Sobre sacolas plásticas e empresários hipócritas


A questão da proibição das sacolas plásticas em supermercados paulistas suscitou alguns protestos esparsos a partir de sua aplicação, em 25 de janeiro. Eu já havia falado sobre o assunto e retorno, para esclarecer a questão sob outra ótica.

Ninguém, em sã consciência, é contra a proibição do uso das sacolinhas plásticas. Elas realmente prejudicam o meio ambiente. É o principal argumento das redes de supermercados para alardear a proibição do uso de sacolas plásticas. “Preservaremos o meio ambiente”. Mas ninguém parou para fazer a principal pergunta referente ao tema: no que o fato dos supermercados não fornecerem mais sacolas aos consumidores vai melhorar o meio ambiente?

A resposta, sob todos os aspectos, é NADA. Ou quase nada.

1) Os plásticos utilizados em sacolas são uma parcela minúscula do plástico utilizado em nossa sociedade. Plásticos são utilizados na fabricação de carros, utensílios domésticos, garrafas PET, eletrodomésticos, e para infinitas outras utilidades. Isopor, por exemplo, também é uma espécie de plástico. Então, se a sociedade quer “lutar contra o plástico”, não pode ser para defender um interesse específico.

2) As sacolas plásticas serão substituídas, em nossas residências, por… sacos de lixo. De plástico. essa é a utilidade da maioria das sacolas plásticas, hoje em dia. O que faz cair por terra o argumento de que a fabricação de sacolas não terá substituição. Lembrando que é utilizado, em média, 3 vezes mais plástico para fazer um saco de lixo do que para fazer uma sacola de tamanho semelhante.

3) Existe a opção das sacolas biodegradáveis, mas ela sequer foi aventada no Brasil. Isso prova que o interesse das redes de supermercados não é no “meio ambiente”. É apenas no lucro.

O grande problema da cessação de fornecimento de sacolas plásticas para o cidadão é a mudança de paradigma, em que o único prejudicado é o consumidor. Ou seja: até 24 de janeiro os supermercados eram responsáveis por embalar as compras dos consumidores, fornecendo embalagens e funcionários para isso. A partir do dia 25, deixaram de cumprir essa função usando a retórica barata do “meio ambiente” como justificativa, sem nenhum ressarcimento ou opção aos clientes.

O ônus de providenciar embalagens passou a ser do consumidor. Seja comprando sacolas retornáveis, feitas muitas vezes de… plástico, seja trazendo outras embalagens. Esse é o grande erro do procedimento, e é inadmissível órgãos de defesa do consumidor aceitarem isso sem contrapartidas claras e suficientes. Também é ilusório crer que preços irão baixar apenas pela “livre concorrência”. As margens de lucro aumentarão às custas do consumidor.

As estimativas de aumento do lucro dos supermercados variam muito uma vez que as rees não revelam o custo das sacolinhas. Variam entre 450 milhões e 4 bilhões de reais por ano. O que, em qualquer caso, é um absurdo. Na estimativa mais conservadora, daria para construir um Itaquerão a cada dois anos. Na mais ousada,  daria para construir uma linha de Metrô por ano. Ou terminar o Rodoanel em menos de dois anos. Tudo com o lucro adicional que os supermercados terão com o fim das sacolas plásticas.

E sobre o uso de ecobags: não, obrigado.

Manipulações não são novidade

As grandes empresas sempre manipularam produtos para maximizar seus lucros, e boa parte das pessoas sabem disso. A questão das sacolinhas atinge diretamente os donos de supermercados, mas as empresas que fornecem produtos de consumo diário também são vilãs e desfavorecem o consumidor descaradamente. Cito dois exemplos:

1) Até algum tempo atrás, rolos de papel higiênico tinham 40 metros. Era um padrão. Então, “misteriosamente”, eles passaram a ter 30 metros. Ou, em versão pelo dobro de preço, 60 metros. Pera aí, e o preço não baixou quando foram retirados DEZ METROS de papel de cada rolo? Não, nem um centavo. Claro embuste ao consumidor.

2) Biscoitos recheados, até algum tempo atrás, tinham como “padrão” embalagens de 200 gramas. Em procedimento semelhante ao papéis higiênicos, “sumiram” com dois ou três biscoitos do pacote, fazendo com que elas tivessem 160 ou 165 gramas.

No caso do Biscoito Passatempo, da Nestlé, é ainda pior: além dessa diminuição inicial, fizeram uma nova diminuição. O pacote que tinha 165 gramas agora tem 140 gramas. Para o público não estranhar o “achatamento” do pacote, fizeram algo ainda mais assustador: diminuíram o biscoito. O consumidor que não está habituado não vai perceber.

E tudo, obviamente, sem diminuir o preço em um centavo. E sem nenhuma manifestação de qualquer órgão de defesa do consumidor.

Poderia citar mais muitos exemplos, mas esses dois, aliados à questão das sacolinhas, bastam, para concluirmos o quanto o empresário brasileiro é hipócrita, o quanto quer burlar as leis, o quanto quer levar vantagem em tudo sem ninguém perceber. Afinal, o Brasil é o país em que as pessoas preferem dar jeitinhos ilegais do que cumprir a lei. Há uma repulsa pela política, incentivada por interesses escusos. E essa repulsa, infelizmente, nos torna, enquanto cidadãos, cada vez mais vulneráveis em relação aos nossos direitos, como mostrado nos exemplos acima.

No final, proibir sacolinhas foi só mais uma forma de ignorar os direitos dos cidadãos. Afinal, para quem é um otário político, “essa história de direitos é uma tremenda chatice”.

Hoje alguns brasileiros perderam suas sacolinhas. Se continuarem com a mesma atitude hipócrita, a tendência, daqui algum tempo, é que percam sua liberdade. Basta continuar compactuando com os empresários de diversos setores da economia. Basta continuar senso hipócrita.

O brasileiro só está pagando por sua postura elitista, conservadora e de desrespeito às instituições. Nesse contexto, ter que pagar pelas sacolinhas é um castigo merecido. Parabéns a todos os envolvidos.

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3 respostas para Sobre sacolas plásticas e empresários hipócritas

  1. Pingback: Quem realmente se beneficia com o fim das sacolas plásticas nos supermercados ? | José Maria Granado

  2. Arnaldo Borgia disse:

    Parabéns pelo texto ! Exprime exatamento o meu pensamento.
    Infelizmente os grandes empresários do ramo supermercadista estão enganando a população, acobertados por políticos corruptos.
    Vamos então solicitar a extinção da ONU , Green Peace, etc , pois o Carrefour, Walmart e o Extra vão salvar o planeta.

  3. Pingback: Sacolas voltarão a ser distribuídas em supermercados | Textos – por Leonardo Rossatto

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