O BBB mudou a sociedade. Para pior.


Não sou fã de Big Brother, e nem estou acompanhando a edição atual. Mas, antes que você ache que esse é mais um texto clichê metendo o pau no Big Brother por não respeitar os “valores da família brasileira”, esqueça. Porque esse texto pode ser qualquer coisa, menos isso.

A maioria deve saber que a ideia do Big Brother nasceu de algo muito mais sério e inspirado: o romance 1984, escrito poe Arthur Blair (sim, George Orwell é um pseudônimo) em 1948 e publicado em 1949. Nele, Blair tratava de uma sociedade em que todos eram vigiados pelo Estado, o “grande irmão” ou “o olho de tudo vê”, que sabia tudo o que eles faziam. E é um manifesto contra toda e qualquer forma de totalitarismo.

1984, de George Orwell

Mas, história à parte, o fato é que a Endemol pegou a ideia de vigiar cada passo das pessoas e usou para colocar pessoas numa casa, confinadas, observando cada passo delas e exercitando o voyeurismo da população. E ganhou uma fábula em dinheiro vendendo esse formato de programa de televisão para diversos países.

É conveniente lembrar que, antes da popularização do formato do Big Brother, o cinema abordou o tema. O Show de Truman mostrava a história de Truman Burbank, um sujeito aparentemente normal, interpretado por Jim Carrey, que tinha sua vida filmada 24 horas por dia, desde seu nascimento. Mas, no filme, o ator compartilhava, ainda que de forma inconsciente, do mesmo desejo de liberdade que George Orwell expunha em 1948.

O Big Brother, por sua vez, foi a redução do conceito ao entretenimento puro e simples. Go away, é o normal de nossa indústria cultural. E não quero falar sobre isso. Mas o assunto desse texto é um único aspecto dos BBB’s, que impacta diretamente a sociedade e a cultura: as votações.

Sim, porque a votação no Big Brother rompe um paradigma. Semanalmente, você decide quem você rejeita. Apenas na última votação, você decide quem efetivamente você quer. E isso é negativo. Por alguns motivos.

1) A popularização do “voto negativo” mudou o paradigma eleitoral brasileiro. Existia a questão da rejeição eleitoral antes do Big Brother aparecer no Brasil? Sim, existia. Mas, com a popularização da “cultura do voto negativo”, proporcionada pelo Big Brother, a rejeição passou a ser fator absolutamente determinante nas eleições, e o eleitor passou a se utilizar de uma nova modalidade de voto: o voto estratégico punitivo. Isso pode ser visto no primeiro turno das eleições de 2006 e de 2010.

No segundo turno, no entanto, a situação muda. Vence sempre quem tem a menor rejeição. E, por isso, o nível das campanhas eleitorais no Brasil tem sido tão baixas. Para que o eleitor não se convença a votar em determinado candidato. Mas para que ele se convença de que não pode votar no outro. Esse fenômeno, o voto negativo, foi potencializado pelo modelo de votação do Big Brother, que familiarizou o brasileiro médio com tal iniciativa.

2) O voto negativo valoriza a mediocridade. Porque não fica quem é melhor, mas quem é menos odiado. Pessoas ótimas podem causar inveja, rancor, e serem odiados pela maioria. Principalmente quando existem, do outro lado, pessoas dispostas a adotarem o papel de vítimas.

Tal fenômeno ficou claro, no BBB, quando tínhamos, algumas edições atrás (não me recordo exatamente em qual, ajudem), votações triplas para eliminação de candidatos no BBB. A votação tripla negativa escancara a mediocridade como valor positivo para o brasileiro. Fica quem arrumar menos inimigos. E sabe-se que, para não arrumar inimigos nessa vida, as pessoas precisam ser das duas uma:  irrelevantes, sem graça, dessas que não fazem nenhuma diferença na vida dos outros; ou falsas, duas caras, dessas que agradam aos outros na frente para falar mal dos outros por trás. Nenhum desses dois modelos de caráter é aceitável. Mas são esses dois modelos que a mídia valoriza, através do advento da votação negativa.

Conclusão

O Big Brother é um experimento social. É uma reprodução, em seu formato original, da nossa sociedade, em pequena escala. Obviamente essa reprodução foi completamente deturpada, afinal, nossa sociedade não é formada apenas por modelos, atrizes, atores e brutamontes de academia (além do homossexual que flerta com a terceira idade que há em toda edição do programa). Mas o fato é que, como experimento social, coisas que são verificadas na casa afetam a sociedade, como traços culturais.

É um jogo de duas mãos. Assim como o Big Brother muda, para manter sua audiência, passando a mostrar valores que uma parte da sociedade admira (e isso é expresso por audiência, acessos em sites e votos), e também muda a maneira de pensar da população, tendo em vista que o alcance do programa, exibido na maior rede de televisão do país, é imenso.

Nesse contexto, a valorização da mediocridade e a política de falar mal do outro para aumentar sua rejeição têm sido os dois principais legados negativos do Big Brother à sociedade brasileira. Mais do que qualquer outro aspecto. E não é apenas uma questão de “dominação capitalista” ou coisa do tipo: a valorização da mediocridade vai até contra a meritocracia e a competitividade propagandeadas pelos defensores do livre mercado. Acaba sendo uma forma de dominação, inconsciente e estúpida, que não faz nenhum sentido para ninguém. Apenas para quem quer manter o status quo atual.

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