São Paulo nas mãos de Deus


Em 2002, uma das diversas candidaturas nanicas para governador do Estado chamou a atenção por conta de seu slogan inusitado: “São Paulo nas mãos de Deus” era o nome da chapa encabeçada pelo candidato Carlos Apolinário, do PGT, hoje vereador na cidade de São Paulo pelo DEM.

Apesar do slogan ser um clichê entre evangélicos em geral (principalmente neopentecostais), foi nítida a estranheza causada ao restante da sociedade, que via até um toque de humor na frase. Afinal, para a maior parte das pessoas, a noção é a de que você “entrega pra Deus” alguma coisa quando não vê mais nenhum outro jeito de solucionar.

No link abaixo, uma descrição da chapa:

http://noticias.terra.com.br/eleicoes/est/sp/carlosapolinario.html

Carlos Apolinário também deu entrevistas na época, especialmente para publicações do meio evangélico. Quatro anos depois, já filiado ao PDT (partido do qual saiu depois, para ingressar nas fileiras do DEM), ao ser entrevistado por uma dessas publicações, assumiu posições polêmicas, especialmente em relação à homossexualidade (mas nada comparado com o preconceito escancarado do Bolsonaro, por exemplo):

foi para fazer uma discussão em relação aos gays, eu não sou homofóbico, no lugar onde corto cabelo o rapaz é gay inclusive o rapaz que fez a minha maquiagem hoje. Deus nos deu o livre arbítrio, não tenho problema nenhum. O que não concordo é a forma de ação do homossexual, não acho correto os nas passeatas os seios ou traseiros de fora. Sou casado há 34 anos e não vou dar beijo de língua em minha mulher numa piscina coletiva então não acho certo ver dois bigodudos dando beijo. Respeito os gays, mas acredito que todos tem que ter um comportamento.

Dizer que é homossexual não é nenhum problema, se eutivesse um filho homossexual eu o amaria, ou filha, eu brigaria se alguém falasse dela. Mas não precisa se vangloriar dizendo sou hétero ou dizendo sou olha sou gay. Não concordo em fazer a apologia.

Também falou, na época, sem nenhuma ressalva, que Alckmin realmente era membro da Opus Dei:

Quando fui presidente da Assembléia Legislativa sofri um preconceito muito grande, o Alckmin é católico da Opus Dei e ninguém teve a preocupação em dizer isso.

Dez anos depois daquela eleição, vemos que a ironia daquele slogan tem alguma ponta de razão. É quase profético, eu diria. Seria um slogan muito eficiente para a eleição municipal esse ano. Imaginem a cracolândia, por exemplo. Você vê aquela situação de desespero, o local repleto de pessoas viciadas tratadas com “dor e sofrimento” pelo Estado e pela Prefeitura. Óbvio que você vai falar “ah, entrega nas mãos de Deus”. E ia ganhar o voto de muita gente, que te consideraria “temente à Deus”

Afinal, estamos em um país em que a Dilma quase perdeu a eleição, mesmo com o Lula tendo mais de 80% de aprovação em seu governo, porque alguns padres e pastores diziam que ela ia “institucionalizar a iniquidade, o aborto, o casamento gay, blablabla”. E o perfil do religioso brasileiro está cada vez mais tacanho e conservador, fruto da promessa de “vitória fácil” das igrejas neopentecostais e da guinada neoconservadora de setores da Igreja Católica no Brasil à partir da eleição do Papa Bento XVI.

Bom mesmo era o tempo em que os católicos faziam as Pastorais, como meio de promover justiça social. E os evangélicos abriam escolas e investiam na educação de analfabetos e semi-analfabetos.

Agora, com a falta de consciência crítica que dominou grande parte dos católicos e evangélicos, só resta “entregar São Paulo nas mãos de Deus” mesmo. Que nem Carlos Apolinário fez em 2002.

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2 respostas para São Paulo nas mãos de Deus

  1. Denise Stucchi disse:

    homossexualidade (e não, homossexualismo…)

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