Quem mata, esquece. Quem morre não pode ser esquecido.


Nesses dias de reações acaloradas de setores militares contra o governo Dilma e o ministro Celso Amorim, especialmente de militares da reserva, fica a frase de João Figueiredo, último presidente militar do país, proferida em entrevista veiculada na TV Manchete ao repórter Alexandre Garcia (hoje na Globo, defendendo claramente a volta da ditadura):

 “Bom, o povo, o povão que poderá me escutar, será talvez os 70% de brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então desejo que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom governo para eles. E que me esqueçam”.

João Figueiredo, militar e gremista (Fonte: Zero Hora)

E QUE ME ESQUEÇAM. Foi a última manifestação de um presidente militar, dos “anos de chumbo” brasileiros.

A carga simbólica do “E QUE ME ESQUEÇAM” é nítida. Figueiredo não estava falando apenas acerca dele. Estava falando acerca dos militares em geral. Tendo em vista que o regime estava sendo finalizado ali, em um processo de redemocratização pacífico demais, a instrução de Figueiredo e dos militares, quase em tom de ameaça, era que tudo o que eles fizeram fosse esquecido.

Sim, porque o governo militar não foi apenas um desastre humanitário (e temos que dexar claro, ao contrário do que querem os militares, que foi um desastre). Foi também um desastre econômico, que largou o Brasil com o maior nível de endividamento e de inflação de sua história, às custas de projetos faraônicos e mal planejados como Itaipu (que destruiu um dos maiores patrimônios naturais da humanidade, o Parque Nacional das Sete Quedas) e a Rodovia Transamazônica (que, além de destruir trechos importantes de floresta, nunca chegou a ser concluída).

Por incrível que pareça, passamos 26 anos obedecendo cegamente à ordem do ex-presidente João Figueiredo. Mesmo após seu falecimento, em 1999. Nem durante o governo Lula essa realidade mudou. E a estratégia, entre governos e militares, era a seguinte: “não encham o nosso saco que não incomodamos vocês”. Sempre funcionou.

Até 2011, todos os Ministros da Defesa (ou das forças armadas) posteriores à redemocratização tinham sido militares. A situação mudou após a demissão patética do ex-ministro Nelson Jobim, após o mesmo afrontar por diversas vezes a Presidente Dilma Rousseff.

O ministro foi substituído pelo ex-chanceler Celso Amorim, um dos personagens mais influentes do governo Lula. E civil. A mudança, obviamente, foi mal recebida nos meios militares. E a crise só amentou recentemente, com a instituição da Comissão da Verdade e com a ordem no Ministério da Defesa de investigar os crimes militares ocorridos durante a ditadura.

Um dos maiores crimes cometidos por João Figueiredo, que foi a versão prática do “E QUE NOS ESQUEÇAM”, foi a Lei da Anistia. Ao mesmo tempo que anistiava presos políticos, a lei anistiava notórios torturadores. Gente que, embora já tivesse falecido, em alguns casos, torturou muita gente, por muito tempo. Filinto Müller é um dos exemplos mais notórios, por ter sido torturador tanto no governo Vargas quanto no governo militar.

É muito bem vinda a disposição de investigar os crimes da ditadura. E, se há resistência de militares da reserva, é sinal que, de fato, existem muitos crimes para serem investigados. A Lei da Anistia foi uma lei benéfica a curto prazo, enquanto se mudava o regime político.

Mas passamos muito tempo esquecendo. Passamos muito tempo escondendo as tensões e os traumas interiores do nosso país em nome de mudanças pacíficas. É hora de relembrar o passado. De rever a história e punir os que cometeram crimes contra a humanidade. Como já ocorreu na Argentina, no Uruguai e, em menor escala, no Chile e no Paraguai. Só o Brasil não abriu os arquivos da ditadura ainda. Só o Brasil não venceu a resistência dos setores conservadores da sociedade.

Nesse momento de recrudescimento do conservadorismo, muitas vezes maquiado por um obscurantismo religioso ou por um anseio pela suposta “percepção de ordem” que se via na época da ditadura, convém lembrar quem eram e o que fizeram os militares nas décadas de 60 e 70. Convém lembrar que “Direitos Humanos” não servem para “proteger bandido”, como alardeiam alguns, mas para garantir que atrocidades do Estado contra o cidadão, como as ocorridas durante o governo militar, não voltem a ocorrer.

Já obedecemos a fala de Figueiredo por tempo demais. Se o Brasil quer se consolidar como democracia, precisa enfrentar os traumas do período em que fomos privados dela. Só assim saberemos valorizar a nossa democracia. Porque quem mata esquece. Mas quem morre não pode ser esquecido.

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9 respostas para Quem mata, esquece. Quem morre não pode ser esquecido.

  1. Luiz disse:

    Não foi uma ditadura, foi uma contra-revolução. Se os militares não tivesse assumido o poder no Brasil, na Argentina e no Chile, hoje viveríamos numa nova URSS sul-americana, e talvez a URSS original ainda existisse, pois teriam acesso aos recursos da América do Sul. E viveríamos felizes como os chineses, trabalhando 60 horas por semana apenas para poder comprar arroz e banana.

  2. joao disse:

    Autor, você é um pobre coitado que não sabe o que fala. Estude sobre a ditadura Vargas que foi a única ditadura no Brasil. Essas as escolas não ensinam também não falam sobre o que as pessoas de esquerda faziam. Vá a uma biblioteca nacional e veja os jornais de Abril de 64. Se o Brasil tivesse tido uma “Ditadura” a Dilma já estava morta! O numero de torturados é muito aumentado para se receber “bolsa ditadura” O de desaparecidos também é aumentado claro esses terroristas andavam com documentos falsos conseqüentemente o João da Silva não existia… e era enterrado como indigente. O que era censurado em uma semana era publicado na outra. Tente fazer diretas já em uma ditadura para ver o que acontece. Que ditadura é essa que tem partido, congresso?? Eles dizem que o Regime Militar piorou o Brasil éramos a 45 maior economia passamos a ser a oitava. Estradas rasgaram o Brasil!!! Universidades se multiplicaram na tutela dos militares!! Que “ditadura” é essa que não proíbe a população de comprar armas. Hoje eles negam esse direito constitucional. O Brasil estava caminhando a passos largos para uma ditadura comunista. Quando os militares entravam para interromper reuniões comunistas eram recebidos a bala e quem começa a guerra não pode lamentar a morte! Hoje jovens preguiçosos que não vão a uma biblioteca nacional e se intitulam de intelectuais, pobres coitados que são manipulados por Jornais completamente por uma esquerda infiltrada. Olha quantas usinas hidrelétricas foram construídas no Regime Militar e quantas foram nesses anos de “democracia” . Em todo esse ano nada investido na infra-estrutura portuária. Em Ferrovia o investimento foi ZERO. Duplicaram a Dutra fizeram ponte Rio Niterói. Médici colocou 1/3 da população para trabalhar crescemos 13, 94 % ao ano. Figueiredo fez o maior programa habitacional jamais feito até hoje. Antes de exigirem que os militares abram os arquivos primeiro investiguem o mensalão e averiguem a morte do prefeito de santo André Celso Daniel a mando desse governo corrupto do PT. Também para onde foi que a Dilma enviou o restante do dinheiro que roubou da amante do Ademar de Barros. O ministro das obras públicas Coronel Andreazza morreu pobre a família não teve dinheiro para entrerrar o corpo e fizeram uma vaquinha e no governo democrático temos o mensalão!! Agora a fraude nas licitações… E um governo em que cada mês cai um ministro. Na escola eles ensinam que o povo conquistou o direito do voto e a democracia a custa da morte de muitas pessoas uma grande mentira que só idiota acredita. Assim com quem tirou o Collor foram os caras pintas… o povo Brasileiro sempre foi covarde e pacífico e nunca lutou por coisa alguma. Nem o mensalão foi suficiente para o governo cair Jovens ignorantes e bobalhões são o futuro do Brasil! Se estuda história é por documento e não por livros manipulados. Você faz uma faculdade de bosta com uns professores de merda e não vai nem a uma biblioteca nacional um completo bobalhão!
    Veja os vídeo para ver o tamanho de sua ignorância




  3. Pingback: Mentiras que precisam ser reveladas sobre a Ditadura | O Enciclopedista

  4. Eduardo Carraro disse:

    Baita papo babaca-padrão esse de “fazer justiça pra todos”.

    Quem detém as informações e tem um puta medo de que elas venham à tona são os milicos assassinos-torturadores. Se há coisas sobre os “guerrilheiros”, então que venha à tona. Agora… difícil cobrar isso quando os super santos militares não permitem que as suas informações se tornem públicas.

    Creio que aparecerá um super intelectual argumentando que não houve ditadura em 3, 2, 1…

    • Léo Rossatto disse:

      Mesmo porque os “guerrilheiros” já foram devidamente punidos durante a ditadura. Foram presos, torturados, em alguns casos morreram. É estúpido colocar todo mundo no mesmo balaio e fazer um julgamento só como se de um lado não tivéssemos torturadores e do outro não tivéssemos torturados.

  5. Léo Rossatto disse:

    Pô, óbvio que é pra todos. Não dá pra subordinar à conveniência política.

  6. anonimo. disse:

    Se a investigação valer para todos, inclusive para os membros de guerrilhas armadas que cometeram sequestros, assassinatos e assaltos, eu darei valor. Se não for pra todos, pode ter certeza que não se trata de “fazer justiça” ou “punir crimes contra a humanidade”. É puro e simples revanchismo.

  7. Expedito Paz disse:

    Perfeito, Leonardo. Há muitas feridas abertas nessa história, e ainda há tempo de cicatrizar algumas delas.

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