A ânsia por proibir


Recentemente, temos lidado com diversos movimentos, liderados por políticos ligados a grupos religiosos, que exigem proibições definitivas e irrevogáveis em temas como o aborto, o casamento entre casais homossexuais, a eutanásia, a liberação das drogas e em outros temas que relacionam, segundo os mesmos, a religião e os direitos civis.

Já havia escrito, nesse espaço, que os próprios cristãos necessitam claramente se voltar contra esse grupo perverso de deputados e senadores que atende pelo nome de Frente Parlamentar Evangélica. Porque há um desvio de foco muito específico aí: uma coisa é lutar por um estado realmente laico, que assegure direitos a todas as vertentes religiosas. Outra é tentar implantar uma teocracia no Brasil, no modelo dos estados teocráticos que existiam até o século XXI.

Não é o objetivo desse texto mostrar se essas reivindicações proibitivas estão certas ou erradas. Essa discussão é muito profunda, com implicações muito específicas em cada caso. A discussão merece muita atenção, especialmente daqueles que lidam com os assuntos no dia a dia, como médicos e entidades de defesa dos direitos humanos. E sentenciar de forma simples acerca dos temas não só é leviano, mas conduz a conclusões precipitadas.

O objetivo é mostrar que a motivação para essa ânsia proibitiva está errada. E que esse erro na motivação traz consequências inesperadas e negativas para a sociedade como um todo.

A vida é um eterno ciclo de ações e reações. A Lei newtoniana de que toda ação tem uma reação igual e contrária encontra paralelo nas relações sociais e na ação política. Quando não observamos nossa história a ponto de aprender com ela, repetimos os mesmos erros, enquanto sociedade, e a história de torna um eterno ciclo entre momentos de liberdade e repressão. Aprender com a história é justamente controlar essa ânsia proibitiva de determinados grupos.

Religiosos protestando em Brasília contra aborto de anencéfalos

Existem duas coisas que devem ser consideradas em relação ao clamor dos grupos religiosos por esse combo de proibições. A primeira se refere aos próprios grupos religiosos, e a segunda se refere à sociedade como um todo.

Em primeiro lugar, a motivação para essa ânsia proibitiva, de natureza religiosa, está completamente errada. E nem quero entrar em discussões religiosas aprofundadas e acaloradas, mas a salvação no cristianismo moderno, seja católico ou protestante, é uma combinação entre fé e obras. Sempre com a diretriz fundamental de amar e buscar compreender a Deus e ao próximo. Sem nunca impor nada.

Nesse contexto, igrejas não devem defender proibições legais, em um estado laico. E isso repercute negativamente para as próprias instituições perante a sociedade. Muitas igrejas, que até a década de 80 eram sinônimos de busca por mudanças na sociedade e resistência à ditadura, tornaram-se hoje atreladas aos valores mais conservadores da sociedade. E isso leva a efeitos colaterais indesejados para as igrejas, como o aumento de cristãos não praticantes e do número de ateus.

O argumento da proibição de algumas liberdades individuais foi popularizado nas eleições de 2010 para presidente, quando o candidato José Serra viu no reacionarismo religioso “de valores” uma arma pra derrotar Dilma Rousseff. O caso mais emblemático é o do Pr. Piragine, de Curitiba, com esse vídeo no Youtube:

O discurso religioso mostrou força política. E líderes religiosos entraram, de maneira fisiológica, no governo Dilma Rousseff, com troca de cargos oficializada nas últimas semanas, quando o Bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, assumiu o Ministério da Pesca. Em troca, o discurso oficial “progressista” foi deixado de lado.

Vale dizer que essa ânsia é suprapartidária. Governos e grupos políticos insistem em trocar as liberdades individuais, conquistadas a muito custo, por segurança. Elemento determinante para  isso é a imposição de uma política de dominação da sociedade pelo medo, que encarcera conscientemente as pessoas, já combatida há muito tempo nesse espaço.

E é aí que entra o segundo aspecto negativo desse momento de nossa sociedade, em que grupos religiosos e políticos tentam impor diversas proibições: elas não funcionam.

Apreensão de bebidas nos EUA durante a Lei Seca

O exemplo mais emblemático de como as proibições não funcionam foi a Lei Seca norte-americana. Entre 1920 e 1933 era proibida a produção e o consumo de álcool em território norte-americano. Nessa época, a máfia tornou-se um poder paralelo em cidades como Chicago e Nova York, mantendo o comércio de bebidas em estabelecimentos ilegais. E só perdeu poder quando a Lei Seca foi revogada, não por um motivo político, mas por um motivo econômico: os EUA estavam atravessando a Grande Depressão, após a crise de 1929, e a indústria de bebidas era um importante gerador de empregos e fomentador da economia.

Hoje, a mesma coisa ocorre com o tráfico de drogas. A proibição das drogas ocorreu entre das décadas de 20 e 40 nos EUA, cuja filosofia de combate aos entorpecentes foi copiada por todo o bloco capitalista, durante a Guerra Fria. O resultado direto disso todos já sabemos: a explosão do tráfico de drogas, associado à violência, na periferia dos grandes centros, estejam eles em países de elite, como os EUA, ou em países emergentes, como o Brasil. A ONU estima que o tráfico de drogas movimente entre 300 e 400 bilhões de dólares ao ano, no mundo, e que quantia semelhante seja investida por ano pelos governos no combate ao tráfico de drogas, inclusive com intervenções internacionais, como a dos EUA na Colômbia para deter as FARC’s. O que só mostra que, em todos os casos, a proibição não funciona.

Acerca de aborto, casamento gay, eutanásia ou liberação das drogas, não há nada a dizer. A não ser que, por mais que se manifestem a respeito, eles são temas tangentes ao desenvolvimento da sociedade. Relacionam-se, sim, e devem ser estudados e deliberados, sem tabus, com o máximo de cuidado, respeitando-se as especificidades de cada grupo social. Mas não são o cerne da sociedade.

O cerne da sociedade deve estar sempre em colocar as liberdades e os direitos acima do regramento proibitivo imposto pelo medo. O norte da sociedade deve estar sempre em ampliar e garantir os direitos dos seus cidadãos, e nunca em suprimi-los para atender a lobbies de grupos específicos. A ânsia de proibir, na verdade, deve ser a ânsia de libertar. E de desenvolver a sociedade incentivando o espírito criativo das pessoas.

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3 respostas para A ânsia por proibir

  1. Fabiano Dias disse:

    Concordo plenamente. E faço um porém: PL 122 – a bancada “evangélica” se posiciona contra essa Lei, por ententer que a mesma vai “proibir” certas manifestações. Desde que não haja ódio, ofensas ou violência, não vejo motivo nenhum para “proibir” estas manifestações, pois vivemos num país livre e democrático. Cada um tem a sua opinião.

  2. Henrique disse:

    Bravo! Assino em baixo.

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