Haddad, Erundina, Maluf e nosso sistema político


Luiza Erundina, para alguns jornalistas, tem uma história de vida similar ao presidente Lula, única e exclusivamente pelo fato dela ter nascido no Nordeste. Isso é sinal de desconhecimento simplista. Não é porque duas pessoas nasceram na mesma região do país e, por alguns anos, militaram no mesmo partido, que suas histórias de vida são semelhantes.

Assim como Lula, Erundina nasceu no Nordeste, em uma família humilde. Mudou de cidade, na Paraíba, para poder cursar o Ginásio, pois na sua cidade não existia um. Formou-se em Serviço Social pela UFPB. Tornou-se mestre em Ciências Sociais na USP, fazendo oposição ao regime militar. Passou a trabalhar como Assistente Social na Prefeitura de São Paulo. Foi convidada por Lula para fundar o PT, em 1980. Foi eleita vereadora em São Paulo,em 1982, deputada estadual constituinte em 1986 e prefeita de São Paulo em 1988. Em 1992, Eduardo Suplicy, que tinha seu apoio, foi derrotado por Paulo Maluf.

Em 1993, deu um passo decisivo para sair do PT ao aceitar ser ministra do governo Itamar Franco. Ficou apenas 5 meses, mas foi suspensa pelo PT de todas as atividades partidárias, e nunca mais conseguiu recuperar espaço até sair para o PSB, em 1998.

Após quatro mandatos consecutivos como deputada federal, vê seu partido se aliar ao PT em São Paulo e indicar seu nome como vice-prefeita do candidato Haddad. Parecia uma oportunidade perfeita para uma reconciliação, para acertar as contas com a história e com suas convicções.

No entanto, nesses 14 anos de afastamento, o PT mudou. Seus líderes mudaram. E, um dia depois de seu partido anunciá-la como vice-prefeita, o mesmo Lula, que 32 anos atrás havia convidado Erundina para o PT, convidou Paulo Maluf, AQUELE que impediu Erundina de fazer sucessor em 1992, para integrar sua chapa. Que quatro anos depois elegeu Celso Pitta contra ela.  Com direito a foto constrangedora cumprimentando o ex-prefeito. Tudo com a justificativa de vencer o projeto político do PSDB de José Serra, que com seus aliados governa a prefeitura paulistana há oito anos e o estado há 18.

O mais engraçado nessa história é que o prefeito Kassab e o ex-prefeito e candidato Serra representam exatamente a modalidade de política em que Maluf foi o PIONEIRO aqui em São Paulo: conquistar a população através de obras públicas faraônicas, de preferência privilegiando o transporte de carros. Obras que custam bilhões de reais e estão frequentemente sob suspeita de desvio de dinheiro público. PSDB e Maluf são unha e carne. Talvez nem tanto na articulação política, mas muito nos ideais políticos. Por isso, convém lembrar que Maluf, mesmo coligado com Haddad, segue apoiando o governo estadual de Geraldo Alckmin, da mesma forma que apoiava o governo de José Serra até 2010.

Tanto que Erundina, ao saber da aliança e ver a foto de Lula com Maluf, resolveu largar o barco. Pra ela, era melhor adiar por mais alguns anos a reconciliação. Talvez nunca aconteça. Mas nesse momento, se aliar a Paulo Maluf estava fora de questão.

Ética? Talvez. Oportunismo político? Talvez. Não importam os motivos. O importante é que, nesse caso, Lula, que já acertou muito, errou. E Erundina, que também já cometeu erros políticos, acertou. E é isso que o que tem que ficar dessa situação.

Mas a reflexão não para por aí.

Lula justificou sua coligação com Paulo Maluf, mesmo sabendo tudo o que ele representa, com um argumento pragmático: o candidato Haddad vai ganhar um minuto e trinta e cinco segundos no horário político. É aí que salta aos olhos a necessidade de uma abrangente reforma política no Brasil.

O TSE aprovou, ontem à noite, a criação do 30º partido político no Brasil, o PEN (Partido da Ecologia Nacional). Existem vários outros grupos políticos tentando criar partidos por aí.

Isso acarreta algumas questões:

1) O horário eleitoral gratuito, no formato atual, não serve absolutamente para nada. E o fenômeno Tiririca na eleição de 2010 é a prova disso. Com mais partidos chegando, vai servir ainda menos.

2) Não sou contra existirem dezenas ou centenas de partidos políticos. O problema é que, no formato atual, são necessárias limitações para a fundação de partidos políticos. Não apenas pela questão do horário eleitoral, mas também pela questão do fundo partidário. A livre expressão eleitoral passa pela livre associação. E a manutenção do fundo partidário e do horário eleitoral gratuito são impeditivos para a livre associação, inviabilizando posições que não tenham poder político ou econômico para, por exemplo, coletar 500 mil assinaturas.

3) Essa história do Brasil ter partidos políticos todos em siglas só esvazia o significado deles. Você faz ideia do que querem dizer as siglas de todos os partidos políticos? Está ciente de que na maior parte das vezes o comportamento dos partidos não tem nada a ver com a sigla que eles carregam? Por isso que ninguém tem, por exemplo,o nome de “Partido Conservador”, no Brasil, apesar da maioria dos partidos carregarem um ranço enorme de conservadorismo. Siglas favorecem o esvaziamento completo dos partidos, fazendo a população agir da mesma forma que a Globo, quando manda um RBR porque a Red Bull não é anunciante da Fórmula 1.

Enfim, é uma discussão enorme. Não vou dar conta dela aqui.

O fato é que essa aliança de Haddad com Maluf escancarou a necessidade, antes de tudo, de uma reforma política abrangente no país. A política por aqui precisa mudar… ou mudar de vez, como diria o filósofo Fernando Vanucci.

É hora do povo se mobilizar por isso. Porque não dá mais para tolerar partidos brigando entre si para ver qual é o “menos contaminado”. Partidos deveriam servir para debater ideias e melhorar as cidades, os estados, e, no limite, o país como um todo.

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8 respostas para Haddad, Erundina, Maluf e nosso sistema político

  1. Cláudio Meireles disse:

    Ah Léo… tá dificil… não to achando nada pra discordar de você!!!! Meu espírito de Filósofo não gosta de unanimidades. Mais um excelente texto, muito esclarecedor. Vou acompanhar mais de perto seu blog. Grande abraço.

  2. Tiozão disse:

    Lula “era” idealista numa sociedade despolitizada, conservadora – e, neste sentido São Paulo é a cidade mais emblemática, por isso a permanência de figuras como Kassab, Maluf, Russomano – e que trata como “problema urbano” a exclusão, a segregação e os demais problemas sociais advindos das diferenças de classe.
    Na política, quanto maior o desconhecimento da realidade por parte da sociedade, mais necessário certo pragmatismo. No momento histórico e no contexto em que ocorre a eleição paulista, Lula não encontra outra alternativa.
    Sou paulistano de nascimento e interiorano (SP) por opção.

  3. clauber disse:

    Gostei do seu blog,apesar de não concordar com uma ou outra coisa,mas é legal ver opiniões diferentes e bem articuladas.

  4. Rodrigo disse:

    Excelente o texto, Leo. Vou passar a acompanhar mais de perto o blog. Já li uns 5 textos só hj. Parabens

  5. Rafael Leite disse:

    Concordo contigo, a verdade é que cada vez mais nossos políticos e a sociedade ficão mais vazios de ideologia.

  6. João Paulo disse:

    Idealismo ou realidade? “Lula perdeu todas as eleições majoritárias que disputou enquanto foi um idealista e subia nos palanques tendo como companhia apenas a sua fúria de idealista. Um belo dia, Lula resolveu que se quisesse ser um vencedor não bastava ser um idealista”

    • clauber disse:

      O Lula obteve votos pq criou a imagem de idealista .Diferentemente da militancia,que aceita e justifica tudo o que ele faz,independente das suas diabruras morais,muita gente votou nele vendo uma alternativa de honetidade.12 anos depois,ele não passa de mais do mesmo.

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