A filosofia das palavras de Fernando Vanucci


Existem coisas que se tornam clássicos instantâneos.

Uma delas é esse vídeo gravado ao vivo, na Rede TV!, com Fernando Vanucci fazendo um discurso logo após o título italiano da Copa do Mundo, em 2006, em um estado “questionável”:

A gente não pode esquecer

Abaixo, a transcrição da fala:

“Alô você, alô Brasil! Chegando!

É você mesmo!

Itália campeã mundial de futebol! Com todos os méritos, com todas as justiças. É claro que… é claro que eu também estou inconformado… com você porque poderia ser, hoje, o Brasil comemorando o título.

Se… Se é fácil perder… perder do jeito que nós perdemos… hein? Ainda é muito mais difícil. Mas muito mais difícil mesmo.

É difícil perder sabendo que… a gente não pode esquecer! É difícil esquecer isso… tempo nós vamos ter para esquecer. Sem dúvida. Esta Copa do Mundo de 2006 mas, por quatro anos, no mínimo, ela vai ficar aqui com a gente e talvez para sempre, 1950, que jamais foi esquecida pelo grande favoritismo do Brasil e pelo desastre na final do Maracanã.
Agora, na hora que os craques decidiram não jogar, isso é verdade, mas muita verdade mesmo, não teve espetáculo e o resultado poderia ser o que aconteceu exatamente. Agora é hora de reverenciar Canavarro, Totti, Zambrotta. Aaaahhh Itália, campeã mundial de futebol!

Para nós, é hora da gente pensar no futuro… o futuro. É hora da gente reformular… reformular… é hora da gente mudar ou… mudar de vez. Vamos colocar o castelo de areia abaixo! Abaixo! E iniciar uma construção sólida para 2010. Copa 2010. África do Sul também não é assim tão longe. É logo ali.

Caso contrário, nós seremos comida de leões.”

A Filosofia

Um velho ditado diz que “a bebida entra e a verdade sai”. Nesses dois minutos e meio, em meio aos traquejos louvando a Itália e criticando a seleção brasileira, Fernando Vanucci brindou-nos com sua visão de mundo privilegiada. Vamos nos debruçar sobre algumas frases:

 É claro que… é claro que eu também estou inconformado com você porque poderia ser, hoje, o Brasil comemorando o título.

Nesse trecho, Vanucci desmascara seus colegas da mídia e o próprio povo brasileiro. É uma ode contra o ufanismo. Inconformado porque somos um país que cai no oba-oba facilmente, que não sabe que O ÚNICO LUGAR ONDE O SUCESSO VEM ANTES DO TRABALHO É NO DICIONÁRIO. E países sérios, como a Itália, comemoram o título.

Se… Se é fácil perder… perder do jeito que nós perdemos… hein? Ainda é muito mais difícil. Mas muito mais difícil mesmo.

O sábio Vanucci nos ensina que, na vida, o que importa não é vencer ou perder, mas a nossa dignidade quando perdemos. Perder sem ter dado o máximo torna a tarefa de se reerguer muito mais difícil.

É difícil perder sabendo que… a gente não pode esquecer!

Pra Vanucci, a derrota de hoje é a chave pra vitória de amanhã. No futebol e na vida. Mas… a gente não pode esquecer. Lembrar das derrotas é a chave para o sucesso pessoal.

É difícil esquecer isso… tempo nós vamos ter para esquecer. Sem dúvida.

Vanucci é um poeta. Aqui ele manifesta, com emoção e entusiasmo, que o tempo apaga todas as mágoas e decepções, apesar de ser difícil.

Agora, na hora que os craques decidiram não jogar, isso é verdade, mas muita verdade mesmo.

Vanucci nos introduz a um conceito avançado da filosofia, respondendo a uma pergunta intrigante: afinal, o que é a verdade? Para Vanucci, a verdade se organiza em gradientes. Existem coisas que são “pouca verdade” e coisas que são “muita verdade”. É uma visão filosófica de mundo inovadora e pós-moderna.

 …não teve espetáculo e o resultado poderia ser o que aconteceu exatamente.

Quando Vanucci fala que “o resultado poderia ser o que aconteceu exatamente” demonstra, nas entrelinhas, um profundo conhecimento de física moderna, tentando expor para as pessoas que o tempo é algo relativo. Para ele, o futuro hipotético explica o passado. Não compreender é para os fracos.

Para nós, é hora da gente pensar no futuro… o futuro.

Vanucci fala do futuro duas vezes na frase. Isso revela a preocupação dele com o planejamento e a eficiência das ações. Pra ele, o Brasil só será um país desenvolvido quando pensarmos na segurança e na educação de nossos filhos. Louvável.

É hora da gente reformular… reformular… é hora da gente mudar ou… mudar de vez.

O poeta recorre a duplicidade no uso dos verbos para salientar o momento histórico em questão, enfatizado pelo “mudar de vez” ao final. Pra ele, os erros do passado servem como experiência, para reformularmos nossa vida e não repetirmos as mesmas atitudes, em uma trajetória de crescimento pessoal e busca da sabedoria.

Vamos colocar o castelo de areia abaixo! Abaixo! E iniciar uma construção sólida para 2010.

Aqui ele mostra que não devemos nunca fazer as coisas pelo caminho fácil.

Colocar o castelo de areia abaixo significa tratar a areia para fazer algo que não sofra erosão. Pegar a matéria prima de areia e transformar em vidro. Só que transformar a areia em vidro é um processo doloroso: você tem que submeter a areia a altas temperaturas por muito tempo, para acabar com as impurezas e transformá-la em algo coeso.

A castelo de vidro é mais forte que o de areia. E guarda uma outra característica: ele é transparente. Todos vêem o que há dentro dele. Para Vanucci, temos que colocar o castelo de areia abaixo e buscarmos transparência em nossas ações. Essa é a construção sólida mencionada (apesar do vidro ser um líquido para a física).

África do Sul também não é assim tão longe. É logo ali.

Aqui Vanucci reflete sobre o fenômeno do encurtamento de distâncias proporcionado pela Internet. Ele se mostra um sujeito antenado, atento às mudanças que a Internet proporcionou em nossa sociedade. Por isso, despreza a distância, seja no tempo, seja no espaço.

Caso contrário, nós seremos comida de leões!

Vanucci reflete aqui, encerrando o texto com a bela mensagem de que devemos nos reinventar constantemente. Os “leões” são as circunstâncias da vida, e não devemos deixar as circunstâncias devorarem nosso ânimo e nossa vontade de viver. Para isso, a mudança deve ser a regra. Devemos sempre analisar como temos vivido. E sempre melhorar, independente das circunstâncias.

Fernando Vanucci é um poeta subestimado. Valorizem.

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