Só sobraram as lembranças


Você acordou pela manhã, preocupado com o horário de chegar na fábrica. O ar parece meio pesado, mas você já está acostumado com isso, na cidade poluída. Dá um beijo na esposa e nos filhos, que estão saindo para ir à escola. Quando sai de casa, percebe uma fumaça estranha subindo ao fundo. Mas deve ser mais uma chaminé de fábrica, afinal está tudo normal, se houvesse algo errado o governo falaria.

De repente, no meio do dia, você ouve sirenes tocando por toda a cidade. Não entende o que está acontecendo. “Deve ser algum treinamento”, pensa. Com o tempo, percebe que não. Que algo sério está acontecendo. Vê um monte de gente do exército nas ruas, conduzindo as pessoas de um lado para outro. De repente, um deles te aborda: “passa na sua casa e pega seus pertences, temos que evacuar tudo”.

Você pega sua família e sai sem destino, sem saber pra onde ir. Sem saber direito o que está acontecendo. É levado para algum subúrbio da capital, afinal, ali você “está seguro”, de acordo com as autoridades. Nunca mais vai poder voltar pra pegar o que ficou em sua cidade.

Depois de algum tempo, sua esposa morre de câncer. Deixa você sozinho, com os filhos adolescentes. Você só entende o que aconteceu naquele dia depois de muitos anos. E a maior dor é por um único motivo: sua esposa poderia ter sido salva. Sua esposa morreu por negligência, você foi obrigado a sair pra sempre de sua cidade por negligência.

As frases acima não são obra de ficção. Aconteceram, com algumas variações, com cerca de 50 mil habitantes de Pripyat. Há 26 anos, a cidade era evacuada às pressas, depois de alguns dias de exposição da população à radiação da usina de Chernobyl.

A usina, cerca de 110 Km ao norte de Kyiv, era uma aberração soviética. Construída em um galpão, sem nenhuma proteção, com equipamentos ultrapassados, Há 26 anos, em 26 de abril de 1986, uma reação em cadeia fora de controle começou em um dos reatores. 56 pessoas morreram em decorrência do acidente, e milhares de outras foram afetadas pela radiação, na Rússia, na Ucrânia e em Belarus. Mais de 200 mil pessoas, em Pripyat e nos arredores, foram obrigadas a deixar suas casas às pressas, quando o governo soviético foi obrigado a admitir a dimensão do acidente. Foi registrado aumento nos índices radioativos em lugares tão distantes quanto a Finlândia.

Hoje, Pripyat é uma cidade fantasma. Só ficam as lembranças e as marcas de uma saída às pressas. As únicas marcas que permanecem estão nas lembranças, e nas pessoas que até hoje sofrem doenças, como consequências diretas ou indiretas da exposição à radiação. Como o búlgaro Stylian Petrov, ex-capitão do Aston Villa, que encerrou sua carreira profissional recentemente, devido à uma leucemia.

Pripyat tornou-se uma cidade fantasma desde então. Os níveis de radiação levarão centenas de anos para voltarem a patamares aceitáveis. O local é o maior exemplo mundial de como uma cidade ficaria após 26 anos parado no tempo, sem nenhuma interferência humana.

Vista atual de Pripyat (via Greenpeace.org)

Pripyat, como toda a região ao redor de Chernobyl, deve servir de alerta. A região, irrecuperável, deve ser eternizada como um museu sem visitação. Como uma ode à insanidade humana e ao mau uso da tecnologia. Mais um desses exemplos que misturam negligência e má intenção, custando milhares de vidas.

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