Nada é por acaso


Este texto, apesar de simples, é autobiográfico.

Sempre me considerei um sujeito azarado, sem corresponder às expectativas que as pessoas depositavam em mim. As pessoas me consideravam inteligente desde criança, e eu sempre tive medo de “desperdiçar” toda essa inteligência e de decepcionar as pessoas.

Eu estava fazendo Técnico em Mecatrônica, com bolsa do colégio, e já tinha dito até para o jornalzinho da escola que meu sonho era fazer Engenharia, de preferência em uma escola conceituada, como o ITA. Quando eu estava no segundo ano do colégio, em 1998 (meu colégio técnico tinha 4 anos), cheguei a prestar a prova como treineiro, inclusive. E estava firme em meu propósito.

Em 1999, prestei prova de estágio pra Volkswagen, em São Bernardo do Campo. Passei em 3º lugar, em mais de 3 mil  candidatos, e íamos fazer entrevista nas áreas depois. A empresa tinha umas cinquenta vagas abertas, e selecionou umas 100 pessoas, mas até a recrutadora disse que, na minha posição, era certeza que eu seria chamado.

Só que a secretária, quando foi fazer a distribuição nas áreas, ESQUECEU MINHA FICHA NA MESA. E quando viu, eu tava junto com a última leva, que ia fazer a seleção em uma área que não tinha nada a ver com a minha. E eram seis pra UMA vaga. Obviamente, não passei, não sabia nada do tema (era sobre Instalação de Fios e cabos de telecomunicações quando eu tinha estudado Mecatrônica)

Alguns meses depois, já em 2000, fiz a prova pra entrar no programa de estágio da Pirelli, em Santo André. Passei entre umas 500 pessoas, em primeiro lugar. Só que no dia em que me chamaram para a entrevista eu tinha acabado de ser internado para fazer um cirurgia, remover uma hérnia. Ligamos lá, pedimos pra fazer a entrevista em uns 15 dias, mas não teve jeito, perdi a vaga novamente.

Depois disso, entrei em um estágio na Mercedes Benz, no começo de 2001. Fiquei seis meses lá, fiz de tudo, trabalhei em várias áreas, e, quando podia ter a chance de uma efetivação… ocorreu o famoso apagão de 2001 proporcionado pela carência de investimentos do governo FHC na área elétrica. A empresa cortou todas as contratações e eu não pude ser efetivado. Obviamente, fiquei irritado e sem alento. Achava que as coisas sempre aconteciam comigo, que meu azar era irremediável.

A desilusão com a área foi tão forte que comecei a questionar o sentido de fazer engenharia, de entrar em um mercado tão insano e competitivo. Acabei me aprofundando em humanas e resolvi que precisava fazer Ciências Sociais. Que aquilo era mais legal que ser engenheiro. Meus pais, obviamente, não entenderam muito. Durante o curso, tive muitos questionamentos, meus e dos outros, se de fato eu havia tomado a decisão certa.

Hoje vejo que tudo isso serviu para ajudar a ser a pessoa que eu sou hoje. Se eu tivesse entrado em uma das oportunidades de emprego mencionadas, provavelmente eu teria seguido no meu intuito de fazer Engenharia, na época. Provavelmente teria me tornado um engenheiro razoável. Mas não seria feliz, tendo me formado em algo que eu realmente amo. Essas frustrações serviram para, de fato, eu me encontrar, sabendo o que eu quero.

O título de engenheiro tem importância? Obviamente que sim, tanto que eu estava fazendo uma segunda graduação em Engenharia até poucos dias atrás. Mas não é o que havia reservado pra mim.

Hoje, formado em Ciências Sociais, eu trabalho numa área que apresenta muitos problemas quase insolúveis, o setor público. Mas eu gosto disso e sigo tentando resolver todos esses problemas, colaborando como posso. Tenho certeza que sou muito melhor sociólogo do que seria engenheiro.

E agora, ainda consegui ingressar no Mestrado, em uma área que sempre me atraiu, que é a de Planejamento e Gestão do Território, e ainda com um projeto que me dá muito prazer em pesquisar, coisa que achei que nunca teria na academia. Jamais conseguiria isso se tivesse sucesso em uma dos três empregos do começo do texto. Seria um trabalhador razoável e conformado, provavelmente bem remunerado, dentro da hierarquia de uma grande empresa. Mas hoje percebo que dinheiro e conforto não são tudo, e que existem outros valores aos quais devemos dar mais importância, como nosso caráter e o desejo de sempre ajudar aos outros.

Continuo com os pés no chão e tenho certeza absoluta que não conquistei nada ainda. Mas também tenho certeza de que nada, absolutamente nada, é por acaso. Eu, pessoalmente, creio que é Deus. Vocês podem achar que é o destino, o anjo da guarda, o guia de vocês ou qualquer outra coisa. Tão importante quanto acreditar é respeitar a liberdade das pessoas em acreditarem no que elas quiserem.

Mas  a verdade é que não existem casualidades sem resposta. No final, tudo ganha um sentido. Que nós só não enxergamos antes porque temos que percorrer todo o caminho.

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3 respostas para Nada é por acaso

  1. Parabéns Léo. Continue firme. Essa é a sua… Força

  2. achrispin disse:

    Texto foda. Muito bom. Simplicidade é tudo na vida. Inclusive na escrita!

    Abração, irmão.

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