Politicamente (in)correto


Há uma discussão recente, muito acalorada, sobre o que é politicamente correto e o que é politicamente incorreto. É uma discussão extensa, construída com um monte de sofismas, que envolve um monte de pressupostos chatos de explicar. Mas vamos lá.

A Origem

O conceito de politicamente correto (e, por consequência, o de politicamente incorreto) são derivações diretas de conceitos sociais extremamente abrangentes que não devem ser explicados em poucas linhas, como justiça e moral. Em sociedades democráticas, não se espera que as pessoas tenham todas as mesmas opiniões. A garantia do direito em expressar opiniões é defendida por diversos autores que se debruçaram sobre o tema, dentre eles John Rawls, que se voltou contra o utilitarismo e contra o perfeccionismo em sua teoria da justiça justamente pelo anseio de uma sociedade “eficiente” e pela não-garantia aos direitos fundamentais que essas teorias preconizam.

Rawls propõe que as pessoas façam um exercício: que elas construam o sistema jurídico-político de uma sociedade, e que, nessa sociedade, formulem seus conceitos de justiça sob um “véu de ignorância”: elas não sabem a qual classe elas pertencerão, qual é o grau civilizatório dessa sociedade, nem se pertencerão a alguma minoria étnica ou religiosa. Sob esse véu, a sociedade é construída apenas pelo senso de justiça das pessoas.

O senso de justiça puro e simples tem muito a ver com o que é politicamente correto. Basicamente, o politicamente correto deveria ser aquilo que é aceito pelo senso de justiça cego das pessoas, enquanto o politicamente incorreto deveria ser o que não se enquadra nesse senso de justiça.

John Rawls, autor de “Uma Teoria da Justiça”

Daí entra a segunda variável: a moral. A moral, que não é necessariamente uma derivação da justiça, e é baseada nos costumes de uma sociedade, em suas experiências prévias, em seu aprendizado. A moral, para autores como Adam Smith, deriva das experiências históricas, enquanto, para autores como Immanuel Kant, deriva da razão. Ela seria basicamente uma observação acerca dos resultados das escolhas feitas por uma sociedade em momentos anteriores, com vistas a fazer as próximas escolhas com mais eficiência. Obviamente isso tem a ver com “escolhas predominantes” também. Um regime moral só se impõe quando a maioria se apropria dele, consciente ou inconscientemente.

Portanto, em relação à moral, o politicamente correto seria o conjunto de escolhas que faria a sociedade evoluir com maior eficiência, aprendendo com os erros anteriores. E o politicamente incorreto obviamente seria o contrário.

O Conceito Atual

Esses conceitos sempre tiveram lugar em nossa sociedade, mas reapareceram com força há alguns anos. E isso tem a ver com a transformação moral de nossa sociedade. De alguns anos para cá (e isso tem menos a ver com partidos ou governos e mais a ver com a  democracia) algumas coisas que eram consideradas aceitáveis passaram a ser combatidas. Um exemplo claro disso é o cigarro, que teve suas primeiras leis restritivas promulgadas em meados da década de 90.

Nesse contexto de mudanças culturais e emergência de novos padrões morais, começaram a surgir pessoas reclamando que a sociedade andava muito politicamente correta, e essa visão se reverberou após o surgimento das redes sociais. Um dos primeiros a falar disso abertamente foi o atual apresentador/humorista/tuiteiro Danilo Gentili, que já em 2004, antes da fama, tinha um blog que pregava o politicamente incorreto.

Embora já houvesse muita gente que fazia esse tipo de coisa no Brasil, como Hermes e Renato na MTV, por exemplo, não havia essa tipificação. As pessoas simplesmente assistiam e achavam legal ou de mau gosto sem se questionarem se isso era politicamente correto ou não.

Público x Privado

As redes sociais, em menos de dez anos, já tiveram um papel fundamental na remodelação da sociedade, no Brasil e no mundo. Antes das redes sociais, existiam dois padrões de opinião: a opinião que era emitida publicamente, para a sociedade, presa a um padrão moral que podemos classificar como “politicamente correto”. E aquela opinião que era emitida de maneira privada, no almoço de família ou na conversa de bar, que se revelava bem mais polêmica, e por vezes machista, preconceituosa e rude.

Como a popularização das redes sociais, a opinião privada se misturou à opinião pública. Mais do que isso: a opinião privada passou a ser emitida de maneira pública. E isso foi um avanço incrível, por um único motivo: expôs e expõe as entranhas da nossa sociedade.

A sociedade brasileira sempre viveu de aparências. Sempre escondeu seu preconceito na esfera privada, enquanto na esfera pública propagandeava uma relação cordial entre brancos e negros, entre homens e mulheres, entre heterossexuais e homossexuais, entre maiorias dominantes e minorias oprimidas. O Brasil sempre foi conhecido como o país das relações harmônicas e cordiais. E as redes sociais mostram a cada dia como essas relações eram hipócritas.

A mistura entre público e privado, nas redes sociais, permitiu à sociedade conhecer não “quem é bom e quem é ruim”, mas os estratos dos quais são feitos nosso país. De relações de dominação e preconceito que eram escondidas sob um marketing de harmonia, cordialidade e pacifismo conformista.

Essa exposição do “politicamente incorreto” para a sociedade proporcionou um fenômeno novo: a reação de pessoas e órgãos de mídia que assumem essa postura. O politicamente incorreto passou a ser uma ferramenta de marketing, de divulgação e de venda de produtos e eventos.

Essa exposição é boa. Porque você torna a sociedade mais sincera. Sabe exatamente o que combater. Quando uma sociedade esconde seus preconceitos debaixo do tapete, é quase impossível combatê-los. Quando ela acaba sendo obrigada e expor esses preconceitos, fica muito mais fácil lutar contra eles.

Conclusão 

O politicamente correto e o politicamente incorreto são duas faces da mesma moeda. Enquanto o politicamente incorreto esconde um discurso preconceituoso e moralista por trás de uma atmosfera de “transgressão”, o politicamente correto reafirma esse mesmo discurso moralista com argumentos rasos que escondem o mesmo preconceito.

O problema de ambas as definições não está no “correto” ou no “incorreto”, mas no “politicamente”. Ambas as definições julgam as intenções do homem como ser político. Ou seja: O “politicamente correto”, alardeado como valor positivo, só é um valor porque gera consequências políticas bacanas e faz você ser um cara bem visto por boa parte da sociedade ( como nos prova o paradoxo de Luciano Huck). O politicamente incorreto, por sua vez, é a atitude inconsequente do ponto de vista político, que mostra apenas a preocupação imediatista em agradar um público específico.

Ou seja: essa discussão, no fim das contas, não leva a nada. Mais importante do que ser “correto” ou “incorreto”, é ter o seu próprio senso de justiça, criado sob o véu de ignorância sugerido por John Rawls e citado no início do texto. Se não houvesse sociedade formada, classe social, etnia ou religião definida, o que seria justo para você? Essa pergunta é muito mais importante do que qualquer estereótipo simplista.

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Uma resposta para Politicamente (in)correto

  1. Rafael Leite disse:

    Um ponto que acho bom ressaltar é a onda do politicamente correto. Na nossa sociedade atual emitir qualquer opinião divergente da “politicamente correta” é considerado preconceito. Por exemplo, dizer que cotas em concursos / vestibulares são erradas por corrigirem uma injustiça social criando outra já é motivo para que as pessoas sejam ofendidas e acusadas de racismo / preconceito.
    Outro ponto que me preocupa é a proliferação de leis politicamente corretas que restringem a liberdade do cidadão, como as que proíbem a sacolinha plástica, por exemplo.

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