As cinco formas de cooperação


Em 2006, Martin A. Nowak, professor de biologia de matemática em Harvard, divulgou um artigo na Science enumerando e descrevendo matematicamente as cinco regras para a evolução da cooperação entre seres vivos. O enfoque do autor foi na sobrevivência e na evolução de sociedades do ponto de vista biológico.

Martin A. Nowak

Vou descrever, aqui, as cinco formas de cooperação enunciadas por Nowak em um ponto de vista mais social do que biológico.

Vale lembrar que, para um teórico evolucionista, como Nowak, um processo de seleção natural leva naturalmente à competição entre as partes, com a cooperação ficando em segundo plano (as duas coisas não são excludentes). No entanto, sociedades na natureza que cooperavam mais entre si, pelos cinco motivos abaixo, provaram-se mais eficientes do que aquelas em que a agregação era menor e a competição por recursos era mais intensa entre os membros.

A cooperação e a competição também estão presentes nas várias esferas da vida. Desde a vida microcelular até as grandes sociedades. Elas coexistem e ajudam a determinar ciclos de prosperidade e tragédia, que para o pesquisador estão intimamente ligados aos ciclos de cooperação e deserção nas sociedades.

Os ciclos de cooperação, baseados no Dilema do Prisioneiro, contam com duas posturas possíveis: cooperação ou deserção. Cooperadores são aqueles que, pelos motivos explicados a seguir, tomam uma postura altruísta. Os desertores, por sua vez, são aqueles que tomam a postura egoísta que se espera delas.

Eis as cinco formas de cooperação:

1) Seleção por parentesco: você coopera com os outros porque isso vai representar a eternização do seu DNA, para Nowak. Isso ocorre nas mais diversas sociedades, na natureza, e, em nossa sociedade, traz menção direta ao organismo social mais antigo de que se tem notícia: a família. Isso faz com que, em uma sociedade mais individualista, como a atual sociedade de consumo, seja algo previsível a desagregação familiar como rompimento dessa forma de cooperação.

Na nossa sociedade, o que se percebe não é exatamente a desagregação familiar, mas a formação de estruturas familiares em que o quociente de cooperação é menor. O “modelo” de família, em muitos casos, continua exatamente o mesmo, mas o nível de cooperação entre os membros caiu drasticamente, nessa visão mais individualista proposta pela sociedade de consumo. E isso acaba sendo prejudicial, pois os cooperadores são sobrecarregados pela postura dos desertores, enfraquecendo a cooperação nesse modelo.

2) Reciprocidade Direta: é a versão de cooperação que se baseia no “olho por olho, dente por dente”. Resumindo: você ajuda as pessoas para elas te ajudarem depois.

É um tipo de acordo muito comum. Existe um tipo de dívida muito presente na nossa presente em nossa sociedade, que determina o comportamento de boa parte das pessoas: a dívida de favores. As pessoas criam vínculos, se comprometem a ajudar quem já te ajudou, e pautam sua ação social por isso. Para o bem e para o mal. É muito comum a análise dessa questão na política, mas ela se apresenta à sociedade toda. Está na raiz da maioria das indicações para emprego, por exemplo.

3) Reciprocidade indireta: é a versão da cooperação que se baseia no “vou ajudar, porque alguém me ajudará depois”. Qual é o objetivo? A reputação individual perante à sociedade.

O exemplo mais óbvio aí está nas redes sociais. As pessoas se colaboram e ajudam as outras buscando, na maioria dos casos reputação individual. As redes sociais são canais de informação e de interação, e esses são os dois diferenciais que tornam as mesmas tão atraentes. Fornecendo boa informação (que pode ser em imagens) em seu Facebook, em seu Twitter, em seu Tumblr, em seu Instagram ou em qualquer outro lugar, você coopera com as pessoas, fornecendo algo que elas querem, e, ao mesmo tempo, adquire boa reputação individual, e isso é uma vantagem quando você precisar de um favor.

4) Seleção espacial: é uma modalidade de cooperação que tem a ver com afinidade e proximidade espacial. Grupos cooperam entre si por afinidade, muitas vezes em relação a assuntos específicos, para a consecução de um objetivo. Um exemplo é a questão do aquecimento global. É necessário um número maior de cooperadores do que de desertores, para que o processo seja revertido. Embora não seja o que está acontecendo, obviamente, é um exemplo válido para esse tipo de seleção. A seleção espacial implica o fato de que no longo prazo os grupos cooperativos levam vantagem sobre os desertores desmobilizados.

5) Seleção de grupo: no último tipo, os indivíduos agem sem nenhum interesse em específico, visando apenas um “bem maior”. É o sacrifício pelo bem comum. E é quase um consenso o fato de que os grupos de indivíduos que agem coletivamente, sacrificando-se uns pelos outros, leva vantagem sobre grupos que agem isoladamente ou em formas mais restritas de cooperação. É o tipo de cooperação com maior eficiência, por não exigir contrapartida.

A Sociedade e a Cooperação

Os humanos são, de muito longe, a espécie mais cooperativa existente. Muito por causa da linguagem, que permitiu nomear as pessoas individualmente e estabelecer reputações em detalhes.

As cinco formas de cooperação descritas por Nowak mostram que a humanidade só chegou ao patamar atual conciliando a competição e a cooperação. E que as sociedades com membros mais cooperativos alcançam maior sucesso do que as sociedades com membros menos cooperativos.

A cooperação foi a grande força motriz da evolução na Terra, desde o seu princípio. As grandes conquistas da humanidade invariavelmente foram fruto da cooperação. Nenhum homem conseguiria sozinho explorar o espaço ou criar as tecnologias que pautam a nossa vida hoje.

No momento atual, a humanidade precisa de cooperação em escala inédita. A globalização e a disseminação de tecnologias como a Internet possibilitam a elevação no nível de cooperação entre as pessoas a patamares inéditos.

No entanto, muitas delas seguem preferindo ser desertoras do que cooperadoras. Isso é absolutamente normal, levando-se em conta que o progresso da humanidade opõe, em um processo de tensão cada vez maior, a ótica individualista imposta pela sociedade de consumo, por um lado, e a necessidade urgente de cooperação em níveis inéditos para que esse progresso continue.

Só que competição e cooperação não são excludentes entre si. Por um motivo simples, já mencionado: são fenômenos presentes em todos os níveis da sociedade, coexistindo com outras formas de relação, como o comensalismo.

A humanidade sempre se desenvolveu baseada em um delicado equilíbrio entre essas forças, que deve ser mantido. Estudar a cooperação nos mostra que a informação e a reputação são fatores fundamentais no comportamento das pessoas, e isso mostra que cooperação e competição estão intimamente ligadas, uma vez que informação e reputação podem ser consideradas vantagens competitivas. É uma relação indissociável.

Existem muitas questões que a humanidade precisa resolver nas próximas décadas. Muitas delas podem afetar até mesmo a sobrevivência da espécie. Para lograrmos êxito, fica a lição que a história da humanidade nos conta: no final, sempre é melhor cooperar.

Referências:

“Five rules of the evolution of cooperation” Martin A. Nowak, em Science, , vol. 314, pp. 1560-1563, dezembro de 2006.

“Por que razão nos ajudamos?” Martin A. Nowak, em Scientific American Brasil, Ano 11, nº 123, pp. 32-37, agosto de 2012.

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