Lições de uma Separação


Já escreveram nos últimos dois dias tudo o que tinham para escrever sobre a saída litigiosa de Ronaldinho do Flamengo. Então, eu não pretendo escrever nada aqui questionando quem está certo ou errado. O objetivo é usar o imbróglio ocorrido essa semana para tirar algumas lições, sob duas óticas: a do jogador e a do dirigente.

O jogador

O jogador que vai ser analisado não é o Ronaldinho Gaúcho. É qualquer um.

Hoje em dia, você não consegue mais se tornar um grande jogador de futebol se destacando nas peladas da rua e fazendo testes. O jogador de futebol é um ativo econômico, um investimento. E a família investe suas esperanças de um futuro melhor nas costas do filho desde criança, se ele mostra alguma habilidade com a bola nos pés.

Em um país que nem o Brasil, esse grupo infeliz de crianças, que são a esperança econômica dos pais,  não vive outra coisa que não seja o futebol. São cobrados como adultos desde muito cedo, por um único motivo: a carreira de jogador de futebol começa e termina cedo. Raramente jogadores continuam atuando em alto nível além dos 35 anos de idade. E, como ativo econômico, essas crianças tem 10 ou 15 anos para ganhar dinheiro para toda a família desfrutar, durante e depois da carreira.

Em um país com desigualdades sociais tão chocantes quanto o Brasil, essa pressão pelo sucesso é algo quase insuportável para uma criança ou um adolescente de classe baixa. A grande sacanagem da desigualdade social não é a pobreza em si: é o fetiche de poder consumir da mesma forma que os mais endinheirados consomem, de poder comprar o que aparece na propaganda da TV ou o que o ator da novela usa. Não poder fazer isso gera uma pressão quase insuportável. Quando não faz o adolescente desistir da carreira, tornam ele um obstinado.

Daí, em alguns poucos casos, vem o sucesso. Com o sucesso, tudo o que o jogador não podia consumir quando era um garoto pobre passa a poder ser comprado. Os carros dos jogadores de futebol são efeitos simbólicos disso. Na assinatura do primeiro contrato com um grande clube, a maioria dos jogadores usa o dinheiro para comprar um carro importado.

Com o dinheiro e a exposição, vem a fama. E com a fama, a atração das mulheres. Não as mulheres de verdade, que tem caráter, mas as piriguetes que só se importam com o dinheiro. É uma combinação grotesca de coisas que levam o jogador a se deslumbrar. Muitas pessoas ao redor tentando bajulá-lo, pra ver se tiram alguma coisa da “estrela”.

Daí os entendidos do assunto falam que o jogador “não tem cabeça, não tem estudo, não tem estrutura familiar”. Casos como o de Ronaldinho e Adriano, famosos, deslumbrados, desmotivados e decadentes, são reflexo direto da desigualdade social do país. Que reproduz o mesmo processo social perverso para diversas outras áreas. Por isso as pessoas que tem uma ascensão social acentuada aqui no Brasil, em sua maioria, são extremamente individualistas e descrentes com a política, por exemplo.

O sentimento de opressão é uma marca que fica por toda a vida. A maioria das pessoas que são oprimidas e pressionadas não querem lutar pela justiça. Querem mudar de posição na balança, oprimindo os outros e pensando apenas em ganhar mais. Isso explica a atitude de Ronaldinho. Explica também o leilão que seu irmão Assis faz por ele, quebrando acordos verbais com a facilidade que Ronaldinho tinha pra driblar os adversários em 2005. O sonho do oprimido, no fim, é virar o opressor.

A Diretoria

O futebol brasileiro vive uma espécie de bolha de crédito, assim como alguns segmentos da economia brasileira. De alguns anos pra cá, foi injetado muito dinheiro no futebol e nos grandes clubes  do país.

O primeiro efeito perverso foi observado com a adoção do campeonato de pontos corridos: o Brasileirão, hoje, nem de longe é ainda o torneio “com 12 favoritos”. Sou completamente a favor dos pontos corridos, mas a maneira como a distribuição de dinheiro é feita no Brasil torna o cenário mais injusto do que qualquer campeonato decidido no mata-mata.

Os novos contratos de TV assinados de maneira quase criminosa com a Globo proporcionam uma variação de 10 vezes no valor da receita. Enquanto alguns times recebem R$ 110 milhões, outros recebem R$ 11 milhões por ano. Não há gestão que resista a isso. Os times menores, oriundos da Série B, permanecem poucos anos na Série A. E cada vez brigando mais embaixo na tabela. O último “pequeno” a conquistar vaga na Copa Libertadores pelo Brasileirão foi o Paraná, em 2006. Antes, isso ocorria quase todo ano.

Além disso, com a Copa de 2014, muitos clubes receberam investimentos substanciais por parte do governo ou de empresas para erguer novas arenas, rentáveis, que possam não apenas abrigar os jogos da Copa do Mundo, mas também rivalizar com as arenas rivais (como são os casos de Palmeiras e Grêmio, por exemplo)

Mas, mesmo entre os grandes, dinheiro não é sinônimo de boa administração. Com o dinheiro, veio o gasto desenfreado, as diretorias assumindo dívidas maiores, conseguindo contratos de patrocínio maiores. Mas a administração não se modernizou. Salvo raras exceções, como o Internacional da década passada, e o Santos e o Corinthians atual, (que apesar das bravatas de seus presidentes, está aproveitando seu dinheiro muito melhor que o Flamengo), as administrações continuam amadoras, ruins, e sem nenhuma perspectiva de melhorar.

A rescisão de Ronaldinho foi apenas uma consequência. De uma diretoria que não consegue calcular nem mesmo o quanto pode oferecer de salário para um jogador sem ser inadimplente, mas apenas oferece, pra garantir a contratação. Aconteceu no Flamengo, mas poderia acontecer no Palmeiras, no São Paulo, no Cruzeiro, no Grêmio, no Botafogo ou em qualquer outro time. Porque a falta de profissionalismo dos dirigentes, aliada à absurda desigualdade financeira entre os clubes, faz com que o país não consiga se desenvolver no futebol.

Nossos dirigentes estão deslumbrados com o dinheiro fácil. Tanto que podem se dar ao luxo de cometerem erros crassos, como o do Palmeiras na recontratação de Valdívia, por exemplo. Mas existe um limite. Oferecer mais de 1 milhão de reais por mês para um jogador e se comprometer a bancar isso sozinho não é apenas burrice: é um desperdício de dinheiro quase desrespeitoso, na realidade brasileira. E, no final, mesmo com um volume muito maior de dinheiro, permanecem os mesmos problemas: falta de planejamento, atrasos salariais frequentes e litígios trabalhistas entre clubes e jogadores.

Conclusão

Fica a lição de que nosso futebol não está bem. Não está saudável. Sediaremos uma Copa do Mundo daqui dois anos. O país ainda carece de estrutura esportiva e urbana. O país que o mundo verá em 2014 será o país dos contrastes, do dirigente rico que paga 1 milhão de reais por mês em um jogador decadente, com uma torcida que se diz “popular”, mas que paga 50 reais para entrar em um estádio, com 7 ou 8 jogos por mês. E mais 50 reais de estacionamento, para os flanelinhas.

Jogadores e dirigentes são duas faces da mesma moeda perversa: a da desigualdade social, que molda o futebol no Brasil, torna o jogador individualista, o dirigente individualista, o torcedor individualista, o gandula individualista, o flanelinha individualista… Cada um quer ganhar o seu, numa sociedade cheia de opressores e oprimidos. E cheia de gente querendo trocar de posição, se está embaixo, ou manter a posição, se está em cima.

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