Análise de uma notícia qualquer referente ao Pinheirinho


Bem, peguei uma notícia referente à operação policial no Pinheirinho, sem entrar no mérito da justiça da desapropriação, para analisar algumas nuances reveladoras do procedimento da polícia e do governo no caso.

A notícia é essa:

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/policiais-denunciados-por-abuso-no-pinheirinho-nao-serao-afastad/n1597613765875.html

Vamos analisar diversas passagens do texto. Para começar, a primeira frase:

“A Polícia Militar disse na noite desta sexta-feira (3) não acreditar que policiais tenham cometido abuso sexual e violência física contra moradores do Pinheirinho

Bem, é uma novidade pra mim policiais poderem fazer julgamentos prévios das pessoas. Mas essa é uma postura reveladora. O objetivo da polícia é abafar o caso e não deixar o mesmo repercutir na imprensa, de forma a continuar legitimando a operação abusiva feita no Pinheirinho dia 22.

“Nós acreditamos que isso não tenha acontecido. Por isso, os policiais não foram afastados do serviço”

Mais uma prova do “julgamento prévio” dos policiais. Em nenhum outro lugar do mundo policiais acusados formalmente de abuso sexual prosseguem normalmente com suas atividades. Apenas no Estado de São Paulo, meramente pelo fato de que o comandante “não acredita que isso tenha acontecido”.

Segundo o coronel, a ação policial alvo de denúncia ocorreu no Campo dos Alemães, uma favela próxima ao terreno, depois de uma denúncia de tráfico de drogas.

Chega a ser absurda a alegação colocada de forma indireta nessa frase, de que “se não foi no Pinheirinho, não tem porque investigar o abuso sexual”, enfatizada por outra reportagem. Parte do princípio inaceitável de que a imprensa DEVE agir de forma seletiva em relação aos policiais, aliviando a barra deles sempre que possível.

“O que nos surpreende é que no momento que essas pessoas foram levadas para a delegacia, nenhum dos presos, nem a advogada deles, nem a mãe do menor, relatou algum tipo de abuso”

A dúvida é se eles não relataram ou se não tiveram a oportunidade de relatar. A polícia sabe muito bem abafar seus próprios crimes. Assim como sabe inventar acusações para tirar a credibilidade de quem acusa a polícia junto á sociedade. Bem fast-food mesmo: “Hmmm, vocês estupraram, pô? Planta umas drogas e umas armas lá na cena do crime e fala que foi tráfico, ninguém vai defender esses CRIMINOSOS VAGABUNDOS aí”.

Ainda de acordo com o comandante, a ação ocorreu às 3h30 na madrugada do dia 23 de janeiro e o boletim de ocorrência foi registrado meia hora depois, às 4h. Já a denúncia feita ao Ministério Público diz que os abusos ocorreram por quatro horas.

Opa, manipular horário de boletim de ocorrência e de ação policial pra livrar a cara de colega é a coisa mais fácil que há.

A corregedoria da PM, no entanto, vai averiguar a denúncia e “qualquer falha de conduta será punida”

Ah, vá? Sério? Agora conta a novidade. Deve ser uma frase decorada em todos os abusos policiais já ocorridos no estado de São Paulo. Engraçado é que a população nunca sabe os resultados dessas “averiguações” aí.

“Nós não temos nenhuma dúvida de que alguma coisa muito estranha está acontecendo. Nós estranhamos o dado do senador Suplicy ter trazido a denúncia depois de tanto tempo do fato ter acontecido”

Outro procedimento padrão em relação aos abusos da polícia, em todos os casos: politizar o assunto. Se há a acusação de que houve violação de direitos humanos em Pinheirinho, é “mentira do PT”. Se quem diz que houve violação é a relatora da ONU para a habitação, militantes travestidos de jornalistas dizem em tom jocoso que ela é petista. A estratégia é uma só: tente desmoralizar toda e qualquer acusação, por mais grave que seja, associando-a ao seu inimigo político. E, claro, defenda que não houve invasão, a ocupação foi pacífica, os feridos são cenográficos (tudo militante do PT que se auto-atirou) e os “invasores desalojados” estão em ótima situação, mesmo que os fatos digam o contrário.

Camilo condenou o fato da PM ser “criticada e atacada” por moradores de São Paulo. “Repudiamos veementemente a forma como uma instituição íntegra ser alvo de denúncias caluniosas”.

Próximo passo: se faça de vítima. A grande forma de ocultar qualquer violação é tentando inverter o ônus, se colocando no papel de vítima, se dizendo perseguido. É meio estranho uma corporação responsável por um em cada cinco assassinatos cometidos na cidade de São Paulo (fora os ocultados) se sentir perseguida. Não há denúncias caluniosas, há uma reação natural de medo e de repulsa da população às atitudes truculentas recentes da Polícia Militar de São Paulo. Especialmente após a truculência demonstrada nas últimas ações.

Questionado se a diretriz de trabalhos da polícia mudou, Camilo afirmou que ela continua a mesma, “sempre com planejamento e respeito à vida”.

“Sempre com planejamento e respeito à vida”. PLANEJAMENTO. RESPEITO À VIDA. Se um dia sair do Comando da PM, já pode ir trabalhar no Zorra Total esse daí. Um quinto dos assassinatos de SP. Com PLANEJAMENTO. Com RESPEITO À VIDA. Estou cuspindo bile aqui.

O comandante disse ainda que nunca a Polícia Militar recebeu tanto apoio do governo do Estado.

NUNCA RECEBEU TANTO APOIO. Só prova a tese de que estamos, realmente, em um Estado cada vez menos democrático que desrespeita todos os direitos elementares do cidadão, definidos pela Constituição de 1988. Apoio do Estado, no caso, é um incentivo à truculência, em uma organização que já tem no poder de coerção o seu modus operandi. A Polícia Militar não está errada em si mesma. A forte noção de disciplina e ordem, histórica na corporação, ganha apenas um incentivo extra do governo estadual. Que prefere uma sociedade “sob controle” do que uma sociedade livre. Estados não devem apoiar policiais. Policiais não agem por conta própria. Policiais são um instrumento do Estado. Não cabe uma ação independente que tenha APOIO. Cabe única e exclusivamente obedecerem os ditames do governo estadual, fazendo o que o governo manda.

Foi o que aconteceu em Pinheirinho. E na Cracolândia. E nas 164 reintegrações de posse realizadas pela Polícia Militar paulista no ano de 2011. Não com o apoio, mas com o ordenamento do governo. E a conivência com a truculência. Em um Estado cada vez mais autoritário e cada vez mais repleto de “cidadãos de bem”, que negociam sua liberdade por um “sentimento de ordem”. Cidadãos que sustentam governos autoritários e têm como grande demérito não saber valorizar a vida do outro. Não merecem ser chamados cidadãos.

 

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