Educação de caráter


Eu sempre me preocupei com a educação. Sempre considerei a educação algo libertador, que forja o caráter das pessoas, e, no limite, da nação. Sempre considerei o olhar apurado sobre a educação a melhor forma de vislumbrar como nossa sociedade estará daqui há 10 ou 20 anos.

Além disso, sempre critiquei o fato do país não tratar a questão com a prioridade que merece. A universalização da educação pública, ainda que de maneira precária, ocorreu apenas na metade da década de 90. A retomada do investimento nas Universidades Federais, ainda que com atrasos nas obras, ocorreu apenas no governo Lula. Todo esse atraso só reflete o fato histórico de que o Brasil sempre ignorou a educação.

Mais do que isso: a educação pública de péssima qualidade, assim como a saúde pública de péssima qualidade, sempre foram opções estratégicas. A lógica é triste, mas verdadeira: quanto pior o padrão da educação e da saúde pública, mais o setor privado vai poder ganhar dinheiro prestando um serviço medíocre. Porque tornou-se quase algo cultural na sociedade o fato de que “escolas particulares” são melhores que as escolas públicas, e que também o fato de que hospitais particulares são melhores que os hospitais que atendem pelo SUS. A educação e a saúde pública, para o cidadão médio, tornou-se sinônimo do piso que qualidade no serviço. E isso faz com que qualquer um que tenha uma condição de vida razoável invista em escolas particulares ou em convênios médicos para sua família, dispendendo grande parte de sua renda para isso.

Nesse universo em que se combate um serviço ruim com a mediocridade, o governo atual não dá muitos sinais de que esteja disposto a mudar o paradigma. Dois exemplos norteiam esse argumento: semana passada, logo após a aprovação no Congresso do aumento da verba para a educação até 10% do PIB, o Ministro da Fazenda Guido Mantega afirmou que “o aumento dos recursos para a educação nessa proporção quebrará o país”. O segundo exemplo é ainda mais grave: os professores da grande maioria das Universidades Federais do país estão em greve há quase dois meses, sem nenhuma negociação por parte do governo Dilma Rousseff e do Ministro da Educação Aloízio Mercadante (que é professor licenciado do Instituto de Economia da Unicamp, o que aumenta ainda mais a incompreensão sobre sua atitude atual).

Universitários grevistas protestam contra o governo federal no DF (Fonte: Terra)

Não quero entrar profundamente aqui no mérito acerca da justiça das negociações. Eu concordo que o professor universitário deveria ser mais valorizado no país, não apenas no salário, mas principalmente no fomento à pesquisa e à formação de novos pesquisadores. E também concordo que a educação deveria ter mais verba, e, principalmente, mais prioridade e planejamento. Não estou falando de 10% do PIB para a educação para sempre. Mas é necessário priorizar com urgência a educação. Não apenas para agregar mais valor aos nossos profissionais, mas, principalmente, para acabar com o atraso histórico que temos no setor, principalmente na pesquisa de alto nível.

No entanto, ambas as atitudes do governo demonstram a essência de algo cultural na política brasileira: a educação, assim como a saúde, não é considerada pelos governos um investimento, mas um fardo. Isso é uma marca política histórica, que não está restrita ao plano federal: estados e municípios também pensam assim. Com essa mentalidade, o planejamento passa a ser negligenciado, os direitos passam a ser colocados em segundo plano, e outras prioridades pontuais e imediatas, como “evitar crescimento do PIB abaixo de 2%” acabam tomando mais a atenção do governo do que a educação. Apesar de algumas boas iniciativas nos últimos vinte anos, o imediatismo, também histórico na política brasileira, nunca permitiu uma priorização séria da educação, que ultrapasse o discurso.

E por que a educação pública é importante? Existem vários motivos possíveis, inclusive o econômico, mas um se destaca: o Estado não tem interesse privado na vida da pessoa. Enquanto as escolas privadas educam as pessoas com determinado objetivo, seja “para o mercado de trabalho” ou “para entrar na Universidade X”, a escola pública não tem tal prerrogativa. Ao menos, não deve ter tal prerrogativa. A escola pública precisa educar os cidadãos para fazê-los crescer em conhecimento, para incentivar a curiosidade infanto-juvenil em aprender mais, e, principalmente, para formar o caráter do cidadão, munindo-o de um senso crítico apurado, de uma visão apurada de justiça e de meios técnicos para o mesmo prosseguir com a sua vida.

Educação não é um fardo e nunca pode ser considerada como tal. Antes disso, é um investimento, um elemento de transformação social a médio e a longo prazo. É o grande moldador do caráter das pessoas. A forma delas entenderem pelo que vale e pelo que não vale a pena lutar. A forma de todos nós entendermos que não adianta vivermos a briga apenas brigando por objetivos individuais se a sociedade que nos cerca está em frangalhos.

Antes de repensar o orçamento ou de ignorar os movimentos grevistas, o governo atual (e todos os outros que vierem) devem ter essa visão sobre a educação. Sob pena de perderem uma oportunidade histórica para mudar o país, como muitos governos já perderam.

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6 respostas para Educação de caráter

  1. Danilo disse:

    Sobre os 10% do PIB para educação, é preciso vigilância e transparência dos investimentos. As vezes não concordo desse investimento devido a enorme corrupção do nosso país. Corrupção é o maior mal do nosso planeta. Além da transparência, é preciso uma valorização da sociedade com a educação. Geralmente vota-se no político que constrói casa e dá bolsa família. Mas quem constrói escola e distribuí livro não é valorizado. Pois isso não mata a fome, compreensível num país como o nosso em que muitos passam fome. Respeito. Mas essa realidade está mudando. E precisamos urgentemente saciar a fome de cultura. E outro aspecto, é achar que tudo que vem do governo é “de graça”. Por isso não há uma cobrança, tem o pesamento do “não reclamo, porque não é meu”. Pagamos impostos e DEVEMOS cobrar. E mais outro, é pais acharem que a escola é um “depósito de meninos”. Com o pensamento de “O importante é estudar” e ficar satisfeito com ” Ele está tendo a oportunidade que eu não tive”. É preciso exigir qualidade. Não só saber ler, escrever e fazer conta de “somar” e “diminuir”. A passos muito pequenos estamos evoluído. Seremos um pouco mais exigente. Nada de país do futuro. Os “tigres asiáticos” mostram, com os mesmos recursos econômicos, poderíamos caminhar MUITO mais rápido.

  2. suelen disse:

    Curti os comentários acima do Léo e do Rafael.

  3. Pingback: Um partido para século XXI | O Enciclopedista

  4. Rafael Leite disse:

    Segundo pesquisa do IPEA (http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2011-10-18/ipea-renuncia-fiscal-e-gasto-publico-indireto-que-merece-mais-transparencia-e-analise-sobre-como-e-ap) só em 2011, o governo deixou de arrecadar mais de 100 bilhões de reais com isenções fiscais.
    Só não tem dinheiro para a educação, para saúde…
    Nunca falta dinheiro para as grandes montadoras, grandes construtoras, bancos, empreiteiras…

  5. João Paulo disse:

    Concordo que a educação é importe, claro… Mas uma pergunta: Se você tem X em caixa e só pode gastar Y, mas querem que você gaste W. Como faz? Aceita e corre o risco de quebrar o país, fazer o país mergulhar numa crise profunda como: quebradeira geral de empresas e bancos gerando desemprego, risco da inflação voltar a disparar… ou toma uma atitude impopular para garantir a saúde financeira do país e de seus cidadãos?

    • Léo Rossatto disse:

      Readequa prioridades. E eu acho isso até bem óbvio. Não sou daqueles que falam que tem que fazer moratória ou coisa do tipo, mas existem “ajudas” que são completamente desnecessárias. Nos últimos 4 anos, o setor automotivo recebeu 28 bilhões de reais em incentivos, o setor imobiliário também recebeu uma quantidade de incentivos absurdas que acabou insuflando o preço dos imóveis artificialmente. Sem contar os investimentos, cada vez mais bancados pelos governos federal, estadual e municipal, visando Copa do Mundo e Olimpíadas. É uma responsabilidade nossa, precisamos fazer, mas é insanidade colocar isso nas costas do governo como os empreiteiros vem fazendo.

      Orçamento não é uma coisa que dê pra mudar radicalmente de um ano pro outro, mas é possível sim adequar o mesmo aumentando a meta de investimento na educação até alcançar 10% daqui alguns anos, provavelmente no final de um eventual segundo governo Dilma. Mas incomoda mais mesmo é a intransigência do governo em relação ao assunto, tanto na questão dos 10% quanto na questão da greve dos professores. Revela que vender carros e incentivar o PIB a crescer mais meio por cento ao ano é mais importante pra essa equipe do que efetivamente investir em educação e num projeto de médio/longo prazo.

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