A gentileza assusta


Por esses dias, fiz uma experiência sociológica. Ciente do mau humor crônico das pessoas nos transportes públicos, resolvi, com alguma reflexão, sempre ceder meu lugar às pessoas. A regra era a seguinte: eu cedia o lugar para qualquer pessoa que eu julgasse merecer mais do que eu. No caso, para qualquer criança, para qualquer mulher e para homens que aparentassem mais de 45 anos. Outra regra era a de nunca sentar no banco reservado para idosos. Só cedia lugares normais. E, por motivos óbvios, só fiz essa experiência no Metrô de São Paulo (e na CPTM). Portanto, os resultados dizem respeito apenas ao público paulista.

Nessa experiência, infelizmente, minha aparência conta. E joga MUITO contra. Como a maioria sabe, sou gordinho, loiro, com cara de comedor de hambúrguer americano. Praticamente um Steve Buscemi com uns 30 Kgs a mais. Ou seja, além de gordo eu tenho cara de louco. Nem de longe eu era a pessoa mais recomendada para fazer essa experiência. E isso comprometeu, obviamente, os resultados finais. Abaixo, pra quem não lembra, o Steve Buscemi:

Ok, vamos aos fatos. A primeira experiência foi a mais desencorajadora de todas. Eu estava sentado no Metrô, tomei coragem, levantei e disse para uma senhora na faixa dos 40 anos de idade: “pode sentar, senhora”. Ela se recusou e ainda foi áspera comigo, insinuando que eu estava chamando ela de velha em voz alta. O metrô inteiro ficou constrangido. Como eu já tinha levantado, acabei me afastando e ficando de pé em outro lugar do vagão. E o lugar ficou vago até um rapaz sentar, na próxima estação.

Depois de uns três dias para me recuperar do TRAUMA, comecei a fazer isso de novo. Com senhores de idade, senhoras, senhoritas, crianças, qualquer um, sem distinção. Alguns recusaram com o tradicional “já vou descer, moço, não se preocupa”. Outros ficaram felizes e aceitaram a gentileza. Uma senhorinha, de uns 60 anos, chegou a me falar “poxa, moço, obrigado, é tão difícil ver gente educada hoje”.

Mas uma coisa chamou a atenção. Umas 6 ou 7 pessoas, em umas 20 e poucas vezes que fiz isso, me olharam com TERROR, assustadas com a gentileza. Uma senhora chegou a PULAR de susto quando eu a abordei cedendo o lugar. E em todas as vezes fiz isso calmamente, tranquilamente, sem nenhum tipo de indelicadeza.

Isso me faz elencar algumas possibilidades:

1) Sou gordo, feio e tenho cara de louco o suficiente para ATERRORIZAR as pessoas que me cercam. Quando eu as abordo, ainda que calmamente, as pessoas pensam que serão ESQUARTEJADAS e suas vísceras serão transformadas em sopa, ou algo do tipo.

2) As pessoas sentem medo de tudo e de todos, cada vez mais. Em transportes públicos, principalmente, elas se fecham e não admitem qualquer tipo de contato com o mundo exterior. Muitas vezes fazem isso munidas de Ipods ou celulares com fones de ouvido. E, de fato, acham cada vez mais que todo contato pode ser uma tentativa de assalto, de agressão ou de qualquer coisa negativa. O medo torna as pessoas mais fechadas em si mesmas e menos dispostas a aceitar a possibilidade de qualquer atitude positiva inesperada e sem interesse.

3) As pessoas estão tão desacostumadas com atos de gentileza que se assustam quando alguém é gentil com elas. Assustam mesmo, é inesperado. O mundo é tão cruel e cheio de injustiças e desilusões que as pessoas já não esperam nada de bom das outras. E se assustam, enxergando sempre algum interesse negativo por trás de alguma boa atitude altruísta e sem nenhuma segunda intenção.

Embora esteja inclinado a acreditar mais na primeira opção, afinal, se eu tivesse a beleza e a compostura de um <insira seu colírio da Capricho aqui>, ninguém se assustaria ou teria medo, é relevante lidar com a sensação de pavor das pessoas. Não apenas no transporte público, mas em todos os lugares.

E isso não sou eu quem digo. Ano passado, um estudo publicado na Nature, ainda em fase preliminar, mostrou que pessoas que moram em grandes aglomerações urbanas tem mais riscos de desenvolverem stress, depressão e esquizofrenia. E há uma grande chance de observarmos isso na prática, diariamente, através de uma experiência simples, como ceder o lugar no Metrô. Afinal, em uma cidade em que até a gentileza assusta, e quase impossível não admitir que há um “stress coletivo”, que acaba prejudicando a todos.

Não se assuste com a gentileza. Lembre-se que a cidade pode ser insana, mas ainda existem pessoas boas por aí.

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10 respostas para A gentileza assusta

  1. editor do Site disse:

    Reblogged this on Falando de Concurso.

  2. Vinícius Sasso disse:

    Eu sei como é isso. Eu também sou loiro, e sou um adepto da gentileza e da cortesia todos os dias, então não raro me deparo com pessoas tão brasileiras quanto eu se assustando comigo. Minha tese é que os filmes de psicopatas norteamericanos da Globo (repare, os assassinos são loiros, os heróis, morenos) têm influenciado muito o inconsciente do povo, além é claro desses fatores que você expôs com propriedade neste bom texto.

  3. Antonio Alfredo Ruiz Paggioro disse:

    Muito bom este post, eu sei muito bem o que é isto, pois necessito do Metrô todos os dias e vejo cada situação!!
    Parabéns pela experiência sociológica!
    Abraço!

  4. Rogerio Alves disse:

    Semana passada fui para capital e também percebi isso, as pessoas isoladas, o celular toma forma de escudo a serviço da alienação, moro no litoral, o que me faz ver tudo como novidade e confirmar o comportamento, expresso em teu artigo.
    Do ponto de vista da segurança é aconselhável observar o ambiente para se antever as ações potencialmente violentas, no entanto é uma via de duas mãos, observando as pessoas numa postura preventiva, acaba por encontrar faces da semiótica da emoção nesses conglomerados.
    Sentado ao meu lado aparece um bebê sorrindo pra mim, normalmente eu faço um gracejo e de pronto penso “se eu fizer isso, capaz da mãe achar que sou um pedófilo”.
    Sempre fomos julgados pela aparência, porém na atualidade isso ficou mais recorrente, criaturas como Ted Bundy, agradecem.
    Parabéns pelo artigo.

  5. Natalia disse:

    Outro lugar em que as pessoas se assustam com gentilezas é no elevador! Te olham como se vc fosse um bicho por fazer algo pra alguém q não conhece.
    Dizer boa tarde, bom dia e etc, segurar a porta, apertar o andar para alguém, essas coisas deveriam ser normais e não consideradas gentilezas!

  6. Mariana disse:

    Excelente! E além de se assustarem com a gentileza, não aceitam a educação com que são tratadas. Já cansei de ver cara feia ou até mesmo de espanto, quando no meio de uma multidão se empurrando eu peço licença ou agradeço a uma brecha de passagem cedida sem intenção. Fica cada dia mais difícil exercer a gentileza e a educação na São Paulo de hoje. Infelizmente, adotei o lema ” Minha educação depende da sua”.

  7. Ulisses disse:

    Conheci seu blo através do retweet do próprio metro. Muito boa a experiência. Estamos em um pais em que honestidade e gentileza são exceções e não regra.

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