Messi e o bullying


Não, esse texto não é para qualificar como bullying o que Messi faz com seus adversários (embora seja, em certo aspecto).

Nessa terça-feira, 20 de março de 2012, Lionel Messi, aos 24 anos de idade, tornou-se o maior artilheiro da história de um dos maiores clubes do mundo. Considerando que ele tenha mais sete ou oito anos em alto nível e não vá sair do Barcelona, pode dobrar ou triplicar facilmente essa marca. Mas não é o objetivo aqui discutir se ele será o maior da história ou coisa do tipo.

O objetivo é analisar a trajetória de Messi, baseada em um único pressuposto: o de que ele, mesmo sendo o melhor jogador de futebol do mundo, permanece um sujeito pacato e humilde, ao contrário de outros jogadores que pleiteiam o posto de “melhor do mundo”, como Cristiano Ronaldo e Neymar.

Hoje a formação de um jogador de futebol não é um processo simples. Ao perceber um “talento diferenciado”, pais e empresários tratam o jogador mirim, desde cedo, como um produto que vai gerar lucro. É a apropriação capitalista do jogador de futebol, desde os 10 ou 12 anos de idade. Neymar e Cristiano Ronaldo são exemplos muito bem acabados disso: desde muito cedo eram tratados como jóias raras, mimados e lapidados para serem os melhores. Na mente de um adolescente, administrar isso é quase impossível. É inegável que Neymar e Cristiano Ronaldo são jogadores excepcionais. Mas tornaram-se compreensivelmente arrogantes em campo, não por culpa própria, mas por terem sido, desde sempre, tratados como estrelas, como sujeitos sempre melhores do que seus pares. E tal arrogância promove ambos como personagens do showbizz, com a necessidade sociológica de serem os melhores em todos os aspectos da vida, como exemplos de homens bem sucedidos. Para isso, se relacionam com modelos, com atrizes, estão sempre em eventos sociais. São mais do que jogadores, são celebridades.

E há Messi. Messi é um sujeito diferenciado. Obviamente, sempre jogou muito futebol, mas teve problemas na infância e na adolescência, que colocaram em risco sua carreira de jogador de futebol. Aos oito anos, foi diagnosticado com autismo. Aos 12 anos, mudou com os pais para a Espanha, buscando uma chance no Barcelona. Não apenas para jogar futebol, mas para fazer um tratamento com hormônios do crescimento, após uma disfunção detectada um ano antes.

Messi, sem esse tratamento, teria aproximadamente 1,50 de altura hoje, inviabilizando sua carreira como jogador de futebol. O Barcelona topou bancar o tratamento do atleta, e o investimento tem sido pago com sobras. No entanto, o principal efeito ficou no caráter do jogador.

Messi é o exemplo máximo do futebol de que um caráter humilde se molda nas dificuldades. Sempre foi inferiorizado, por causa de sua altura e das incertezas que o cercavam, em sua adolescência. Meus caros, na adolescência é o período em que a formação do caráter da pessoa se intensifica, e as experiências desse período se eternizam, definindo a postura do mesmo em relação ao mundo.

Enquanto Neymar e Cristiano Ronaldo foram príncipes nessa época, Messi passou por dificuldades e por situações de inferioridade. Superou essas situações a duras penas e tornou-se um jogador brilhante, mas manteve consigo as marcas desse período. Marcas que tornaram ele um sujeito tímido, humilde, focado em sempre melhorar, avesso ao showbizz e que tem como principal passatempo, além de jogar futebol (no Barcelona e no Fifa), dormir.

Messi é perfeito? Não. Mas lida de forma diferente com o futebol. Nunca poderemos esperar de Messi, por exemplo, a absurda perda de foco que teve Ronaldinho Gaúcho após a Copa de 2006. No caso de Messi, é quase impossível o sucesso subir à cabeça.

A lição aprendida com Lionel Messi é: você pode ter um talento único para algo, mas o aproveitamento máximo desse talento só ocorrerá se você tiver um caráter humilde, moldado frente às dificuldades, com perseverança e espírito de luta. Messi passou por dificuldades terríveis, e hoje é um sujeito extremamente feliz com o que faz, sabendo que isso é transitório e que deve valorizar ao máximo o seu talento, recompensando a cada jogada o esforço de todos os que acreditaram nele (principalmente seus pais).

Não estou apoiando o bullying. Mas uma sociedade repleta de crianças e adolescentes superprotegidos, mimados, que não aprendem a lidar com a dificuldades e a superá-las, não forma apenas jogadores piores do que Lionel Messi: forma seres humanos piores, que não sabem lidar com as dificuldades na idade adulta.

Existem três linguagens universais: o futebol, os números e o sorriso. Lionel Messi nos encanta tornando fáceis jogadas impossíveis, como expoente máximo do futebol atual. Nos impressiona, com seus números cada vez mais assombrosos. E a cada gol nos brinda com um sorriso sincero, discreto, como que se lembrando de tudo o que teve que passar até chegar onde está hoje. Não é apenas um jogador de futebol. Messi representa hoje, no alto de seu talento, os símbolos universais do ser humano.

Merece toda a reverência. Parabéns, Messi!

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7 respostas para Messi e o bullying

  1. Walberson Costa disse:

    A matéria, estar perfeita, o cara é um exemplo de pessoa, e acredite não é só nas frente das cameras até pq ele nem gosta de camera, que não acha isso, apenas sente inveja dele. um cara humilde, que é o melhor do mundo, mais não sai aí dizendo pra todo mundo que é bom. Nunca desistiu de seus sonhos, mesmo todo mundo dizendo que ele nunca ia conseguir nada.
    Um exemplo de ser humano

  2. Mariana Fonseca disse:

    Eu acho que o autor responde à pergunta sobre o porquê do Messi ser humilde, ou “parecer” ser humilde quando diz que ele foi diagnosticado como autista (não exterioriza suas emoções). Não só isso, mas tirando ser bom jogador, ele parece um pouco atrasado mental (sem ofensa) e fora do campo nunca deve ter tido muitos amigos nem muitas namoradas, devido a sua personalidade timida e introvertida, nem muita gente a reparar na sua “beleza”. Já o CR7 se nota que sempre teve tudo o que era mulher na sua mao e se calhar até é mais esse o motivo da sua arrogância que outra coisa, e provavelmente também da humildade do Messi, exatamente pelo contrario.

  3. Fernando Liell disse:

    O messi, Cristiano Ronaldo e Neymar, todos esses sofrem muita pressão por serem astros, ricos e dependente de um esporte tão mal organizado. O messi só está vivenciando essa fase na vida dele, porque o barcelona está procurando revolucionar o futebol. E não venha falar de caráter através da mídia, pois voces pensam que podem falar de uma pessoa apenas vendo como ele joga, sem conhecer a pessoa, isso é ridículo, é diminuir o ser, é eternizar o mal.
    Todos essas pessoas tiveram que conquistar seu espaço, nao nasceram jogando bem. Então eles merecem o respeito, quem estraga essas pessoas , são as pessoas do mal que mexem com o dinheiro, com os interesses, nunca mais quero ouvir falar mal de uma pessoa que está envolvida no futebol, pois isso é so para aumentar o seu marketing, aliás se a pessoa é tao má porque nao dao umas aulas de boas condutas e princípios???

    • Léo Rossatto disse:

      Todos são astros, ok. Mas, pelo menos aparentemente, lida de outra forma com a fama. Pode mudar, daqui pra frente, mas ninguém está querendo diminuir ninguém. A tese é que lidar com dificuldades forma pessoas melhores e mais humildes, Messi é apenas um exemplo disso, no fim das contas.

      • Fernando Liell disse:

        Entendi o que você quis dizer, que ele é uma pessoa humilde na frente das camêras sem se vangloriar e deixando para verem quanto ele é bom no campo( um atleta profissional). E no momento que ele for questionado ?? Quando o barcelona for batido e não ter toda essa supremacia, será que messi irá ser a mesma pessoa?? tomara que sim.
        Concluindo a matéria ficou boa, até você ter comparado com outros jogadores, e então deixando seus argumentos duvidosos para mim.

        • Léo Rossatto disse:

          Tá tranquilo. Só quis dizer mesmo que, até agora, Messi lidou de forma diferente com a fama que os demais. Só experimentou fracassos na seleção argentina, e nem por isso reagiu mal. O cerne do texto nem é o Messi em si: é como as dificuldades podem tornar as pessoas mais focadas e humildes. E isso varia de pessoa pra pessoa.

  4. Daniel disse:

    Como diria o poeta Alexandre Frota: “O munda anda muito viadinho”

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