O Bloqueio do Bloqueio


As redes sociais popularizaram algo relevante, que diz muito sobre nosso momento atual: o bloqueio. Para quem não sabe, o bloqueio, seja no Orkut, no Twitter ou no Facebook, é uma funcionalidade que permite a você ignorar a existência de uma pessoa nas redes sociais. No orkut, a função é a mesma, mas a ferramenta chama “ignorar usuário”.

Imagine se, na nossa vida cotidiana, pudéssemos ignorar todos aqueles que nos agradam. Não teríamos tantas decepções, não seríamos contrariados, não teríamos que lidar com nossos problemas. Viveríamos em um mundo maravilhoso, habitado apenas pelas pessoas que amamos e que também nos amam.

E isso seria péssimo, em todos os aspectos.

A contrariedade e a dificuldade sempre levaram as pessoas à reflexão. Quando algo incomoda, nós refletimos sobre o assunto, e buscamos soluções para o problema. Às vezes, fazemos isso por muito tempo. Buscamos compreender os motivos de quem nos causa problemas, buscamos soluções, zelamos pela boa convivência. E tudo por um único motivo: na vida real, não existe o botão bloquear. E ignorar definitivamente uma pessoa é muito mais traumático.

Um efeito extremamente negativo da opção “bloquear” nas redes sociais é a banalização do ato de ignorar os outros. Quando você pesquisa “bloquear pessoas”, no Google, chega em quase 8 milhões de resultados. A popularidade da ferramenta é inquestionável.

A indiferença é abominável. Sempre é pior ser ignorado do que ser contrariado. Quando alguém nos contraria, é sinal de que, de alguma forma, se importa com o que falamos e constrói argumentos para manifestar opinião a respeito. Quando alguém nos ignora, é muito pior: ignorar é demonstrar uma disposição definitiva e irreversível de não manter relações. Quando alguém te ignora, está dizendo que não vale a pena manter nenhum tipo de relação contigo. E isso é bem pior do que ser contrariado.

O bloqueio, nas redes sociais, é a banalização da indiferença. E seus efeitos negativos são:

– A formação de uma geração de pessoas ressentidas: a indiferença machuca muito mais do que a contrariedade. É comum que as pessoas bloqueadas se sintam ressentidas, magoadas, entristecidas, e não tenham como resolver isso. Com isso, as pessoas acabam se tornando, naturalmente, mais propensas a guardar as mágoas e ressentimentos para si mesmas. As pessoas tornam-se amargas e repletas de situações mal resolvidas em suas vidas.

– A formação de uma geração que não sabe lidar com seus problemas: as pessoas sempre cresceram, durante a história, em meio às dificuldades. A história humana é um eterno ciclo, em que problemas são apresentados, e as pessoas refletem sobre eles até resolvê-los. A resolução de problemas e o saber lidar com situações de contrariedade sempre tornaram o ser humano mais… humano. E o bloqueio, nas redes sociais, faz com que toda uma geração de pessoas, através de um único botão, passe a ignorar os seus problemas e as situações de contrariedade do cotidiano. É tentador bloquear. Mas impede as pessoas de resolverem seus problemas e crescerem enquanto seres humanos.

– A formação de uma geração hipócrita: o receito psicológico do bloqueio molda a mente das pessoas. E, a partir daí, elas tornam-se muito mais propensas a elogiar e a puxar o saco das outras do que a criticar, a apontar falhas e a buscar soluções. E isso mesmo que os elogios sejam exagerados ou as falhas sejam flagrantes. É formada uma geração de pessoas hipócritas, que não consegue dizer para seus amigos, colegas ou companheiros a verdade acerca deles. E isso faz com que as pessoas tenham uma auto-referência que não condiz com a realidade.

– A formação de uma geração arrogante e fechada em si mesma: a auto-referência equivocada traz diversos problemas à tona. O principal deles é a arrogância, acompanhada da tendência natural das pessoas em se fecharem nos grupos de amigos “confortáveis”, em que as pessoas têm a segurança de que serão apenas elogiadas ou mimadas.

No final, emerge toda uma geração mimada, arrogante, ressentida e que não sabe lidar com seus problemas. E o bloqueio, nas redes sociais, é uma ferramenta importante para a catalisação desse problema.

Com tantos prejuízos à sociedade, a sugestão é uma só: o bloqueio do bloqueio. É uma sugestão impopular, visto que o equilíbrio tênue existente nas redes sociais depende disso. Mas não vamos banalizar o bloqueio às pessoas em nossa vida virtual. Vamos usá-lo apenas em casos essenciais, como o dos spammers. Lidar com a contrariedade e resolver as situações que não nos agradam, ao invés de fugir delas, é essencial para nos tornarmos pessoas melhores.

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10 respostas para O Bloqueio do Bloqueio

  1. Phabinius disse:

    O problema parece ser o caráter “8 ou 80” da própria ferramenta de bloqueio. Não há gradações que permitam um “bloqueio moderado”. Fica portanto a sugestão não de bloquear o bloqueio mas de refiná-lo, de permitir que o bloqueado possa oferecer uma defesa que permita ao bloqueador avaliar se vale a pena dar uma 2ª chance ao bloqueado.

    Seguramente isso é bem melhor do que ser ignorado. Seria mais útil para o bloqueador, que teria como seguir a “reputação” do camarada que ele decidiu bloquear e daria ao bloqueado a chance de se retratar.

  2. Valmir disse:

    Não cabe analisar o assunto por um viés de “serious business” tão grande assim. Bloquear apenas por se sentir contrariado em suas opiniões é, lógico, condenável, mas usada da forma correta, a ferramenta é útil e perfeitamente aceitável.

    Infelizmente, sabemos que a internet ajuda certas pessoas a dar vazão à sua anormalidade, que pode se traduzir em pensamentos retrógrados, preconceituosos, fomentadores de ódio, e por aí vai; ou mesmo em meras e patéticas tentativas de chamar a atenção, por algum distúrbio psiquiátrico ou coisa do tipo (neste caso se enquadram os famosos “trolls”, que exprimem opiniões “polêmicas”, que muitas vezes eles sequer têm na realidade, apenas para criarem o caos ou mesmo angariar fama). Não me parece razoável ou justo querer obrigar qualquer pessoa que deseje apenas manter um bom debate e convívio virtual a desperdiçar seu tempo e sua energia em debates inevitavelmente infrutíferos com tais sujeitos.

    E não se pode esquecer, também, dos “bullys” virtuais ou mesmo eventuais desafetos que o indivíduo tenha, que podem incomodá-lo à exaustão no ambiente internético ou mesmo usar seus dados (ou, no ápice da covardia, até mesmo os de terceiros a ele intimamente ligados) para atingir sua honra e moral, como espalhar conversas pessoais ou fotografias. Negar o bloqueio, aqui, é nada mais que negar o direito à justa defesa.

    • Léo Rossatto disse:

      Eu concordo muito contigo. O que eu abomino é o bloqueio banal mesmo. Como muitas ferramentas, o bloqueio é útil, mas o que atrapalha é a sua banalização.

      E você tocou num ponto muito interessante: de fato, a Internet permite manifestações mais exacerbadas. Tenho defendido aqui que a Internet é um meio que favorece manifestações extremistas ao invés de manifestações ponderadas. Comentei sobre o assunto em um texto que escrevi algumas semanas atrás, sobre a ditadura: http://leorossatto.wordpress.com/2012/04/01/mentiras-que-precisam-ser-reveladas-sobre-a-ditadura/

      O título pode ter fugido um pouco do objetivo do post em si. Mas o objetivo não é tirar o botão de bloqueio das redes sociais. Na própria vida nós “bloqueamos” pessoas também. A verdade é que eu não quero que a coisa seja banalizada. E a banalização, no fim das contas, que gera todos os problemas descritos no texto.

  3. Ricardo disse:

    Há razão no artigo, mas ele avalia apenas um dos motivos de se bloquear alguem, eu, em geral, não bloqueio quem discorda de mim ou me questiona, eu bloqueio gente chata que só usa a rede para futilidades, autopromoção, piadinhas, correntes e similares, se já é chato termos que aturar gente desse tipo na vida real ainda teremos que aturá-las (ou ser aturado) no virtual também? então, prezado escritor, deixo aqui meu mais veemente NÃO ao bloqueio do bloqueio, bloquear é um direito sagrado nessa terra de ninguem. abcs.

    • Léo Rossatto disse:

      Hahahaha, ok, faz sentido. Nos próprios comentários já discutimos a respeito. O bloqueio não deve ser extinto, mas deve ser usado com parcimônia, com moderação. Apenas em casos realmente necessários. E deveria ser reversível também, em alguns casos específicos.

      Um abraço!

  4. Será mesmo que “bloquear o bloqueio” ajudaria em algo? É interessante pensar nisso, mas ao mesmo tempo tem um ponto a se pensar: se “é proíbido proíbir”, ou melhor, “é proíbido bloquear”, então quer dizer que terei que ser obrigado a acompanhar coisas que não estão em acordo com o que penso, só que de forma a ser prejudicial? Quer dizer que não posso bloquear quem realmente me incomoda?

    Eu sinceramente acho o contrário: ser contrariado é pior que ser ignorado. E explico o porque.

    Hoje as pessoas contraríam querendo impor sua razão, falar que é dona de uma verdade única e absoluta, ou então entrar em conversas para poder provocar a ira, falar mal, criticar sem bons argumentos ou ofendendo meio mundo.

    Temos uma geração de “críticos chatos”, podemos dizer. Todos ofendem o dono, a mãe do dono, o filho do dono… É “cool” ofender os outros. Rir do mal alheio. A arrogância no final vem de quem ignoramos, não de nós.

    Meu parâmetro de bloqueio é baseado nessa premissa: se o cara denigre demais, o bloqueio. O cara não cria mágua ou ressentimento pois na mente dele, ele apenas queria fazer uma provocação e chamar a si a atenção. E provar que “eu estou errado e ele certo”, mas me denigrindo ao máximo. Para ele, ser ignorado é bom.

    Uma coisa que tenho aprendido é justamente ignorar o que não quero. Tirando um ou outro fator (mais psicológico), a grande maioria das coisas que me desinteressa, ignoro. Melhor do que arranjar uma guerra com isso.

    • Léo Rossatto disse:

      É um contraponto interessante. Pra mim, o grande problema do bloqueio está na sua irreversibilidade. Se o bloqueio fosse reversível e deixasse um caminho, ainda que tênue, aberto pra negociação, talvez ele não fosse tão necessário nas redes sociais.

      E também convém dividir as pessoas que criticam em dois tipos: aquelas que criticam com argumentos, de forma construtiva, e aquelas que criticam apenas para destruir os outros. Esse segundo tipo, de fato, é muito mais difícil de lidar. É uma geração de gente arrogante e disposta a criticar apenas por criticar, apenas por achar melhor.

      A verdade é que esse ciclo todo, no final, é um enorme círculo vicioso, porque as atitudes de quem é bloqueado levam as pessoas a usarem o bloqueio, e indiretamente encorajam mais esse sujeito a importunar outras pessoas, pelo “sentimento de liberdade” de quem já está bloqueado, e, portanto, não pode mais ouvir críticas.

      Ideal não é arranjar uma guerra. Eu mesmo já fiz muito isso, e me arrependo profundamente. É entender as críticas. Se não dá pra lidar calmamente com elas ou as críticas não vão trazer nada de bom, não há esperança e nem perspectiva de melhora, aí é melhor bloquear mesmo, não bloquear só vai piorar tudo a médio e longo prazo.

      • O bloqueio do Facebook é reversível. Só que o porém é que, a não ser que a pessoa tenha uma “segunda conta”, você não sabe o que se passa com a pessoa a qual te bloqueou.

        Fora isso, penso: sempre queremos “bloquear as críticas” (generalização burra, admito). Não queremos escutar o que fazemos de errado, pois para nós o “errado”, até aquele momento, “é o certo”. Vide políticos. Estava mesmo hoje revendo o caso do CQC que foi em Barueri e deu até briga com o prefeito local. A postura do prefeito perante a câmera no primeiro momento mostra que ele se acha o certo e que o poder dele sobrepõe a qualquer outra atitude .

        A política é um ótimo exemplo de achar posturas contrárias umas as outras, e que no final acabam ambas se “isolando” uma das outras. Ao invés de unirem idéias e cabeças para filtrar e assim fazer uma gestão boa, sempre temos “partidos diferentes” brigando e se contrariando. Como duas crianças tentando manter suas posições diferentes para tentar alcançar o mesmo objetivo.

        Aí mostro que o “bloqueio” em si não ocorre apenas em redes sociais. Na vida em si “bloqueamos” o que não nos agrada. E escolhemos posições que nos deixam acomodados e protegidos de críticas contrárias. Uma religião, um partido, um time de futebol… etc… ou viramos Anarquistas e que se dane o resto, já que tudo está errado 🙂

        A indiferença no final sempre esteve entre nós. As redes sociais só ajudaram a mostrar ainda mais esta faceta. (frase meio clichê, acho que já escutei algo parecido em outro lugar, só que com outro contexto 🙂 )

        • Léo Rossatto disse:

          Bem pensado esse argumento.

          Pensando por esse lado, na verdade as redes sociais são apenas uma ferramenta, em que se reproduzem exatamente as mesmas relações do mundo “real”. E isso faz absolutamente todo o sentido. O bloqueio serve como uma maneira de catalisar essa tendência do ser humano em ignorar posições contrárias e discutir de forma construtiva.

          Como você bem disse, na política as coisas ocorrem assim. Na religião também. Em todos os espaços da sociedade a clusterização é, de fato, uma tendência. As pessoas sentem necessidade de fazer parte de grupos. E de forjar suas identidades dentro desses grupos, sentindo-se, ali, de fato, parte de um todo.

          O que está errado não é o bloqueio em si. E nem mesmo a postura de indiferença. O erro está na falta de disposição das pessoas ao diálogo, na falta de disposição das pessoas a aprender e nessa postura de auto-suficiência, de soberba e de indiferença com a opinião alheia. Que não é uma característica das redes sociais em si, mas da sociedade.

      • Então, isso ( relativo ao “O erro está na falta de disposição das pessoas ao diálogo, na falta de disposição das pessoas a aprender e nessa postura de auto-suficiência, de soberba e de indiferença com a opinião alheia. ” ) eu concordo plenamente :).

        Fico matutando o porque de muitas vezes ignorarmos uma crítica construtiva. Comodismo, manutenção de posição, algo já fixo em nossa mente…

        Pode ser que tememos mudanças, e como uma crítica é uma forma de fazer a pessoa pensar em uma mudança de atitude, a pessoa a repudia.

        Eu mesmo muitas vezes acabo não me dando bem com uma ou outra crítica. Na minha mente, a posição que estou é cômoda. Para quê a crítica então? Depois venho a raciocinar e vejo que a crítica, no final, estava certa. E provavelmente perdi algo por não ter executado a correção que a crítica propunha.

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