Velocidade


Nessa semana um projeto que proíbe as motos de trafegarem no “corredor”, o espaço entre duas faixas no trânsito (mais claro na imagem abaixo), causou polêmica entre motoboys, autoridades e pessoas que utilizam o trânsito em geral.

Isso é um corredor de motos (Fonte: motobr.wordpress.com)

O mais peculiar nessa história toda é que é as motos no “corredor” nunca haviam sido regulamentadas. Elas apenas surgiram, nas grandes metrópoles, como uma alternativa para o trânsito caótico, em que carros ficam parados e espremidos em faixas que se revelam insuficientes para abrigar tantos veículos. Grandes metrópoles, como São Paulo, são lugares ótimos para se analisar. Porque é inconcebível que, no meio de tanto caos, a cidade continue funcionando, como continua. E coisas como o corredor de moto ajudam a explicar como São Paulo permanece funcionando, contra todas as expectativas.

Qual é o motivo pelo qual o tráfego de motocicletas pelo corredor foi criado? Conferir velocidade a uma cidade cada vez mais travada. As entregas via motocicleta, que usam os corredores pra fugir do trânsito, são essenciais para promover agilidade a uma cidade que exige cada vez mais rapidez sem criar uma infraestrutura adequada para isso. Para ter ideia, a atual administração cumpriu apenas 16% das metas em relação à mobilidade urbana.

Essa rede informal que possibilita a manutenção da malha urbana em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras cidades merece estudos acadêmicos mais detalhados. As brechas na lei (ou a impunidade pura e simples, no sentido cordialista – de Sérgio Buarque de Hollanda – da coisa) sustentam a coesão social precária no Brasil, e é um dos motivos do país nunca ter e afundado em uma guerra civil generalizada mesmo com um histórico de desigualdades sociais tão acintoso. Nesse sentido, a proibição pura e simples seria catastrófica, pois, além de  estancar uma das possibilidades e desafogamento da logística metropolitana, ainda seria feita sem nenhuma alteração na infra-estrutura viária.

Sim, porque o corredor de motocicletas só existe porque não existem pistas exclusivas para motocicletas na grande maioria das vias na cidade de São Paulo (e na grande maioria das metrópoles brasileiras). O imperador do trânsito é o carro, geralmente ocupado por uma pessoa só. Se possível, um carro Sedan, Adventure ou um SUV, dependendo da possibilidade da pessoa. Comportamento tão individualista e que compromete tanto as vias urbanas que faz São Paulo cogitar a instalação de pedágios urbanos, por exemplo. Com uma infraestrutura urbana própria para motociclistas, seria algo natural proibir os corredores de moto. O problema aí, a exemplo do caso dos pedágios urbanos, reside no governo e em sua incapacidade histórica de fornecer essa infraestrutura de mobilidade.

Só que existe um aspecto mais profundo nessa questão toda. O presidente do Detran gaúcho, Alessandro Barcellos, tocou num ponto interessante: será que essa velocidade toda é mesmo necessária?

Vivemos a cada dia nos acostumando com as situações cotidianas. Nos acostumando com as situações degradantes. A resposta mais comum para muitos de nós, para qualquer convite, não é mais sim ou nome, mas “não sei, estou na correria”. Estamos correndo tanto pra que? Atrás do que? Precisamos de tudo tão rapidamente por que, afinal? Por que todos os problemas são tão urgentes e estamos ficando tão infelizes em não conseguirmos dar conta de tanta coisa?

Por que, afinal, somos viciados em entregas rápidas, em soluções expressas, em saber tudo sobre tudo agora? Porque não usamos a técnica ao nosso favor, ao invés de nos tornarmos reféns dela, viciados em informação e em compromissos, sem tempo para refletir a para aproveitar a vida sem preocupações?

Estamos apressados para consumir? Para poder fazer mais coisas em menos tempo? Por que, afinal, precisamos consumir tanto? Precisamos ser reféns do que consumimos? Precisamos ser reféns da velocidade? Precisamos marcar compromissos para podermos nos gabar para os outros que estamos com a agenda cheia?

Viver intensamente não é permanecer o tempo todo em atividade, se cansando, gastando o tempo de vida em vão. Viver intensamente é ter felicidade naquilo que se faz. É saber ouvir mais do que falar. É saber admirar a simplicidade das coisas. É saber fazer feliz as pessoas que lhe cercam.

É não se acostumar à velocidade que a vida nos impõe e buscar soluções para ela. Para encerrar, fiquem com esse texto da Marina Colasanti, escritora ítalo-brasileira e vencedora do Prêmio Jabuti de 2010, recitado pelo Antônio Abujamra:

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Uma resposta para Velocidade

  1. Nia disse:

    Ouvi alguém dizendo, vivemos no tempo do “ter”. Ser dono da maior quantidade de coisas o mais rápido possível é o que traz felicidade para boa parte dos seres humanos. Só é dificil entender porque chegamos nesse ponto, nesse desejo irrefreável por carros que parecem navios no meio de um trânsito que não comporta nem mais uma mísera bicicleta… A vida se tornou uma grande competição, tem gente que vive pra ganhar e outros ainda acreditam que o importante é só participar (ufa! eu ainda estou nesse time).
    Excelente texto, Leonardo.

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