Ateísmo, cristianismo e soberba


Acordei pela manhã e me deparei com esse texto do Dr. Dráuzio Varela, publicado originalmente na Folha de São Paulo e reproduzido no Blog do Juca Kfouri.

O texto defende as virtudes do ateísmo, contrapondo-se ao fato de que os cristãos perseguem os ateus. Tudo, em tese, com muito respeito.

No entanto, analisando o texto (e não farei isso detalhadamente aqui), percebe-se que ele cai numa vala comum de textos ateus: por trás de um discurso de respeito esconde-se uma arrogância imensa, que generaliza os cristãos, associando-os apenas com “pastores que arrancam dinheiro de pobres”, e colocando-se em um patamar superior, dizendo algo como “vocês não nos respeitam, mas nós respeitamos vocês”.

Além disso, assusta a perspectiva atual de usar a biologia para justificar tudo. Não vou questionar o evolucionismo aqui, afinal, o Daniel Ruy Pereira sempre fez isso muito melhor que eu. Mas ver cientistas, médicos e pessoas de renome na sociedade usando a biologia para justificar tudo. E daí não falo apenas desse texto, mas do recrudescimento de ideias eugenistas, amparadas em pesquisas genéticas recentes. O último que fez isso foi Hitler, e nos esforçamos para esquecer o resultado de seus “experimentos” até hoje.

O ateu se diz perseguido pelos cristãos, e os cristãos se dizem perseguidos pelos ateus. Mas ambos, cristãos e ateus, são perseguidos por uma coisa só: a própria soberba. Funciona assim:

Alguns ateus se consideram melhores que os cristãos por não acreditarem em nada que a ciência não possa provar. Por não acreditarem que haja alguma coisa após a morte física. Enquanto isso, alguns cristãos menosprezam os ateus por não não conseguirem vislumbrar características boas neles.

Essa arrogância leva os ateus a enxergarem cristãos como inferiores, generalizando-os como “conservadores intolerantes reféns de pastores ladrões”. Do outro lado, os cristãos, do alto de sua arrogância, vêem os ateus como “ímpios que nunca serão boas pessoas por não terem Deus no coração”.

Aí começam os argumentos de bosta, de parte a parte. Uma discussão muito bem conhecida por muitos, que geralmente não leva a lugar algum. E entra a segunda parte do argumento de ambos os lados: o de que eles se sentem perseguidos pela sua crença (ou não-crença, no caso dos ateus). Na verdade, ambos os lados são perseguidos sim. Não pelas suas crenças, mas como reação à soberba demonstrada por eles mesmos anteriormente.

Existem valores que são caros à sociedade. Altruísmo, cooperação mútua, amor aos outros, humildade. Valores defendidos no discurso tanto por ateus quanto por cristãos. Se tais valores fossem de fato praticados por ambas as partes, não seria necessário nem mesmo haver uma dicotomia entre ateus e cristãos.

Porque a maior das virtudes que um ser humano pode ter é a alteridade – que é a virtude de se colocar de fato na posição do outro, tentando enxergar o mundo com os olhos dele. Ser humilde a ponto de tentar enxergar o mundo com a visão do outro, entendendo-o, é essencial. Seja você ateu, cristão ou de qualquer outra religião. É o primeiro pressuposto para evitar a soberba, atualmente tão comum tanto entre ateus quanto entre cristãos.

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9 respostas para Ateísmo, cristianismo e soberba

  1. Ivani Medina disse:

    A religião percebida como um instrumento político é bem diferente de quando é percebida como um instrumento de aperfeiçoamento moral. A tendência é que ela seja apreciada preferencialmente pela segunda possibilidade. No entanto, é sob o ponto de vista secular que faço essa reflexão a respeito da origem do cristianismo. Conheça um pouco mais a respeito da maior farsa histórica de todos os tempos. Visite a página do livro A Origem do Cristianismo em Reflexão, no Facebook:
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  2. Eu não concordo com o texto. Drauzio Varela é só um sujeito bem intencionado, mas mediano e com “a bola muito cheia” pela globo e por isso pretencioso. Se mete em muita coisa nas quais não tem a menor condição de opinar, Porisso foi, certa vez, desancado por Olavo de Carvalho. É só um boçal, inocente útil da Globo.

    marcilio leão

  3. Pingback: Deus existe? (Parte 2) |

  4. Daniel Bruno disse:

    Gostei! Concordo que o texto do Drauzio é arrogante, assim como muitos religiosos e ateus, mas discordo do parágrafo que usa Hitler para exemplificar o uso das biologia em tudo: as ciências são como métodos, ferramentas. Não se pode culpar um chave-de-fenda caso alguém use-a para matar alguém; a ciência em si não vem com ética embutida. Entretanto, vale lembrar que quando a religião era o centro da humanidade, conflitos eram justificados por esta, assim como ainda é (pelo menos parcialmente) até hoje. Tanto ciência quanto religião podem ser manipulados para legitimar atrocidades.

  5. Felipe disse:

    Já conseguiu o msn do Pelé?

    • Léo Rossatto disse:

      Não, mas não me arrependo de ter pedido. Foi a partir daí que acabei conhecendo um monte de gente sensacional que hoje considero como amigo, ainda que tudo isso tenha ocorrido da forma mais torta e errada possível.

  6. NILSON DE SIMAS disse:

    SOBERBA E ARROGÂNCIA – Vemos muito em LUCAS 19:27 onde o tal Jesus manda matar os que não compartilhavam com seus devaneios. Sua doutrina é muito bem clara: Siga-me e me aceite ou te mando pro fogo do inferno.

    • Léo Rossatto disse:

      Nem é esse o objetivo da discussão. Nem foi isso que Jesus falou (essa passagem está no contexto de uma parábola em que um rei dá talentos a alguns súditos, portanto, Jesus transcreve o que o rei fala), mas a perspectiva do “fogo do inferno” não deveria incomodar pessoas que não creem que exista algo sobrenatural após a morte.

    • Nilson: Vai ler o texto todo e deixa de faqlar besteira!

      marcilio leão

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