Severino


O Arthur Chrispin descreveu com primor, no seu blog, a visão do torcedor na final da Libertadores hoje (ou em qualquer final de torneio). O frio na barriga, a emoção, a ansiedade. Não preciso mais falar sobre isso.

No entanto, vou fazer uma breve reflexão, falando dos times. Especificamente de um deles.

A final da Libertadores não encanta pelo futebol vistoso. Mas merece análise:

O Boca Juniors é aquele time vivido, malemolente, cheio de experiência e frieza. Conhecido de outros carnavais, joga da mesma forma quase sempre, não se abate nunca, luta até o fim, e encara vitórias e derrotas com naturalidade. Daqui algum tempo está decidindo de novo. Está acostumado a decidir e a vencer.

O Corinthians, por sua vez, é um time regado a traumas. Foi rebaixado no Brasileirão de 2007. Voltou mais forte, e um ano e meio depois vencia a Copa do Brasil. Foi bem no Brasileirão de 2010, mas faltou fôlego.

Foi eliminado pelo Tolima antes da fase de grupos da Libertadores. Voltou mais forte, novamente. Ganhou o Campeonato Brasileiro, sem encantar. E, agora, decide a Libertadores.

Tudo isso regado à aridez, à amargura normal de quem está acostumado com as perdas. De quem não acredita na vitória antes dela chegar, apesar da torcida e da mídia falarem o contrário.

Em Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto descreve de forma brilhante e árida a  vida de um morador do semi-árido nordestino. Uma vida árida, uma vida que abranda as pedras suando sobre elas.  Uma vida sem beleza sem prazer, de trabalho, de raros momentos de realização em meio à amargura.

Severino descreve esse Corinthians. Sem o clichê de que “tudo é mais sofrido”, pelo contrário. O objetivo final de Severino, no romance de João Cabral de Melo Neto, não é a vida, mas a morte. A morte severina. Severino só vai encontrar paz quando terminar seu trabalho e se encontrar como sono de Hypnos.

E é esse Corinthians, Severino, que busca sua morte hoje. O fim de um tempo. A paz. Construída com a aridez de quem está acostumado com a amargura. E, mesmo que o time perca hoje, vai encontrar essa paz severina. Porque vai aprender novamente com a amargura, como já fez tantas vezes.

Abaixo, um trecho do poema:

O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zaca.

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