O Crédito Inútil


A coisa que eu menos gosto é de ficar fazendo o papel de pessimista quando o assunto é economia. Quando eu falo sobre algum assunto em tom de alerta, não é porque estou feliz em saber que as coisas vão piorar. Pelo contrário, é porque todos nós precisamos saber como evitar o pior.

O governo reduziu novamente o IPI para os carros, em alguns modelos específicos, como forma de reaquecer o setor, em crise após uma expansão assombrosa no ano de 2011. Pode haver algum resultado imediato, mas a médio e longo prazo a tendência é que os resultados sejam mínimos.

Outra iniciativa com efeitos mínimos é a redução dos juros para o financiamento imobiliário. Não sejamos hipócritas: o juro menor causa efeitos sensíveis em um financiamento de 30 anos. Mas esse não é o cerne do problema. Os motivos pelos quais tais iniciativas são paliativas são dois:

1) O crescimento setorial precisa encontrar novas fronteiras: é um argumento comum aos montadores e aos construtores o de que “existe um déficit histórico de carros e casas no Brasil”. No entanto, nunca foram comercializados tantos veículos e nunca foram construídas tantas casas no Brasil quanto nos últimos anos.

Ninguém sabe mais quantificar o déficit habitacional. Por dois motivos simples: o primeiro é que muitas moradias estão “escondidas” nas mãos de especuladores, que ainda querem revendê-las com lucro. Isso esconde o número real de casas e apartamentos no mercado, especialmente nas grandes regiões metropolitanas. O segundo é que os preços do mercado estão tão inflacionados que existe uma demanda reprimida de pessoas que moram com os pais ou de aluguel e que comprarão seus imóveis assim que possível, com preços mais razoáveis.

Nesse cenário bizarro, fica quase impossível calcular com precisão quantas pessoas estão em busca de um imóvel no país. Com os veículos a situação é semelhante, com um agravante: a infra-estrutura das grandes cidades não estava preparada para receber um volume tão grande de veículos em tão pouco tempo. O resultado é o caos urbano diário do trânsito das grandes metrópoles, como São Paulo, em que as pessoas, mesmo com rodízio e restrição aos caminhões, levam 2 horas e 43 minutos, mais de 10% de seus dias, se locomovendo entre suas casas e seus locais de trabalho.

2) O modelo de crescimento baseado na expansão do crédito está se esgotando. A fórmula de crescimento da economia brasileira nos últimos anos conciliou um tímido aumento no investimento em infra-estrutura com um poderoso aumento na oferta de crédito, inclusive para investidores. Com isso, setores como o imobiliário se expandiram a velocidades inéditas. As montadoras registraram recordes de lucros, ajudando suas matrizes estrangeiras a saírem da crise. E os bancos registraram recordes históricos de lucro.

Obviamente, houve abusos. As construtoras inflacionaram o mercado, tornando os preços insustentáveis a médio e longo prazo. As montadoras venderam modelos cada vez mais simples a preços cada vez mais altos, cobrando alguns milhares de reais por adaptações como colocar o step pendurado na traseira do carro. E os bancos praticaram spreads absurdos, ganhando dinheiro fácil com os juros extorsivos dos financiamentos.

Mas a farra do crédito farto acabou. A inadimplência das famílias está crescendo em níveis alarmantes, e o endividamento das famílias está alcançando um patamar recorde, podendo ultrapassar os 50% da renda pela primeira vez na história em 2012.

Contra essa realidade, medidas de expansão do crédito não funcionam. A situação só vai se modificar com aumento expressivo na renda média das famílias. E subestimar isso foi o grande tiro no pé de montadoras, construtoras e bancos: os abusos tornaram a política de crescimento econômico com base na expansão do crédito algo insustentável. A tentativa recente de redução do spread bancário por parte do governo federal é prova disso. As medidas de incentivo ao setor automobilístico, em crise desde o ano passado, também.

Delfim Netto dizia que “era necessário aumentar o bolo, antes de repartí-lo”. Obviamente não concordo com essa visão deturpada. Mas o bolo foi aumentado nos últimos anos. O problema dessa visão é que na hora de repartir e estender os benefícios a todos aqueles que ficaram com a maior parte do bolo fingem que o problema não é com eles, e exigem incentivos para conseguirem um pedaço ainda maior.

Quando o bolo é repartido, de forma arbitrária (porque os empreendedores nunca fazem isso de livre e espontânea vontade), ainda há a reclamação recorrente sobre o assistencialismo do governo, sobre as “bolsa-esmolas que formam vagabundos”. Criticam tudo o que os governos fazem na área social, mas não se incomodam quando impostos que poderiam ser usados para saúde e educação são usados para incentivar setores da economia, como a construção civil e o automobilístico, sem a necessária contrapartida da redução de preços a um nível aceitável.

No final, o problema é o de sempre: o setor produtivo brasileiro, que descende da mesma elite que explorava escravos até o século XIX, acaba querendo eternizar nossa realidade de desigualdade social alarmante, que está na origem de problemas tão distintos quanto a violência urbana, o tráfico de drogas e nosso atraso na educação pública.

A luta não é só contra essa ânsia de uma parcela de nossa sociedade em levar vantagem em tudo: é contra a desigualdade social como um todo, em suas várias e perversas facetas. E, para isso, a solução passa longe de conceder mais incentivos aos empresários de alguns setores. Passa longe também de aumentar o crédito para a população (porque os empresários repassam esses aumentos para os preços desses produtos). Está em reverter, com medidas profundas e sem medo de críticas, nossa realidade em que aquele argumento Xibom Bombom de que “o rico fica cada vez mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre”. E agora, além de pobre, está endividado também.

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