Forja Olímpica


Sempre fui um fã inveterado de Jogos Olímpicos. Desde muito criança. É um vício que me consome de quatro em quatro anos, do qual não consigo me afastar, mesmo sabendo de toda a canalhice do COI em relação às transmissões. E também da calhordice tanto das emissoras que transmitem quanto das que não transmitem os Jogos.

O fato é que sou um viciado. Sempre me emocionei em Cerimônias de Abertura de Jogos Olímpicos. E não me emociono com o show ou com a Pira Olímpica sendo acesa não. Sempre me emociono com o desfile das delegações, especialmente com aqueles países minúsculos em que você percebe os atletas pulando de alegria na abertura, apenas pelo privilégio de poder estar ali. Penso na história de vida e na humildade das pessoas que se esforçaram para chegar até ali, muitas vezes sem incentivo nenhum, sem ganharem nada por isso, apenas por amor ao esporte. No imenso orgulho desses atletas apenas em participar da festa.

Penso nas grandes histórias de vida dos pequenos atletas que estão na cerimônia e tem naquele instante a sua maior glória, pois sabem que nunca ganharão uma medalha. Como o judoca-pedreiro de Nauru, uma ilha de 21 Km² que mandou apenas dois atletas para Londres. Um sujeito humilde e exemplar, cujo maior orgulho é saber que seus pais e seus amigos o assistirão (e ganharam um uniforme da delegação).

Lembro do ideal de Pierre de Coubertin, dizendo que o importante é competir. O importante é participar da festa, é dar o máximo, mesmo que esse máximo não represente nada para a maioria. Como foi o caso de Eric Moussambani, guinéu-equatoriano que disputou a eliminatória dos 100 metros livres na natação sem nunca antes ter nadado em uma piscina olímpica. Nadou sozinho, quase se afogou, completou a prova em quase dois minutos, e foi ovacionado pela torcida. Esse é o espírito olímpico.

Abertura das Olimpíadas de Seul: amor à primeira vista pelos Jogos Olímpicos

Eu nasci em 1983. Em 1988, eu já acompanhava as Olimpíadas. Como estávamos morando no interior de Minas naquele ano (e apenas naquele ano), a única TV que pegava à noite (a Olimpíada era em Seul) e transmitia as Olimpíadas era a do quarto dos meus pais. Eu sentava sorrateiramente em frente à TV, virava ela para o canto do quarto e ficava assistindo os Jogos a noite toda, de cara quase colada na TV. De onde surgiu tamanha atração tão cedo? Não faço ideia. Mas deve ter a ver com o fato de que eu GASTAVA um Atlas que minha mãe tinha na época, queria saber sobre todos os países e tal. E isso desde os três anos de idade.

Em Barcelona, foi ainda pior. A exemplo de Londres, as competições começavam bem cedo, por conta do fuso horário. Às quatro e meia da manhã. Eu ia dormir cedo e colocava o relógio para despertar às quatro e vinte. Minha mãe, acho que já era loucura demais pra um guri de nove anos, desligava o despertador no meio da noite. Mas a ansiedade infantil por assistir os jogos era maior, e eu acordava mesmo sem despertador. Quando minha mãe levantava às seis da manhã pra começar a arrumar em casa sempre ficava inconformada de me encontrar assistindo TV.

Em Atlanta, já sabendo da minha insanidade, meus pais largaram de mão. Mas os horários eram bem mais amigáveis. Tínhamos uma pastelaria na garagem de casa e geralmente passava o dia no sofá assistindo os jogos, só saindo quando meus pais precisavam de alguma ajuda com os pastéis.

Em Sydney, os jogos eram à noite de novo. Eu chegava do colégio onze e meia da noite e passava a noite toda assistindo. Acordava moído na manhã seguinte, umas dez da manhã, pra ajudar minha mãe arrumar as coisas da pastelaria (que durou até 2010, vejam só vocês).

Em Atenas, em 2004, já estava trabalhando. E também no meio da graduação, em Campinas. Mas foi a primeira Olimpíada que acompanhei via Internet. Facilitou demais. Notícias que você não tinha via TV e demorava para saber você conseguia nos portais. Ainda não havia stream, mas só de ter a informação com pouco delay já era um privilégio enorme.

Em Pequim duas coisas bacanas se juntaram. As competições de madrugada e a facilidade da Internet. Eu tinha voltado pra Santo André, mas já não ajudava a minha mãe na pastelaria (ela é guerreira demais, tenho um orgulho imenso dela – e falo isso mesmo sabendo que ela provavelmente nunca lerá esse texto). Entrava no trabalho às 11 da manhã. Como a idade pesa e já não dava pra dormir duas horas por noite sem o corpo cobrar, assistia até uma três e meia da manhã, vendo as notícias no computador. Acordava às nove, tomava aquele banho matinal e ia trabalhar.

 Dessa vez, não sei direito como proceder. Estou numa fase corrida da vida. Provavelmente acompanharei apenas alguns eventos, em frente à TV, ao computador ou pelo 3G. Acompanhar a Olimpíada de diferentes formas é uma prova definitiva de que não foi só a minha vida que mudou nesses 24 anos acompanhando Olimpíadas. Foi o mundo.

E nesse tempo, não perdi a capacidade de me emocionar. Chorei quando o Vanderlei Cordeiro de Lima foi derrubado pelo Cornelius Horan, levantou e seguiu em frente, até a medalha de bronze. Também me emocionei quando os atletas de Timor Leste desfilaram com a bandeira olímpica em 2000, na Cerimônia de Abertura (sim, é meu fraco). E quando Muhammad Ali, mesmo com Mal de Parkinson, foi acender a Pira Olímpica em Atlanta.  e poderia citar muitos outros momentos que marejam os olhos aqui.

O fato é que para mim as várias Olimpíadas foram uma forja. Os exemplos de superação e de amor ao esporte me inspiram até hoje. E continuarão me inspirando. Os Jogos Olímpicos sempre foram uma forja para o meu caráter, sempre ajudaram a definir não o que eu sou, mas o que eu quero ser. E é assim que a Olimpíada deve ser encarada: como uma forja, um turbilhão de bons exemplos que nos ajudam a ser pessoas melhores.

E é por isso que eu quero assistir essa Olimpíada, e mais quantas eu puder durante a minha vida. É por isso que eu amo os Jogos Olímpicos desde quando fui apresentado a eles, na Cerimônia de Abertura de Seul. A partir dessa sexta-feira, 27 de julho, poderemos novamente ter o privilégio de acompanhar os Jogos, por 16 dias. E poderemos também, em pouco mais de duas semanas, tornarmo-nos pessoas um pouco melhores.

“A coisa mais importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas participar, assim como a coisa mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta. O essencial não é ter vencido, mas ter lutado bem”

Juramento Olímpico, versão original.

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6 respostas para Forja Olímpica

  1. Sergio disse:

    Léo, consigo admirar você demais sem te conhecer, apenas pelo blog. Que lindo texto, assim como muitos outros. Abraços e vamos ver a olímpiada!

  2. gugudada disse:

    Bacana o texto. Vivo na espanha e ontem antes de abertura em londres vi um documentario sobre Barcelona 92 e a abertura de 92 na íntegra! Foi emocionante ver o Aurélio Miguel com a bandeira e escutar os comentaristas comentarem a candidatura de Brasilia 2000 enquanto mostravam o Collor na tribuna! Sem falar da primeira participação da Bósnia. Só fiquei triste ao saber que a frase do barão de coubertin estava incompleta. Segundo suas convicções “o importante é competir” se você não for uma mulher.

  3. Rafael Leite disse:

    Também gosto muito das Olimpíadas, por isso decidi que em ano de Olimpíadas tiro férias nesse período. Tenho a facilidade de poder dividir as férias em até 3 períodos, daí marquei as 2 semanas das Olimpíadas, não quero perder nada.

    Fiz isso por causa das última Copa do Mundo que pouco pude acompanhar.

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