O que nós fizemos de nossas vidas?


Ele era um sujeito normal. Cresceu em uma família humilde, viu o pai morrer de câncer na adolescência. Sobrevivia com a pensão que a mãe recebia. Começou a trabalhar cedo, conheceu sua esposa, casou. Teve duas filhas. Quando elas ainda eram pequenas, perdeu seu emprego numa multinacional. Na mesma época, sua mãe morreu, em um AVC causado pela hipertensão.

Ele ficou desesperado. Sempre bebeu socialmente, mas começou a afogar suas frustrações na bebida, mesmo depois de conseguir um novo emprego. Começou a chegar tarde em casa e a ficar agressivo. A esposa passou a desconfiar que ele tivesse um caso. De fato ele tinha, mas não com uma pessoa. Começou a beber em horário de serviço. Agrediu a mulher e as filhas. Foi expulso de casa sob gritos chorosos de “eu te odeio, eu te odeio”, depois de quebrar metade dos móveis provocando hematomas nas três meninas da casa (sim, porque toda mulher tem a alegria de uma criança, os homens é que cauterizam o coração delas).

Se afundou ainda mais. Pouco depois, perdeu o emprego por justa causa. Viveu de um bico aqui, outro ali, tentando sustentar o vício. Passou alguns anos assim. Morava em um quarto, sozinho. às vezes dormia ao relento. Ultimamente, dormia mais na sarjeta do que no quarto, e já estava com dois meses de aluguel atrasado.

Nunca largou o álcool, só o álcool entendia ele. Até começar a vomitar compulsivamente enquanto fazia um bico como servente de pedreiro. Ainda tentou continuar, mais um, dois, três dias. O corpo pedia, mas ele não conseguia mais nem sentir o cheiro de álcool, já começava a vomitar. No meio do terceiro dia desmaiou no serviço. O SAMU levou ele pro hospital. Quando acordou, estava naquele quarto do UTI.

Ele sempre foi muito inteligente, desde criança. Os pais consideravam ele a esperança da família. O pai era metalúrgico e a mãe costureira. Começou a se estranhar na adolescência, quando percebeu que se sentia atraído por outros rapazes. Nunca teve liberdade de falar isso para a família, que era muito religiosa. Aos 17 anos, não tinha mais como esconder. Contou para os pais e foi expulso de casa, o que só aumentou a convicção dele. Chegou a morar com um rapaz, por pouco tempo. Estava tão convicto que passou a usar hormônios femininos. Colocou silicone no busto e nas nádegas. Abandonado pelo companheiro, começou a fazer programas e a conviver com outros travestir. Começou a usar todo tipo de drogas, injetáveis ou não. Contraiu HIV.

Um dia, ele passou a não suportar mais a vida em que ele vivia. Queria se matar. Tentou se jogar na linha do Metrô algumas vezes, mas não tinha coragem. Ele tinha medo de sentir dor. Um dia, não suportou. Roubou pesticida agrícola de uma indústria perto do seu ponto, inalou aquilo, tentou comer, desmaiou. Acordou no quarto da UTI.

Um estava com uma cirrose hepática irreversível. Precisava de um transplante de fígado em uma semana, mas ninguém aceitaria dar um fígado para alguém com um histórico como o dele. O outro não sabia que o pesticida não matava na hora. Levaria uns dez dias até a fibrose acabar com o pulmão e a capacidade de respirar dele. Ambos estavam juntos naquele quarto de UTI.

Compartilharam suas histórias. No fim de ambas, chegaram à mesma conclusão: “o que nós fizemos das nossas vidas?”. Choraram juntos. Tornaram-se amigos inseparáveis diante da morte iminente. E decidiram fazer algo.

Ele ligou para a ex-esposa, depois de anos. Nada. Tentou o celular das filhas. Nada. Ligou no telefone da sua sogra. Ainda era o mesmo. Depois de muita insistência, conseguiu o telefone da sua mulher. Falou com ela, explicou onde estava internado. Ela veio correndo com as duas filhas.

Ela parecia vinte anos mais velha. Disse que nunca mais saiu com ninguém, que sempre acreditava que ele ainda ia voltar. As filhas eram duas adolescentes lindas, quase adultas. Ele contou toda a sua história. Pediu desculpas por todas as mentiras, pelas agressões, pelos traumas, pelo vício. Tirou das costas o peso de anos. Disse para as três que as amava. Ouviu das três a mesma coisa. Chorou com elas, como nunca antes. Ficou em paz. E em paz morreu, no dia seguinte.

Ele ligou para os pais, depois de muitos anos. O telefone ainda era o mesmo. Seu pai estava com câncer no pâncreas e tinha só mais seis meses de vida. Mas em poucas horas estava lá no hospital, ao seu lado. Ele e a sua mãe, que só observava tudo e chorava.

Depois de passado o choque pela cena inicial, ele contou tudo aos pais. Pediu perdão a eles por tudo. Pediu perdão a Deus também. Lamentou não ter sido o filho que eles queriam. Os pais choraram e disseram que o amariam para sempre. Pediram desculpas pela cobrança, pela expulsão de casa. Ele chorou como nunca, porque, pela primeira vez em muito tempo, se sentiu amado pelos pais. Que ficaram mais uma semana indo no hospital todos os dias, tentando recuperar o tempo perdido. Até ele morrer.

Eles eram dois derrotados. Dois desprezados pela sociedade. O que eles fizeram de suas vidas? Não importa. Só importa que eles estavam juntos na morte, e decidiram morrer com dignidade. Morrer com leveza. Morrer em paz. E experimentaram, no último momento, aquilo que faltou em todos os outros: o amor.

Foi o suficiente para mudar a vida de todos ao redor.

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