A era do jornalismo militante


A CPI do Cachoeira ainda não tem nenhum relatório final ou conclusão, mas já trouxe uma mudança de paradigma importante para a política nacional. Para ser mais específico, para o jornalismo político nacional.

Com a suspeita cada vez mais convincente do envolvimento de órgãos de imprensa no esquema do bicheiro Cachoeira (que, repito mais uma vez, não é “empresário de jogos”), setores da imprensa assumiram descaradamente a preferência político-partidária que muitos já suspeitavam que ela tivesse. No entanto, até o caso do bicheiro Cachoeira explodir, havia um “manto de imparcialidade”, que escondia uma preferência política quase  indisfarçável por trás de “princípios editoriais”.

Não sou jornalista, mas está claro que, por trás da dinâmica política que move uma ilha de edição, está uma dinâmica econômica. Pra mim, isso sempre determinou mais a seletividade do jornalismo do que qualquer outra coisa. Se um grupo jornalístico apoia determinado grupo político no poder, é porque tem a ganhar com isso economicamente.

O estopim definitivo para o início dessa “era” de jornalismo militante foi a publicação de um editorial do jornal O Globo defendendo a revista Veja das acusações relativas ao envolvimento da direção do semanário (e da Editora Abril) com Carlinhos Cachoeira e suas operações ilegais. É uma quebra de paradigma porque define abertamente que temos dois aglomerados de mídia ligados ideologicamente (ou mais do que isso) a partidos políticos.

Mapeando por cima, dá pra definir que a Editora Confiança (que publica a revista Carta Capital) e a Rede Record, dentre outros grupos menores, estão praticamente fechados com o governo Dilma. E, por outro lado, a Editora Abril e as organizações Globo, dentre outros grupos, estão claramente posicionados junto à oposição política ao governo Dilma.

Tenho a impressão de que essa divisão é positiva. O Brasil sempre foi um país obscuro, um país de intenções escondidas por trás de uma aparência irreal de cordialidade. Um exemplo recente é a questão das cotas raciais: um dos principais argumentos daqueles que são contra as cotas é que “elas vão aumentar as manifestações de racismo”. Discordo. O racismo já existia, e passou a se manifestar claramente quando os afrodescendentes passaram a ter direitos. O racismo só pode ser combatido quando ele se manifesta. A mesma coisa acontece com a homofobia, por exemplo.

Com a mídia é a mesma coisa. A parcialidade da mídia só pode ser combatida quando se manifesta. Mais do que isso: quando a mídia admite que apoia um grupo político você passa a saber o que esperar dela. Isso pode não ser imparcial, mas é honesto. Muito mais honesto  do que tentar passar uma imagem imparcial para seus leitores, baseada em princípios editoriais que muito tergiversam e, no final, não são praticados.

O jornalismo militante faz parte desse momento de transformações pelo qual o Brasil passa. Um momento de amadurecimento, de admitir nossos erros históricos e de corrigí-los para as próximas gerações. E isso passa não só pela transparência no jornalismo, mas pelo combate ao racismo, à homofobia, e a todo tipo de discriminação. Passa pelo esclarecimento dos crimes da ditadura, pelo investimento sincero em educação, e por resultados consistentes em investigações como a da própria CPI do Cachoeira, limpando o ambiente político de corruptores históricos.

No final de tudo isso, sairemos como um país melhor. Apesar de tudo parecer estar piorando no momento.

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2 respostas para A era do jornalismo militante

  1. Em 2010, o Estadão contou em editorial que preferia o Serra. É mais honesto que a Veja que fica divulgando a imparcialidade, rs.

    • Léo Rossatto disse:

      Lembro disso. Considerei bem honesto da parte deles, na época, apesar de não concordar com a posição política. É bem melhor saber o que esperar do jornal do que ver órgão de imprensa fazer militância política em cima de um falso discurso de imparcialidade.

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