Brasil, a pátria do abacate doce


Dentre muitas características peculiares do Brasil, uma passa completamente desapercebida até mesmo daqueles que compreendem o país: o Brasil é o único país do mundo em que se consome o abacate predominantemente em receitas doces.

O abacate é uma fruta (na verdade, um pseudofruto) que nasce em uma árvore típica e áreas tropicais, a Persea Americana. A árvore é nativa do sul do México, e até hoje mais de 60% da produção mundial do fruto está no continente.

O abacate teve papel importantíssimo em várias civilizações pré-colombianas, especialmente na região onde hoje se encontra o México. Por ter grande valor nutritivo, tornou-se base da culinária dos Aztecas, e, posteriormente, da culinária mexicana. O abacate é praticamente uma fruta nacional do México, tendo no país um papel bem similar ao do feijão aqui no Brasil.

O abacate é parte importante da culinária de diversos países americanos. No México, na América Central, na Colômbia e na Venezuela, a guacamole, com suas diversas variações, é um dos pratos mais populares (pra quem não conhece, a guacamole é um misto entre creme e salada preparado com abacate, cebola, tomate e outros temperos). No Peru, o abacate é muito popular servido com camarões. No Chile, serve como complemento para saladas. Nos EUA, são preparados, além de pratos influenciados pela culinária mexicana, molhos cremosos a base de abacate para massas como spaghetti. Todas essas receitas tem algo em comum: são salgadas.

E existe o Brasil. O Brasil é o único país de língua portuguesa das Américas. E é o único lugar do mundo em que o abacate é consumido em receitas doces. Aqui se consome o abacate em vitaminas, ou com açúcar e limão, ou em creme, ou em doces diversos, pudins, sorvetes e coisas do tipo. É uma inversão de lógica completamente estúpida para um mexicano que venha aqui, por exemplo. É como se fôssemos ao México e lá só se consumisse feijão com açúcar, ou em sorvete, ou em um creme doce, ou em um pudim.

O abacate doce é uma característica culinária peculiar do Brasil. Como a feijoada, o baião de dois, o virado à paulista ou as churrascarias rodízio. E é uma iguaria. Um creme de abacate bem feito é algo sensacional. Assim como um abacate picado ou amassado com um pouco de açúcar e algumas gotas de limão.

A origem do abacate doce no Brasil é algo obscuro, mas decifrável. O abacate foi trazido para o país no início do século XIX. No entanto, a variedade de abacate cultivada no Brasil (São Paulo e Minas Gerais são responsáveis por dois terços da produção) é diferente do tradicional avocado(*). Enquanto o avocado mexicano e americano é mais seco e oleoso, sendo mais apropriado para saladas, a espécie cultivada no Brasil, o manteiga, é mais úmido e cremoso, sendo mais apropriado para sobremesas (algo que não se sabia quando o abacate foi trazido para cá).

A partir daí, foi natural que o abacate doce se consolidasse como um prato tipicamente brasileiro, ainda mais em uma região em que a produção de açúcar, proveniente dos canaviais, era cada vez maior. O abacate se popularizou no Brasil como uma “fruta de fundo de quintal”, pelo fato da Persea Americana ser uma árvore fácil de plantar e cultivar. O Brasil, atualmente, é o 4º produtor mundial da fruta.

O que isso tudo quer dizer? Que nós devemos valorizar as sobremesas feitas com abacate como parte integrante da culinária nacional. E que nossa culinária é muito mais rica do que se imagina, não se restringindo aos diversos pratos regionais. Que o brasileiro é um sujeito criativo, e sabe dar utilizações diferentes do comum para os insumos que ele tem nas mãos. Lembre-se disso na próxima vez que você for saborear um creme ou uma vitamina de abacate.

O abacate mexicano, o Avocado

(*) Avocado é tanto uma designação genérica do abacate, em inglês, quanto um tipo específico de abacate, utilizado predominantemente em saladas.

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6 respostas para Brasil, a pátria do abacate doce

  1. Acacio disse:

    Eu agora como o abacate adoçado com agave, por causa da diabete, experimentem.

  2. Rogério Ribeiro disse:

    Meu espanto foi comum a todos! E pior ainda pois só conhecia o abacate consumido doce – em vitamina ou amassado com açúcar, às vezes também com limão! Nada de mousse ou algo diferente dos dois primeiros preparos!!! Até que, depois de adulto, soube que no resto do mundo era consumido salgado! E nem imaginava como! Acho que é algo comum a quem é, digamos… com todo respeito… pobre… sim, porquê quando pobres fica mais difícil ter acesso a hábitos e alimentos diferentes… até a própria cultura é um tanto mais “conservadora”… digo isso pela maioria das pessoas que conheci ou que conheço, de renda geralmente menor, que estranham a comida japonesa, a comida árabe, as comidas indígenas, chinesa etc. Mas também conheço pessoas de maior poder aquisitivo que também agem assim… enfim. O que vale é que, realmente, vitamina de abacate (com leite em pó nem se fala!!!) ou ele amassadinho com açúcar e limão é I-M-P-A-G-Á-V-E-L!!!!!!

  3. Douglas disse:

    Só fui ter um convivio mais direto com o abacate em receitas salgadas no curto tempo que morei fora; fui comer guacamole só depois de ter voltado. E continuo achando estranhissimo abacate como salada ou em pratos salgados.

    Uma observação besta, enquanto biólogo: “manteiga” é uma variedade de abacate, pois a espécie continua sendo abacate (Persea americana). Do mesmo modo de “Uva Rubi”: “Rubi” é uma variedade da espécie cana-de-açúcar.

    • Léo Rossatto disse:

      Sim, é estranho mesmo. E valeu pelo esclarecimento.

      E você vê como estrangeiros veem o abacate doce com a mesma estranheza. Esses dias eu estava vendo algum programa de TV sobre os EUA e fizeram uma receita doce com abacate, chamaram de “mousse de abacate”. As pessoas acharam estranhíssimo, tiveram pavor do negócio, e aqui é a coisa mais normal do mundo (e Guacamole, por exemplo, é que é visto com estranheza)

      Cada país com sua cultura.

  4. Primeira vez que comi quacamole achei estranho uma receita salgada levar abacate.

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