Do Brasil à Escócia. Passando pela Espanha.


Hoje, uma entrevista do Citadini ao Menon, publicada na Trivela, é o mote para a texto do dia.

Tirando de lado todas as babaquices exageradas do Citadini, que é um dirigente pífio e atualmente tem como única função na vida cornetar os outros, fica a constatação de que, “da maneira atual, o Brasil só terá Corinthians e Flamengo de clubes grandes em breve”.

Tudo isso passa por algo que foi feito ano passado. Andrés Sanchez, então presidente do Corinthians, juntamente com Patrícia Amorim, presidente do Flamengo, receberam um “afago” de R$ 20 milhões, para seus clubes, para convencer os demais a um motim: sair do Clube dos 13, que controlava as negociações dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, em nome da negociação individual com a Rede Globo.

Ronaldinho e Adriano, contratações milionárias de Flamengo e Corinthians

A situação que se configurava era a seguinte: havia a previsão de uma licitação, relativa aos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro para os anos de 2012 a 2014. A Rede Globo, sentindo-se ameaçada por uma provável proposta maior da Record, que prometia pagar até 1 bilhão por ano aos clubes pela transmissão so Brasileirão.

Obviamente, a licitação, por ser um instrumento legal, não dava margem para “jeitinhos” e “favorecimentos”. Cabe recordar que, desde 2010, o Clube dos 13 mantinha oposição ao presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que mantém relações umbilicais com a Rede Globo. Portanto, o motim de Andrés Sanchez e Patrícia Amorim foi cuidadosamente estudado, para esvaziar o Clube dos 13, que tinha como principal prerrogativa a negociação coletiva dos contratos de transmissão do Campeonato Brasileiro.

O circo estava armado. Os lados eram:

1 – Rede Globo, CBF, Corinthians e Flamengo.

2 – Clube dos 13, Record/Rede TV!, e alguns outros clubes.

A licitação chegou a ser realizada. Esvaziada, porém, não teve validade alguma, mesmo com o fato de que o Clube dos 13 era fiador de muitos clubes, endividados com a entidade. A Rede TV! venceu, oferecendo R$ 524 milhões/ano aos clubes. Foi a única proposta.

O fato é que a Rede Globo conseguiu dobrar os clubes e negociar individualmente com eles, garantindo, na base do golpismo, os direitos de transmissão até 2015 (e não mais até 2014).  E, também, de forma arbitrária, atribuiu que Corinthians e Flamengo teriam mais dinheiro que os demais clubes.

A negociação individual é a mais prejudicial que pode haver. Aos clubes em geral, à competitividade e ao público. Só interessa às emissoras de TV (e a quem recebe propina delas). exemplo clássico é o da Espanha, onde a divisão está em um segundo momento: oito anos após o estabelecimento das negociações individuais, todos os clubes, exceto Barcelona e Real Madrid, sofrem com problemas financeiros sérios. Também, pudera: os dois clubes, juntos, recebem metade do valor destinado às cotas de TV (oscila entre 140 e 170milhões de euros para cada). Enquanto isso, o terceiro clube da lista, o igualmente tradicional Atlético de Madrid, recebe menos de um terço dos dois privilegiados:42 milhões de euros. A conclusão: um campeonato pouco competitivo, sob protestos, em que os líderes ficam dezenas de pontos à frente do terceiro colocado. Além disso, no geral, os clubes ganham menos com a TV do que se negociassem coletivamente.

O terceiro momento é o escocês. A falta de competitividade não prejudica apenas o futebol dos clubes médios e pequenos do país: prejudicam o país como um todo. Nem mesmo a histórica rivadidade entre Celtic Glasgow e Glasgow Rangers sustenta mais o nível do futebol no país. E os times se enfraquecem financeiramente, a ponto de entrarem em administração judicial, como ocorreu com o Glasgow Rangers essa semana. Uma boa medida da decadência do futebol escocês é o Ranking de Ligas Nacionais da UEFA. Em 2007 a Escócia era a 10ª liga da Europa, atualmente é a 18ª, e no ano que vem deve ser a 26ª, se nada mudar. Tudo por não haver competitividade entre times que não sejam os dois principais do país.

O principal efeito dessa decadência é financeiro. O Glasgow Rangers entrou em administração porque suas receitas diminuíram de forma abrupta, principalmente quando tratamos de competições européias. Maus desempenhos trazem menos dinheiro ao clube, que por sua vez é obrigado a investir menos e piora ainda mais seus desempenhos europeus. O Glasgow Rangers foi eliminado da preliminar da Champions League, esse ano, pelo sueco Malmöe, de orçamento inferior. E depois foi eliminado da Liga Europa por um time de orçamento ainda menor: o Maribor, da Eslovênia. É um processo de apequenamento tão evidente que os dois grandes clubes do país, Celtic e Rangers, cogitam com frequência cada vez maior a hipótese de migrar para o Campeonato Inglês. E argumentam, em alguns cenários, que poderiam fazer isso até na Championship League (2ª divisão inglesa),pois até ela seria mais rentável do que o Campeonato Escocês.

Conclusão

O erro das negociações individuais, que não são reguladas pelo desempenho nas competições e comprometem irremediavelmente o futebol, ainda está em estágio inicial no Brasil. Espanha e Escócia tem provado que a negociação individual é um erro crasso, e que só beneficia, a longo prazo, uma pessoa: quem oferece os contratos.

Os contratos precisam ser renegociados na primeira oportunidade. Coletivamente. A dissidência de Corinthians e Flamengo foi tão uniproposital que, assim que os contratos com a Globo foram definidos, o Clube dos 13 ressuscitou. No entanto, os contratos individuais estão aí, são sigilosos, e clubes ganham apenas de acordo com os interesses da TV. Deveriam ser feitos contratos coletivos, com base no público assinante e no desempenho dos clubes nas competições, como ocorre na Champions League, na Liga Europa, na Bundesliga e na Premier League, reconhecidamente quatro dos campeonatos mais lucrativos do mundo (com ressalvas à Liga Europa).

Senão, corremos o risco de ter, de fato, um futebol polarizado entre dois times nos próximos anos. Para, depois, caírmos em um limbo de decadência quase irreversível, como na Escócia.

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