A alma inflacionária


O Brasil sofreu durante quase toda a sua história com níveis absurdos de inflação. A inflação é algo destruidor na economia, pois corrói o poder de compra dos salários e das empresas, sem nenhuma contrapartida.

No início da década de 90, a inflação no Brasil chegou a absurdos 2700% ao ano (em 1993). Para se ter ideia do tamanho da inflação, isso quer dizer que um produto que iniciasse o ano custando 10 dinheiros (cruzados, cruzados novos, cruzeiros, cruzeiros reais ou a moeda que te agradasse, pois existiram muitas na época), terminaria o ano custando 280 dinheiros. A estrela da economia era a maquininha abaixo, a remarcadora de preços,usada duas ou três vezes ao dia nos supermercados.

Remarcadora de Preços (via Correio Braziliense)

Nesse sentido, sejamos sinceros: o Plano Real, arquitetado pela equipe econômica do presidente Itamar Franco e essencial na eleição (e na reeleição) do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, foi essencial para o controle da inflação e para a estabilização do país. Foi o grande serviço da equipe de FHC ao Brasil. A continuidade do governo FHC teve muita coisa vexaminosa, mas o controle da inflação acabou sendo o grande legado do governo. Tão grande que garantiu a reeleição do presidente.

Só valoriza a estabilidade econômica quem já recebeu seu salário e tinha que correr para o supermercado porque no dia seguinte já não dava mais pra comprar muita coisa com o aumento dos preços. No entanto, o tema do texto é algo que tangencia essa questão. Algo que vai além e capta o pensamento de boa parte do povo brasileiro. Obviamente, generalizar é errado, mas a prática é largamente disseminada.

Já usei esse espaço para falar algumas vezes do tema. Quando fui abordar a questão do Custo Brasil, expliquei que o principal motivo é esse. E a alma inflacionária do brasileiro é reflexo direto da tendência de muitos empreendedores e governos em levar vantagem em tudo.

A “alma inflacionária” se manifesta prioritariamente em momentos como o atual: com o crescimento econômico baseado no aumento de crédito em um patamar maior do que o da renda (para se ter ideia, a dívida total de famílias e empresas ultrapassou o patamar de R$ 2 trilhões recentemente, mais de 50% do PIB), o aumento de custos se manifesta em cascata – todos os setores querem aumentar suas margens de lucros. Alguns setores específicos, como o de veículos (que está em crise), o de imóveis e o bancário, por exemplo, apresentam margens de lucro muito maiores que as aceitáveis. Isso porque não se investe em inovação no Brasil como se deveria. E porque cada setor da cadeia produtiva tende a maximizar os preços, colocando todo o ônus do produto mais caro no consumidor.

Percebam: ao contrário do que se supõe, não são cobrados “impostos em cascata” no Brasil. A bitributação é proibida por lei, e o sistema tributário brasileiro, apesar de necessitar de adaptações importantes (como a cobrança do imposto sobre grandes fortunas, barrado recentemente no Congresso por industriais e pela bancada religiosa), é racional. Só é necessário diminuir o excessivo número de impostos e contribuições, pois o direcionamento dos mesmos é correto.

Percebam que a cobrança de imposto sobre grandes fortunas foi barrada pelos representantes da Confederação Nacional da Indústria no Congresso. Tal tipo de atitude só eterniza a desigualdade social no Brasil, que tem um dos sistemas tributários mais regressivos do mundo. Enquanto países como o Brasil tem como alíquota máxima de IR 27,5%, para a faixa mais rica (que nem é tão mais rica, a alíquota é cobrada pra quem recebe à partir de R$ 3.911,63, menos de sete salários mínimos), em países como a França e os países escandinavos a contribuição sobre a renda, por parte dos mais ricos, chega a 60%.

A carga tributária brasileira é perversa não apenas porque é uma das mais altas do mundo, mas também porque boa parte dela incide sobre o consumo. E, incidindo sobre o consumo, atinge da mesma forma os pobres e os ricos. Pagar 30 ou 40% de um produto em impostos para alguém que ganha 50 salários mínimos por mês pode ser considerado tolerável. Mas é inadmissível para o sujeito que ganha um ou dois salários mínimos ao mês.

Tudo isso é fruto da “alma inflacionária” brasileira. A alma inflacionária, que acredita que “se só eu ganhar mais, ninguém vai perceber”. A alma que tenta levar vantagem em tudo, é acomodada, não investe em inovação e em melhoria da competitividade, que entra no Congresso apenas para fazer lobby e apresentar leis obtusas, com interesse individual.

É esse tipo de gente que aumenta o custo dos serviços de hospedagem de maneira quase criminosa, quando ocorrem eventos como a Rio+20, forçando delegações inteiras a cancelar sua participação. É esse tipo de gente que faz com que as capitais brasileiras estejam em uma enorme Bolha Imobiliária (leia mais sobre o assunto, aqui e aqui), que vai causar enormes prejuízos quando a inadimplência nos financiamentos imobiliários, contraídos por até 30 anos, explodir. É esse tipo de gente que força a alta dos preços porque “vamos sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas”, como se fosse a última chance de se ganhar dinheiro.

A alma inflacionária de boa parte dos brasileiros está imobilizando o país, estagnando o mercado e trazendo desconfiança interna e externa sobre a capacidade nacional. É algo cultural, que só se resolve com o desenvolvimento da educação e do senso crítico. Com o desenvolvimento de uma noção de justiça e de respeito às leis que falta ao povo brasileiro, e que permite que uma minoria explore de maneira predatória o mercado do país, enquanto o resto vive de migalhas. Ou de dívidas.

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