O maior caráter do futebol mundial


Quando a TV Cultura anunciou a transmissão das semifinais da Champions League 1998/1999, o texto do comercial era algo assim (posso ter errado algumas palavras ou nomes, admito):

“Os quatro melhores times da Europa em busca do maior troféu do futebol mundial. Da Itália, a Juventus de Del Piero e Zidane. Da Inglaterra, o Manchester United, dos ídolos Beckham e Schmeichel. Da Alemanha, o Bayern de Munique, do veterano ídolo Matthäus. E da Ucrânia, o Dynamo de Kiev, da dupla infernal Rebrov e Shevchenko”

Rebrov e Shevchenko?

Rebrov construiu uma carreira sem nenhum sucesso no futebol inglês, no Tottenham e no West Ham. Enganou por lá de 2000 a 2005, voltando para o Dynamo Kyiv, time em que ficou mais três anos. Encerrou a carreira no Rubin Kazan em 2009, e hoje é auxiliar técnico de Oleg Blokhin na seleção ucraniana.

Mas ele não é o assunto do texto. Shevchenko, após o desempenho naquela Champions League (ele já havia arrebentado na Champions League 1997/1998, em que o Dynamo trucidou o Barcelona duas vezes), foi contratado pelo Milan. Agora, 13 anos depois, está se aposentando.

Shevchenko construiu uma carreira monumental no Milan entre 1999 e 2006. Ganhou a Bola de Ouro da France Football em 2004. Uma Champions League, em 2002/2003. Sempre foi amado pela torcida milanesa, mesmo quando não fez nenhum gol em seu retorno ao clube, entre 2008 e 2009.

Shevchenko, pra mim sempre foi sinônimo de elegância e de caráter. Não um herói, intocável, mas um sujeito de caráter irrepreensível. Um desses sujeitos raros que ninguém consegue torcer contra.

Ser um sujeito de caráter é diferente de ser um herói. Heróis tem uma aura de intocáveis, e Shevchenko não é intocável. Nunca foi. Seu grande mérito é justamente parecer com cada um de nós. Ele era só uma pessoa normal, até meio pacata, que jogava muito futebol.

Shevchenko é tão normal que só virou jogador de futebol porque sua família teve que fugir para Kyiv quando ele tinha 10 anos de idade, porque sua vila natal, Dvirkivschyna, teve que ser evacuada devido ao desastre de Chernobyl.

Uma pessoa normal que conseguiu se superar e ajudou a levar a Ucrânia, que nunca tinha ido a uma Copa do Mundo, até as quartas de final da Copa de 2006. E isso logo após se recuperar de uma contusão grave, dois meses antes da Copa, atuando pelo Milan.

Uma pessoa normal que comete erros, e que saiu do Milan, onde era ídolo, para o Chelsea, aos 30 anos, por pressão da esposa. Lá, sofreu o pão que o diabo amassou por dois anos, voltou ao Milan em busca de paz, e, em 2009, foi buscar um pouco de paz no lugar em que nasceu para o futebol: o Dynamo Kyiv.

Um sujeito normal que se percebeu vítima do inacreditável naquele fatídico dia de 2005 em que o Milan fez 3 a 0 no Liverpool, tomou 3 gols, e perdeu o título da Champions League pelos seus pés. Não no pênalti perdido ao final, mas na incrível defesa de Jerzy Dudek, que é dessas coisas que faz com que acreditemos em destino.

Um sujeito que se cansou, sofreu com contusões, e escreveu uma página final linda em sua carreira, contra a Suécia, no seu último jogo em Kyiv. Sim, porque os outros jogos da Eurocopa não importam. Se eu fosse um pai ucraniano contaria para meu filho que a Eurocopa só teve um jogo, que a Ucrânia jogou contra a seleção dos vikings, que os vikings eram cruéis e causavam medo em toda a Europa, que o time estava perdendo, e que Shevchenko, já aos 35 anos, virou o jogo com duas cabeçadas mágicas, como se tivesse 18 anos de idade. E que nada mais importou naquele torneio a partir dali.

Shevchenko comemora o segundo gol dele contra a Suécia, pela Eurocopa (Fonte: Trivela.com)

Os gols, com uma narração incrédula e uma música chata ao fundo.

Shevchenko é tão humano que até já me fez perder 100 reais, sendo especulado no Santo André. E pior: me fez rir horrores com isso.

E, como sujeito de caráter, sai do futebol para se envolver na política da Ucrânia, um país que passou por um processo absurdo de empobrecimento na década de 90 (o PIB ucraniano de 2000 é praticamente 40% do PIB de 1991), e que tem uma das políticas internas mais conturbadas do mundo. Só pra exemplificar, um presidente foi envenenado e uma primeira-ministra presa por corrupção nos últimos anos (com sérias suspeitas da prisão ser perseguição política). Não porque ele acredita na política, mas porque efoi a forma que ele encontrou de defender as cores da Ucrânia depois de sair do futebol.

A Ucrânia é um país que só se tornou independente em 1991. E teve o azar de ter os maiores nomes do esporte do país justamente na época em que a Ucrânia era parte integrante da União Soviética. A maior medalhista olímpica da história, Larisa Latynina, é ucraniana. Serguei Bubka, que detém até hoje o recorde mundial do salto com vara, com inacreditáveis 6,14 metros, também é (mas competiu a maior parte da carreira pela URSS e pela CEI – Comunidade dos Estados Independentes). O próprio Dynamo Kyiv teve suas principais conquistas continentais – duas Recopas – quando era parte integrante da União Soviética.

Shevchenko é o primeiro ídolo nacional genuinamente ucraniano, talvez no mesmo patamar dos irmãos Klitschko. É o maior caráter do mundo. É um dos maiores exemplos de PROCEDIMENTO que eu tenho no futebol. E só podemos agradecer por tudo que ele nos proporcionou jogando futebol. E torcer para que ele se torne presidente da Ucrânia logo, sem envenenamentos ou perseguições políticas que o detenham.

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2 respostas para O maior caráter do futebol mundial

  1. Tammy disse:

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  2. João Paulo disse:

    Shevchenko jogou muito… e aquela bola dele contra o Liverpool, no último minuto da prorrogação, foi de Pelé contra Banks.

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