de tanto desrespeito. Voltarei a lecionar, mas nesse momento só queria fugir da triste estatística de professores afastados de seu trabalho por depressão e outras doenças causadas pelo estresse e desrespeito.

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  7. Welinton disse:

    A estrutura da escola é do século XIX, os professores são do século XX e os alunos do século XXI.

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